Bianca encara seu reflexo cansado no espelho do quarto, fazia um bom tempo que ela não sabia o que era sorrir de verdade.
Desde que sua irmã mais velha morreu as coisas não tem sido fáceis para ela. Haviam lhe prometido liberdade quando fosse maior já que a irmã, Laura, tinha se casado com o futuro capo da famiglia, prometido que ela poderia trilhar seu próprio caminho sem amarras da máfia mas então tudo foi destruído quando anos depois Laura faleceu numa invasão inimiga.
Nem deu tempo o suficiente para Bianca fugir...
Logo que a filha mais velha faleceu seus pais fizeram de tudo para manter Bianca na mais rigorosa criação, por que talvez o homem que foi marido de sua irmã a escolhesse também, mas não foi isso que aconteceu.
Não que Bianca esperasse que Dante, o homem que era perdidamente apaixonado por Laura, se casasse com ela. Ele havia se casado com sua irmã por amor e casar-se com ela por política seria a coisa mais deprimente que poderia acontecer com ela..
Mesmo que no fim das contas ela soubesse que casaria por política, de uma maneira ou outra.
Ela não queria viver á sombra de sua irmã ao se casar com Dante, mesmo que soubesse que ele era um perfeito cavalheiro com as mulheres.
Então quando Dante casou-se com Angela, uma moça de fora da máfia, Bianca ficou com medo. Com quem ela se casaria, afinal? Será que ela casaria com alguém com três vezes a idade dela, igual aconteceu com sua prima?
Pensar sobre isso fazia seu estômago revirar..
Então todos os dias ela levantava de sua cama tensa, sem saber o que esperar das noticias da família, aguardando o temido dia em que seu pai anunciaria seu casamento e anunciaria também seu noivo.
Passou-se meses e por um breve momento Bianca até achou que seus pais não iriam forçá-la a casar, mas isso era apenas passageiro já que depois de tanto tempo seu pai finalmente anunciou que ela casaria.
"Com quem"
Era a única coisa da qual ela se perguntava, tentou conversar com seu pai e até mesmo com sua mãe, mas desde que Laura morreu eles haviam se fechado e se tornado mais rígidos, então não disseram nada. Bianca sentia como se fosse um fardo para eles..
Algumas semanas depois o jantar de noivado foi marcado e ela finalmente conheceria seu noivo. Estava ansiosa e ao mesmo tempo com medo, ninguém a dissera quem seria, apenas que seria da Chicago Outfit. Os empregados viviam fofocando sobre as histórias cruéis dele, que ele era sem coração, isso a deixava ainda mais apavorada.
Então olhando seu reflexo triste no espelho Bianca viu sua liberdade ir embora finalmente. Quem quer que fosse seu noivo nunca seria bom como Dante teria sido, talvez os pensamentos de Bianca fossem exagerados mas ela não esperava nenhum tipo de bondade.
A porta do seu quarto abriu de repente e a figura da sua mãe entrou no seu campo de visão.
— Está na hora de descer, Bianca, a maior parte dos convidados chegaram. - A mãe de Bianca murmurou, sem emoção alguma. - E por favor, coloque um sorriso neste rosto, não quero que aborreça o noivo.
Bianca revirou os olhos discretamente para as alegações da mãe. Era horrível como no seu mundo os homens precisavam sempre serem agradados.
Ela suspirou levemente olhando novamente seu reflexo no espelho e conformada tentou colocar um sorriso falso no rosto, enquanto levantava e seguia sua mãe pelos corredores da enorme casa.
Durante o curto trajeto sua mãe não lhe dirigiu uma palavra, assim como nenhum olhar também. Bianca já tinha se acostumado.
Conseguia ouvir os murmúrios dos convidados ao longe, conversas animadas e uma música baixa ao fundo, ao chegar no salão só conseguia pensar que metade das pessoas ali presentes nunca se quer perguntaram se ela estava bem algum dia e achava aquilo ridículo, eles estarem ali.
Mas apesar disso, Bianca cumprimentou todo mundo com um sorriso doce nos lábios pois sabia que se não o fizesse seria pior depois. Todos eles pareciam notar o quanto desconfortável ela estava mas ninguém se importava o suficiente para comentar sobre.
Bianca se sentia nervosa depois de cumprimentar todo mundo, sentou-se em um canto e tentou adivinhar quem dentre todos esses homens era seu noivo. Seus pais já os teria apresentado, não é?
Mas o nervosismo de Bianca diminuiu assim que avistou Angela entrando na sala, e um sorriso de verdade surgiu em seus lábios, assim como empolgação de ver um rosto que realmente era amigável com ela.
— Angela! - Bianca cumprimentou se aproximando rapidamente da mais velha, que estava deslumbrante como sempre, dando-lhe um abraço em seguida. - Fico feliz que esteja aqui, como você está?
— Estou bem, querida. E você? Parece que cresceu tanto. - O sorriso acolhedor de Angela, assim como seu cafuné em seus cabelos, era acolhedor. Bianca queria que Angela fosse sua irmã pois ela era tão gentil e lhe fazia sentir em casa como nenhuma outra pessoa, nem mesmo seus pais.
— Estou bem, na medida do possível. - Ela não conseguia esconder a tristeza do seu tom de voz, Bianca era péssima em esconder sentimentos. Mas não estava afim de falar sobre isso, ela não queria deixar a conversa pesada então procurou por Dante, que não estava acompanhando a esposa. - Dante não veio com você?
— Ele deve estar no banheiro. - Bianca sabia que era mentira, a feição gentil de Angela vacilou assim que ouviu o nome do marido. Será que eles estavam com problemas? - Mas e você? o que há de errado?
— Ham.. Nada. - Bianca tentou desconversar, até desviou o olhar, não sabia se deveria ou não falar disso com Angela.
— Você sabe que pode falar comigo, não é? - Angela segurou as mão de Bianca, num gesto carinhoso. Fazia um tempo que Bianca não sabia o que era a afeição de alguém e por mais segura que ela se sentia com Angela, não queria levar problemas.
— Não quero incomodar você com meus assuntos, Angela. Você já tem preocupações demais sendo mulher de Dante. - Devia ser complicado ser mulher do futuro capo, sempre pensou isso quando foi a sua irmã no lugar de Angela, em como elas deveriam ser perfeitas, sempre sob o olhar rígidos de todo mundo, na pressão de gerar um herdeiro logo.
— Eu quero ser sua amiga, Bianca. Ficarei feliz em te ouvir. - Angela insistiu, fazendo o coração de Bianca desmanchar.
Bianca pensou por alguns momentos, ela queria conversar sobre isso, colocar pra fora tudo que estava a afligindo mas deveria saber escolher as palavras.
— É que eu.. - Tentava escolher o que dizer, enquanto baixava o olhar e observava seus sapatos.- Quando Laura se casou com Dante, eu fiquei feliz por que não precisaria me casar por dever mas então ela.. - Um sentimento r**m* passou pelo peito de Bianca que a fez pausar, lembrando sobre a irmã. - E como agora sou a única filha deles, devo me casar logo com alguém da Outfit.
Bianca estava nervosa, m*l* conseguira falar as palavras direito. Esperava que Angela tivesse entendido o que ela queria dizer, pois não queria chamar atenção.
— Não há como impedir isso?
Uma onda de conforto preencheu o peito de Bianca, fazendo-a olhar para a loura á sua frente com um sorriso no rosto, apesar dos olhos marejados. Era tão bom ver o quanto Angela era inocente, ver o quanto ela tinha esperança. Afinal, era assim que todos fora desse mundo era?
— Quem me dera. - A mais nova murmurou. - Não há saída da Cosa Nostra além da morte, ou no meu caso o casamento.
Parecia errado a maneira que Bianca pensava mas sabia que a morte* era melhor que casar-se com alguém desse mundo. Os homens eram cruéis, poucos se salvavam, não tinham respeito pelas mulheres e isso assombrava as noites de Bianca.
— Talvez ele não seja tão r**m, você já o conhece? - Era notório o quanto Angela estava incomodada, sua feição preocupada, tentando sorrir para Bianca era o que confortava a mais nova. Talvez por isso ela gostava tanto de Angela desde que a conheceu, por que ela era doce e ingênua e isso fazia Bianca imaginar o mundo lá fora.
— Ele chegara esta noite para falar com Dante, por isso estamos aqui. - A pele de Bianca arrepiou inteira pensando sobre isso e olhando em volta procurando por um rosto. Era tradição que o capo, ou no caso o futuro capo, aprovasse o casamento dos seus subordinados. - Eu nunca o vi mas dizem que ele é um desalmado sem coração. A Outfit não tem o mesmo respeito com suas mulheres que alguns de nossa famiglia tem, Angela. E eu tenho medo disso.
Não que os homens da Cosa Nostra fossem mais gentis mas imaginar que existia organizações ainda piores que a deles a respeito disso, fazia Bianca estremecer.
Bianca foi pega de surpresa com o abraço repentino de Angela, forte e acolhedor. A vontade de chorar foi grande mas Bianca se segurou se não seria algo que seu pai trataria depois, então apenas rodeou os braços ao redor de Angela e se aconchegou em seu abraço.
— Vai ficar tudo bem. - Angela acariciou os cabelos de Bianca, aflita com toda aquela situação e se sentindo impotente por não poder fazer nada pra ajudar.
— Está tudo bem aqui? - A voz firme de Dante fez Bianca saltar num pulo, susto e ao mesmo tempo receio. Ela sabia que Dante era um homem de bem mas não tinham uma amizade ou até mesmo i********e o suficiente, ela não sabia se ele ficaria incomodado com a aproximação que teve com Angela.
— Sim, está Sr. Cavalliere. - Bianca forçou um sorriso para disfarçar, já que Dante olhava desconfiado para ambas. - Quando nosso convidado chegará?
Bianca tinha que fingir estar satisfeita com a união.
— Ele chegou tem cinco minutos, senhorita Romano. Acredito que ele esteja conversando com seu pai. - Todos os poros do corpo de Bianca se arrepiaram, seu sorriso vacilou em seu rosto assim como as batidas do seu coração falharam por um mísero segundo.
Olhou em direção para qual Dante apontou e engoliu em seco ao reconhecer aquele rosto de longe e todos os seus pesadelos ganharem vida.
Pietro Salvatore.
Ele era seu noivo.
Pietro, o homem do qual foi perdidamente apaixonado por Laura e transferido da Cosa Nostra para a Chicago Outfit devido ao conflito que teve entre ele e Dante após a morte da sua irmã. Ainda se lembrava o quanto sua irmã era arisca, e quantas vezes ela saiu no meio da noite para se encontrar com Pietro. Laura teve o amor de ambos, que se consideravam irmãos, e os tornou inimigos.
Seu coração batia tão forte que jurava que as outras pessoas ao redor podiam ouvir. Dante começou a guiar a esposa para próximo e Bianca andava ao lado estática, encarando o rosto de Pietro ainda sem acreditar que ele era seu noivo.
— Dante Cavalliere, il freddo. - A voz rouca, firme e ameaçadora de Pietro entrou nos ouvidos de Bianca como espinhos, mesmo que o cumprimento não tenha sido para ela.
— Pietro Salvatore, il crudele. - Dante respondeu e Bianca conseguia sentir a tensão no ar. Os dois se odiavam, conseguia ver as faíscas enquanto os dois se encaravam. Bianca estava tão nervosa que m*l* percebeu se aproximar de seu pai.
— Quando me disseram que Dante pisou no ego de Domenico Cavalliere ao se casar com uma mulher de fora, eu achei que tinha enlouquecido, ainda mais sendo uma Tommaso. - O olhar intenso de Pietro para Angela era pertubador. - Mas agora percebo o porquê.
Dante apenas abriu um sorriso cínico para Pietro.
— Bianca é muito jovem pra mim, faz mais o seu tipo. - Bianca nunca tinha visto Dante tão tenso e ao mesmo tempo tão arisco. Ele era conhecido por ser muito controlado sob qualquer problema porém parecia que diante Pietro toda calmaria de Dante ia embora.
Bianca não deixou de se sentir ofendida com o comentário de Dante mas se manteve de boca fechada se não sobraria pra ela.
— De fato, imagino o quanto ela ficará ainda mais bonita quando mais velha, assim como a irmã foi. - Era nitido que estavam se provocando e assim como Bianca, seu pai e Angela pareciam preocupados com o que aquela conversa resultaria mas foram pegos de surpresa quando Pietro murmurou cínicamente para Thomas, pai de Bianca. - Prometo que em minhas mãos sua filha terá a melhor proteção que existe.
As unhas de Bianca afundavam em sua palma, tamanho nervosismo que sentia naquele momento. Olhando o comportamento de Pietro suas esperanças de que ele podia ser um bom marido para ela iam ralo abaixo.
— Acho que devemos deixar a familia e o noivo resolverem por si. Não precisa de Dante agora, não é sr. Romano? - Angela tomou a frente da situação antes que todo mundo, Bianca ainda permanecia em choque.
— Sim, Angela. Obrigada querida. - Até mesmo o pai de Bianca parecia um pouco abalado com a situação. Todo mundo sabia o quanto Pietro e Dante eram bons de briga, ambos treinaram juntos, ninguém queria ver um banho de sangue.
Bianca observou Angela lhe lançar um olhar piedoso e um sorriso nervoso, enquanto puxava Dante para longe dali. Pietro encarava o casal com um olhar perverso e aquilo fez o corpo inteiro da ruiva tremer.
Ele não tinha escrúpulos, o que seria de Bianca quando estivesse sozinha com esse homem?
O olhar de Pietro finalmente caiu sobre a ruiva, o sorriso dele se fechou no mesmo instante e o copo que estava em sua mão com bebida, do qual Bianca nem havia notado, foi tomado num gole só.
— Ela faz dezoito em poucos meses, certo? - Pietro murmurou a olhando, analisando cada detalhe em seu rosto, mas a pergunta direcionada ao seu pai. Thomas apenas concordou, temendo o m*l* humor do rapaz. - Organizaremos então o casamento para poucos dias depois.
O olhar de Pietro deixava Bianca estática, ele a olhava com tamanha intensidade e escuridão que ela perdia o foco. A cicatriz no rosto de Pietro o deixava ainda mais perverso e Bianca só conseguia pensar que estava completamente perdida.
Casar-se com Pietro Salvatore era um castigo.