capitulo 6

1283 Words
Sem Privilégios O camarim parecia menor naquela noite. O silêncio, mais pesado. Suzi ainda sentia o rosto arder, mas agora havia algo diferente dentro dela. Não era só dor. Era revolta. Marcelo já tinha saído. As palavras dele ainda ecoavam na cabeça dela — frias, distantes, vazias. “É sobre fazer.” Ela se levantou devagar. Respirou fundo. E saiu. Eduardo estava no corredor, conversando com um dos seguranças. Postura firme, expressão controlada… como se nada tivesse acontecido. Como se aquilo fosse rotina. — Eu não vou fazer isso — disse Suzi, parando na frente dele. A voz saiu firme. Pela primeira vez… sem tremor. Eduardo a encarou. Silêncio. — Você não entendeu ainda onde tá — respondeu ele, baixo. — Eu entendi — ela rebateu. — E eu não sou isso, eu sai da casa da minha mãe, para não ser abusada, você acha que eu vim para uma cidade que nem conheço para ser abusada novamente. Aquilo foi suficiente. O golpe veio rápido. Seco. Dessa vez mais forte. Suzi caiu no chão, sem conseguir se segurar. O impacto fez tudo girar por um segundo. — Você é exatamente isso — disse Eduardo, sem alterar o tom. — Só ainda não aceitou. Ela tentou se levantar. Mas o corpo não respondeu de imediato. — Leva ela — ordenou ele. Dois homens se aproximaram. Sem cuidado. Sem palavra. A puxaram pelo braço, arrastando pelo corredor. O lugar para onde a levaram era outro mundo. Sem luxo. Sem espelhos grandes. Sem luz bonita. Um quarto coletivo, abafado, com colchões finos espalhados pelo chão. O ar pesado, carregado de cansaço e silêncio. Ali não havia maquiagem impecável. Nem sorrisos ensaiados. Apenas realidade. — Fica aí — disse um dos homens, soltando o braço dela. A porta fechou. Trancada. As outras meninas olharam. Algumas curiosas. Outras… já acostumadas. Uma delas se aproximou devagar. — Nova? Suzi não respondeu de imediato. Ainda tentava recuperar o ar. — Eu não pertenço a esse lugar — disse, por fim, quase para si mesma. A garota soltou um riso baixo. — Nenhuma de nós pertence. Silêncio. — Então por que vocês estão aqui? A pergunta saiu carregada de revolta. A menina se sentou ao lado dela. — Porque aqui é onde a gente vem parar quando tenta bater de frente. As palavras gelaram. — E depois? A garota hesitou. Mas respondeu. — Depois… depende. — Depende do quê? Ela olhou direto nos olhos de Suzi. — Se você quebra… ou se eles quebram você. Outra menina, mais nova, falou do fundo do quarto: — Ou se te mandam embora. Suzi virou o rosto. — Embora? Um silêncio estranho tomou conta do ambiente. Ninguém respondeu de imediato. Até que uma voz mais baixa disse: — Pra fora do país. — Como assim? A menina deu de ombros, mas o olhar denunciava medo. — Tem gente que paga caro por menina “nova”… “diferente”… — fez uma pausa. — “intocada”. Suzi sentiu o estômago revirar. — Isso não existe… — Existe sim — respondeu outra, seca. — E quando você não serve mais aqui… você vira negócio em outro lugar. O nome não foi dito. Mas o peso ficou no ar. Suzi abraçou as próprias pernas. O mundo parecia fechar. Mais uma vez. — Então é isso? — sussurrou. — Não tem saída? Ninguém respondeu. Porque todas ali já sabiam. Horas depois, deitada em um colchão fino, olhando para o teto descascado… Suzi não chorou. Não gritou. Não falou. Mas algo dentro dela mudou. De novo. Não era mais só sobrevivência. Agora… era resistência. E, pela primeira vez desde que chegou ali… Um pensamento surgiu. Frio. Claro. Perigoso. Se ela quisesse sair… não podia enfrentar. Tinha que aprender o jogo. E jogar melhor.Preço do Erro O escritório estava fechado. Luzes baixas. Um copo de bebida já pela metade na mão de Eduardo. Ele andava de um lado para o outro, irritado, enquanto Marcelo permanecia encostado na parede, em silêncio. — Sabe quanto eu investi nessa noite? — Eduardo falou, a voz carregada. — Sabe? Marcelo não respondeu. — Cliente selecionado, divulgação, expectativa… — ele virou o copo de uma vez. — E ela me faz aquilo. Silêncio. Pesado. — Foi à primeira vez dela ali — Marcelo disse, tentando manter a calma. — Era esperado algum erro. Eduardo riu, sem humor. — Erro? Aquilo foi um desastre. Ele se aproximou. — Aqui não tem espaço pra erro. Marcelo sustentou o olhar, mesmo desconfortável. — Então dá tempo pra ela aprender. Eduardo estreitou os olhos. — Você tá defendendo ela agora? O que foi quer f***r a baianinha? É isso? Marcelo respirou fundo. Hesitou. Mas falou: — Ela é minha. O silêncio caiu como uma lâmina. Eduardo ficou imóvel por um segundo. — Sua? — Eu a trouxe. — Marcelo engoliu seco. — Ainda não rendeu nada. Você não perdeu, só não ganhou ainda. Eduardo deu um sorriso de lado, perigoso. — Então ela é um investimento seu? Marcelo não respondeu. Mas não recuou. E aquilo já era resposta suficiente. Eduardo virou as costas, pegando outra dose. — Ótimo — disse, frio. — Então vamos ver se esse investimento presta. Ele bebeu devagar. Pensando. Calculando. Irritado. — Traz ela. Marcelo franziu a testa. — Pra quê? Eduardo olhou por cima do copo. — Eu vou entender qual é o problema. O tom não deixava espaço para questionamento. Minutos depois, a porta se abriu. Suzi entrou. Devagar. O ambiente parecia mais sufocante ali dentro. O cheiro de álcool, o silêncio, os olhares. Ela parou perto da porta. — Fecha — disse Eduardo. Ela obedeceu. Marcelo permaneceu ali, mas inquieto. — Pode deixar — Eduardo falou, sem tirar os olhos dela. Marcelo hesitou. — Eu fico. Eduardo não insistiu. Apenas sorriu de canto. — Como quiser. Suzi evitava olhar diretamente. Mas sentia o peso de cada segundo. Eduardo se aproximou devagar. Sem pressa. Observando. — Você me deu prejuízo hoje. A voz era baixa. Controlada. — Eu… — ela tentou falar, mas travou. — Não — ele interrompeu. — Agora você vai ouvir. Ele deu mais um passo. — Aqui ninguém tá interessado no que você sente. Silêncio. — Só no que você faz. Suzi respirou fundo, tentando se manter firme. — Eu não sou… isso. Eduardo inclinou levemente a cabeça. Como se analisasse algo. — Ainda tá nessa? Ele se aproximou mais. Perto demais. — Você acha que pode escolher? Ela não respondeu. Mas não desviou. E aquilo chamou atenção. Marcelo observava tudo. Tenso. Dividido. Mas quieto. Eduardo deu uma volta ao redor dela, como se estudasse cada reação. — Medo… resistência… orgulho… — murmurou. — Interessante. Ele parou na frente dela novamente. — Você pode continuar lutando… — disse, calmo. — E sofrer mais. Uma pausa. — Ou pode aprender rápido. Suzi sentiu o coração acelerar. Mas manteve a postura. — E se eu não quiser? O silêncio voltou. Denso. Perigoso. Eduardo sorriu. Sem qualquer calor. — Todo mundo quer… depois de um tempo. Ele se afastou, pegando o copo novamente. — Leva ela de volta — disse, como se já tivesse decidido algo. Marcelo não se mexeu de imediato. — E aí? — perguntou, cauteloso. Eduardo deu mais um gole. — Ainda não sei… — respondeu. — Mas vou descobrir. Ele olhou novamente para Suzi. Um olhar diferente agora. Mais calculado. Mais interessado. — Ela não vai ser descartada tão cedo. Do lado de fora, o ar parecia mais leve. Mas Suzi sabia… Aquilo não era alívio. Era só o começo de algo pior. E, no fundo… ela também sabia: Eduardo não estava mais irritado. Estava curioso. E isso… era muito mais perigoso.
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