Suspeito

1804 Words
Capítulo 006: Suspeito Ashton pegou a carta das mãos de Damian e entrou na casa para entregá-la ao seu pai, Rowtag Galina. Enquanto isso, Atthy voltou a forjar ferro, enquanto Damian cuidava do fogo. Desde pequenos, Atthy e seus irmãos mais novos estavam acostumados a ajudar Ashton em seu trabalho como ferreiro. Atthy até costumava caçar na floresta ao lado de Ashton e de Aydan, seu irmão mais novo de treze anos. — Pai, chegou uma carta da capital. Ashton entregou-lhe o envelope. — É para o senhor. — Uma carta? — Rowtag franziu a testa. — Da capital? Para mim? — Sim. — Tem certeza de que não está enganado? Ashton deu de ombros. — Acho que não. Minha visão ainda é boa. Está escrito claramente no envelope: "Barão Galina". Rowtag aceitou o envelope e começou a ler. Alguns instantes depois, sua expressão mudou. A confusão transformou-se em espanto. — Ash... — Esta carta não é para mim. — É para você. — Para mim? — Ashton franziu a testa. — Mas no envelope está escrito "Barão". Um leve sorriso surgiu no rosto de Rowtag. — Já se passaram mais de quarenta anos. — Talvez tenham presumido que eu já estivesse morto. Seu tom parecia leve, mas carregava uma decepção que ele não conseguia esconder por completo. — Pai... Ashton olhou para ele com preocupação. — O que houve? — Esta carta traz más notícias? Rowtag balançou a cabeça lentamente. — Muito pelo contrário. — Além disso, ela realmente é para você. — Porque Atthy é sua filha. Ashton franziu a testa. — Atthy? — O que ela tem a ver com isso? — É um pedido de casamento. — Para sua filha mais velha. Ashton ficou imóvel. — Pai... — O senhor realmente está ficando velho. — Sua visão está falhando. — Dê-me a carta. Vou lê-la eu mesmo. — Como quiser. Rowtag soltou uma risada baixa. — Eu disse desde o começo... ela realmente é para você. Ele lhe entregou a carta. Ashton leu cada linha cuidadosamente. Quanto mais lia... Mais difícil ficava acreditar no que via. Repetidas vezes, alternava o olhar entre o pai e a carta, como se esperasse que as palavras mudassem de alguma forma. — Então? — Rowtag sorriu de forma travessa. — Minha visão ainda está falhando? — Pai... Os olhos de Ash continuavam presos à carta. — Este pedido... — ...é mesmo para Atthy? — Sim. A resposta de Rowtag foi breve. Mas o sorriso divertido em seu rosto nunca desapareceu. — De um Grão-Duque? A voz de Ashton quase falhou. — Se os nossos olhos ainda estão funcionando direito... — ...então é exatamente isso que está escrito. Ash engoliu em seco. Seus olhos percorreram a carta mais uma vez. — Será que... — ...a capital cometeu algum engano? — Está me perguntando? Rowtag deu uma risada baixa. — Eu nunca estudei numa academia como você. — Como eu poderia saber? Por fim, Ashton deixou-se cair sobre o banco de madeira. Seu olhar ficou vazio. Sua mente ainda lutava para aceitar uma realidade que parecia completamente impossível. Lá fora, o vento soprava suavemente entre as árvores, fazendo as folhas balançarem com delicadeza. Como se carregasse o presságio de que algo muito maior estivesse se aproximando da família Galina. Naquela noite, depois que o jantar terminou, Ashton pediu que toda a família se reunisse. As velas tremeluziam, projetando sombras dançantes pelas paredes de madeira da casa. Aydan, o irmão mais novo de treze anos de Atthy, sentou-se ao lado dela. Ao lado dele estavam Damian e Agafya, os gêmeos de oito anos. Agafya, cuja saúde frágil a acompanhava desde o nascimento, mantinha o olhar fixo em Atthy com uma expressão difícil de interpretar. — Atthy. Ash foi o primeiro a falar. — Há algo que queremos conversar com você. — É sobre você. — Sim, Pai — respondeu Atthy educadamente. Por algum motivo, uma sensação de inquietação começou a crescer em seu coração. — Você sabe que esta manhã chegou uma carta da capital, não sabe? Atthy assentiu em silêncio. — Essa carta... Ash fez uma breve pausa, procurando as palavras certas. — ...é um pedido de casamento para você. O ambiente mergulhou no silêncio. Apenas o estalar da lenha queimando na lareira podia ser ouvido. Atthy ficou paralisada. Seu olhar passou do rosto do pai para o do avô, antes de parar na carta enrolada sobre a mesa. — Por quê... Pai? Sua voz m*l passava de um sussurro. Cheia de confusão. Ash respirou profundamente. — Eu sei que tudo isso aconteceu de repente. — Nós não vamos obrigá-la. — Mas queremos que pense nisso com cuidado. — Esta é uma oportunidade que talvez nunca volte a aparecer. Atthy engoliu em seco. Casamento. Com alguém que ela jamais havia conhecido. Durante dezoito anos em Caihina, seu mundo nunca fora maior do que a aldeia, sua família, a ferraria e a floresta onde caçava. E agora... Uma única carta parecia pronta para mudar toda a sua vida. Rowtag entrou na conversa. — Atthy. — Eu entendo como você se sente. — Mas, como seu pai disse... — ...não tome uma decisão precipitada. Atthy abaixou a cabeça. Seus dedos apertaram-se firmemente sobre o colo. — Pai... — Eu ainda não quero me casar. — Nunca pensei nisso. — Eu entendo. A voz de Ashton tornou-se muito mais suave. — Mas pense com calma. — Talvez isso possa abrir um caminho para uma vida melhor. — Pelo menos... — ...não recuse imediatamente. Ao seu lado, Atthy percebeu alguém olhando para ela. Virou-se. Agafya. Sua irmãzinha ainda a encarava sem piscar. Seus olhos estavam cheios de esperança. Como se quisesse dizer alguma coisa... Mas não conseguisse encontrar coragem para falar. Depois do jantar e de uma breve conversa, todos voltaram para seus respectivos quartos. A modesta casa possuía apenas quatro quartos. Rowtag e Ashton tinham um quarto cada um. Aydan dividia o quarto com Damian, o irmão gêmeo de Agafya. Enquanto isso, Atthy dividia o quarto com Agafya, apesar da grande diferença de idade entre as duas. Agafya, mais conhecida como Gafy, nascera com um corpo frágil. Mesmo assim, sua fraqueza nunca diminuiu seu espírito alegre. Ela falava muito. Falava o tempo todo. A casa, normalmente silenciosa, frequentemente ganhava vida por causa da voz de Gafy, especialmente quando Damian entrava na conversa. Era como se toda a força que faltava a Gafy tivesse sido dada ao irmão gêmeo. Naquela noite, enquanto ajudava Atthy a dobrar as roupas, Gafy perguntou de repente: — Mana... — Você vai aceitar? Atthy, que acabara de trazer um cesto de roupas secas do lado de fora, olhou para ela. — Aceitar o quê? — O pedido de casamento. Atthy sorriu de leve. — Não sei. — Ainda nem pensei nisso direito. Gafy soltou um pequeno suspiro. — Mana... — Se você for embora, vai poder ver tantas coisas que nós nunca vimos aqui. Atthy virou-se para ela com um sorriso divertido. — Por quê? — Você quer ir para a capital? — Se está me perguntando isso... — ...então, é claro que sim. Gafy sorriu radiante. Mas, um instante depois, sua respiração tornou-se um pouco ofegante. Ela segurou o próprio braço por um momento, então voltou a sorrir como se nada tivesse acontecido. — Mas, Mana... — Você sabe que isso é impossível para mim. — Eu quero muito. — Mas querer não significa que eu possa. — Eu sou fraca. — Nas nossas condições, viajar tão longe é praticamente impossível. Ela olhou para Atthy. — Mas, assim como você... — ...eu sou feliz aqui. — Sendo sua irmãzinha. — Sendo filha do Pai. — Sendo neta do Vovô. — Foi aqui que eu nasci. — Foi aqui que eu cresci. — Sou grata por isso. — Mas... — ...também quero saber como é o mundo além deste lugar. Atthy permaneceu em silêncio. Algo pesava profundamente em seu peito. — Mas, Gafy... — Eu não iria para a capital. — Eu iria para Alpen. — O território do norte. — Muito longe da capital. — A carta veio de Xerces. — Mas quem enviou o pedido foi um Grão-Duque que vive em Alpen. — Ah... Gafy assentiu lentamente. Um traço de decepção cruzou seu rosto. Mesmo assim, a esperança em seus olhos permaneceu. — Ainda assim, Mana... — Você tem essa oportunidade. Atthy apenas sorriu de leve. Ela sabia. Gafy não estava falando da capital. Nem de Alpen. O que sua irmãzinha realmente desejava era a oportunidade. A chance de ver o mundo que conhecia apenas pela imaginação. Mas os pensamentos de Atthy voltaram para a carta. Tudo parecia estranho. Um Grão-Duque? Sua família ainda carregava sangue nobre. Mas eram apenas a família de um Barão praticamente esquecido. Então... Como a família real sequer sabia que eles existiam? — Mana! A voz de Gafy a tirou de seus pensamentos. — Então... — ...talvez esse pedido nem aconteça no fim das contas? Atthy soltou um longo suspiro. — Os nobres costumam ter seus casamentos arranjados pela família real. — Geralmente por motivos políticos. — O Pai e eu já não lhe ensinamos isso? Gafy assentiu. — Normalmente existem dois objetivos. — Fortalecer um lado ou enfraquecer outro. — O problema é que... — ...o título do Vovô é baixo demais para estar envolvido nos jogos políticos do reino. — Foi por isso que o Pai me pediu para pensar com cuidado. — Porque ele também sente que há algo errado. — Será que isso vai acabar sendo algo r**m? — Eu não sei. — Nós nem conhecemos o Grão-Duque Griffith. — Também não sabemos quem me recomendou. — Ainda há peças demais escondidas na escuridão. Gafy continuou sorrindo. — Isso significa... — ...que ainda existe uma chance. Seus olhos inocentes brilhavam de esperança. — Você realmente quer ver o mundo além deste lugar? — Uhum. Gafy assentiu com firmeza. Atthy olhou para a irmãzinha por um longo momento. — Está bem. — Eu realmente vou pensar nisso com toda a seriedade. Mesmo assim... A inquietação em seu coração se recusava a desaparecer. — Pense com bastante cuidado, Mana. — Deve ser maravilhoso viajar por toda parte e conhecer o mundo. — Sim... — Eu entendo. — Agora vá dormir. Atthy deu um leve toque na cabeça da irmãzinha. Gafy soltou uma risadinha antes de se deitar. Pouco tempo depois, a menina já estava dormindo. Mas Atthy não. Ela permaneceu olhando silenciosamente para o teto. Cada palavra dita por sua família ecoava em sua mente. Eles sempre haviam vivido de forma simples. Nunca reclamaram. Nunca pediram mais do que tinham. Sempre aceitaram a vida como ela era. E era exatamente por isso... Que aquele pedido de casamento parecia ainda mais inacreditável. Aquilo não era apenas um pedido de casamento. Alguém... ...estava movendo as peças nas sombras.
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