capitulo 5

1170 Words
Luzes que Cegam Os três dias de descanso passaram rápido demais. Rápido como tudo em São Paulo. Suzi quase acreditou que aquilo ainda fazia parte de algum tipo de cuidado. Dormiu em silêncio, comeu bem, não foi chamada para gravações nem fotos. O corpo agradeceu. A mente… desconfiou. Eduardo não apareceu. Mas estava em tudo. No controle. Na espera. Na manhã do quarto dia, a porta se abriu sem aviso. — Levanta — disse uma mulher, direta. — Hoje você começa. Suzi sentiu o estômago revirar. — Começar o quê? A mulher apenas a encarou. — Seu trabalho de verdade, se você for obediente e se comportar vai continuar vivendo aqui e com regalia, mas se fizer alguma gracinha ira sofrer as consequências A preparação foi diferente de tudo que ela já tinha vivido. Roupas mais elaboradas. Maquiagem impecável. Cabelo perfeitamente alinhado. Nada era exagerado… mas tudo era calculado. — Aqui não é bagunça — disse a maquiadora, enquanto finalizava o rosto dela. — Aqui é luxo. Suzi se olhou no espelho. Linda. Impecável. Intocável. Mas por dentro… inquieta. — Onde eu vou trabalhar? — perguntou, tentando manter a voz firme. A resposta veio simples. — Numa boate. — Como assim, nunca ninguém falou em boate. O irei fazer lá? —O que qualquer menina que trabalha lá faz. Quando chegaram, Suzi entendeu. Não era qualquer lugar. Era uma casa noturna de alto padrão. Fachada discreta, quase escondida… mas com carros caros parando na porta, homens bem vestidos entrando sem pressa, segurança em cada canto. Por dentro, tudo brilhava. Luzes suaves, decoração sofisticada, música envolvente. Nada gritava. Nada era vulgar. Era elegante. E isso tornava tudo mais perigoso. — Aqui só entra quem pode pagar — disse Eduardo, surgindo ao lado dela. — Público selecionado. Gente importante. Suzi observava tudo em silêncio. — Empresários, políticos, homens influentes… — continuou ele. — Aqui não se vende só corpo. Ele fez uma pausa, olhando diretamente para ela. — Se vende experiência. Suzi sentiu um arrepio. — Hoje você vai começar como stripper — disse Eduardo, sem rodeios. — É só o início. Ela engoliu seco. — E depois? Ele sorriu de leve. — Depois… depende de você. Mas ela já sabia. Não dependia. Nunca dependeu. Nos bastidores, outras mulheres se arrumavam. Algumas conversavam, outras estavam em silêncio. Todas bonitas. Todas preparadas. Mas havia algo nos olhos delas. Cansaço. Aceitação. Histórias não contadas. — Fica tranquila — disse uma delas, ajustando o salto. — No começo assusta. Depois… você acostuma. Suzi não respondeu. Não queria se acostumar. Do outro lado, Eduardo organizava tudo. — Quero casa cheia — dizia ao telefone. — Divulgação forte. Cliente certo. Ele sabia o que estava fazendo. Fez anúncios discretos, convites direcionados, contatos exclusivos. Criou expectativa. — Hoje é noite de estreia — disse, sorrindo. — E ela vai ser o destaque. Suzi. O nome já circulava. Mesmo antes de ela subir ao palco. Quando chamaram seu nome, o coração disparou. — É sua vez. Ela caminhou. Cada passo pesado. Cada batida da música mais alta. As luzes diminuíram. E então… acenderam. Direto nela. Por um instante, Suzi não viu rostos. Só sombras. Olhares. Expectativa. Respirou fundo. Lembrou das próprias palavras. “É só não sentir.” E entrou. Do lado de fora, Eduardo observava. Satisfeito. — Ela vai dar muito dinheiro — murmurou. Marcelo, ao lado, apenas concordou. Mas não disse nada. Porque no fundo… ele também sabia. Ali… não havia mais volta. No palco, sob luzes que cegavam mais do que iluminavam… Suzi começou.E, enquanto a música envolvia o ambiente e os olhares se fixavam nela… Algo dentro dela se afastava de novo. Mais um pedaço. Mais uma parte. Até que, pouco a pouco… sentir deixou de ser opção. E sobreviver… virou regra. Quebra A música começou. Alta. Marcante. Pesada. As luzes apontavam direto para ela, cegando qualquer possibilidade de fuga. O palco parecia maior do que realmente era… ou talvez fosse o medo que aumentava tudo. Suzi ficou parada. O corpo não respondia. Lá embaixo, os homens esperavam. Alguns sentados, outros encostados, todos olhando. Não eram olhares curiosos. Eram olhares de cobrança. De expectativa. De posse. — Anda… — sussurrou alguém nos bastidores. Mas ela não conseguiu. As mãos tremiam. O coração batia tão forte que parecia que ia explodir no peito. A música continuava. E ela… imóvel. Do outro lado, Eduardo percebeu na mesma hora. O sorriso sumiu. — O que ela tá fazendo? — disse, irritado. Marcelo ficou tenso. — Dá um tempo… — Tempo? — Eduardo cortou. — Isso aqui não é ensaio. No palco, alguns homens começaram a se incomodar. Cochichos, olhares impacientes, expressões fechadas. Dinheiro não gosta de esperar. Suzi tentou respirar fundo. “É só não sentir…” Mas não funcionava. Não ali. Não daquele jeito. Ela deu um passo para trás. E foi o suficiente. Eduardo subiu ao palco sem aviso. Rápido. Frio. A música ainda tocava quando ele chegou até ela e segurou seu braço com força. — Você tá me fazendo perder dinheiro — disse entre os dentes. — Eu… eu não consigo… — a voz dela falhou. O aperto aumentou. — Consegue sim. — Não… O som seco do tapa cortou a música. Por um segundo… tudo parou. O público silenciou. Suzi perdeu o equilíbrio, mas não caiu. Levou a mão ao rosto, os olhos arregalados, mais pelo choque do que pela dor Aquilo não era mais ameaça. Era real. — Você acha que tá aqui pra escolher? — Eduardo falou baixo, mas com uma frieza que gelava. Antes que ele pudesse continuar, Marcelo subiu rápido ao palco. — Chega! — disse, segurando o braço de Eduardo. — Não precisa disso aqui na frente de todo mundo. Os dois se encararam. Tensão pura. — Então faz ela trabalhar — respondeu Eduardo, seco. — Ou tira ela daqui. Marcelo olhou para Suzi. Assustada. Paralisada. Quebrando. Ele hesitou. Um segundo. Mas esse segundo disse tudo. A música foi cortada. As luzes diminuíram. E Suzi foi retirada do palco como se fosse um erro. Como se fosse nada. No camarim, o silêncio era pesado. Ela estava sentada, abraçando o próprio corpo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. A dor no rosto ardia. Mas não era o que mais doía. Era o resto. Marcelo entrou devagar. — Você precisa se controlar — disse, evitando olhar diretamente para ela. Suzi levantou os olhos, ainda marejados. — Eu não consigo… Ele respirou fundo, impaciente. — Aqui não é sobre conseguir. É sobre fazer. Silêncio. — Você acha que alguém aqui teve escolha? A pergunta ficou no ar. Sem resposta. Porque ela já sabia. Do lado de fora, Eduardo observava tudo com frieza. Sem culpa. Sem dúvida. — Ajusta ela — disse para alguém da equipe. — Ou substitui. Simples assim. No espelho, Suzi se olhou novamente. A maquiagem ainda perfeita. O rosto ainda bonito. Mas os olhos… quebrados. E, pela primeira vez, ela entendeu uma coisa com clareza absoluta: Não bastava não sentir. Ali… Ela também não podia falhar.
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