Em uma semana não tive nenhuma evolução considerável e já estava à beira de arrancar os cabelos. Plantar algumas escutas soltas pela casa foi meu único avanço, mas não consegui informação útil com isso. Já que não foi possível colocar em lugares estratégicos, como o escritório do Marcos, por motivos de que ele não saia de lá. Acho que dormia no escritório, não era possível, e só quem tinha permissão de entrar sem ser chamado era a Maria. Conclusão, estava quase em desespero. Mas ainda tinha tempo e minha reunião com Elizabeth seria daqui uma semana. Onde eu teria que informar em que pé estávamos, ou seja, tinha mais no máximo sete dias para conseguir algo consistente e digno para informar à minha contratante.
Fora as birras da Bianca que já estavam me dando nos nervos, mas sem poder revidar, só aceitava com um sorriso gentil. Mesmo que por dentro quisesse que ela parasse de me irritar, porque eu não tinha sangue de barata. Apesar de compreender a atitude da Bianca, devido a perda da mãe e a ausência do pai, ela não podia descontar em mim!
De qualquer forma, não havia outra opção além de continuar, desistir não estava nos meus planos.
— Senhorita Susan — escutei meu nome soar do escritório do Marcos.
Ele nunca me chamava por si só, apenas pela Maria. Por isso fiquei apreensiva, mesmo assim fui até lá. Bianca ainda estava na escola, eu não tinha muito o que fazer até que ela chegasse.
Bati na porta duas vezes e ao ouvir “entra” passei para dentro, esperando que ele não tivesse encontrado nenhuma escuta minha ou eu estaria em maus lençóis.
— O senhor precisa de alguma coisa? — indaguei com o coração aos pulos.
Hoje ele vestia camisa social com dois botões abertos e as mangas arregaçadas até os cotovelos, os cabelos pareciam meio rebeldes e a barba passava do ponto habitual dele. Parecia perdido. O olhar caído e os sucos no canto dos lábios indicavam que Marcos não estava em seu melhor dia. E por um momento senti remorso pelo que estava fazendo. Quer dizer, ganhei dinheiro para espionar sua vida e ganharia ainda mais se obtivesse êxito.
— Gostaria de saber se está tudo bem — tentou ser casual, mas ainda assim soou estranho e fiquei com receio de ele estar me rodeando para perguntar sobre as escutas.
Supondo que as tenha encontrado, apesar de eu ter me certificado de que todas estavam no mesmo lugar hoje pela manhã.
— Está tudo bem — pigarreei — Quer dizer, acho que está.
Seus lábios se curvaram em um meio sorriso.
Espera, ele sorriu para mim?
— Imagino que não seja fácil lidar com a Bianca agora — abri a boca para responder, mas não quis ser indelicada.
— Bom… — coloquei o cabelo atrás da orelha para disfarçar e fiquei surpresa quando Marcos continuou:
— Ela ainda não consegue lidar com a perda da mãe e não estou ajudando muito — ele colocou as mãos no bolso da calça social.
Era alto.
Muito alto.
E bonito.
Demais!
Do tipo que levaria qualquer mulher à loucura. Exceto pelo olhar perdido de quem está à deriva. Não era convidativo de início, mas talvez com o tempo despertasse a vontade de cuidar dele.
Balancei a cabeça para afastar aqueles pensamentos. Não estava ali para analisar o Marcos e sim para descobrir a verdade sobre a morte de sua esposa. Mas olhando para ele assim, não conseguia sequer relacionar com o caso. Como esse homem tão tristonho à minha frente poderia ter feito algo com a esposa em busca de dinheiro? Se fosse porque continuaria trabalhando tanto? Enfim, questionamentos.
Entretanto, não estava ali para ser advogada dele também. Precisava garantir o meu e se me tornasse defensora do Marcos, colocaria meu pé de meia em risco. Afinal, estava sendo paga para investigar.
— Você já almoçou? — Sua voz soou distante.
— Oi? — pisquei os olhos, perdida.
— Preciso conversar com você e como a Bianca ainda está na escola, pensei se poderíamos almoçar juntos — ele parecia nervoso, mas persuasivo.
Devia ter descoberto sobre as escutas, só podia ser isso…
— Tudo bem — gaguejei uma resposta.
— Tem um ótimo restaurante aqui perto, podemos ir andando se preferir — apertei os dedos das mãos para conter o tremor e apenas balancei a cabeça em afirmativo, com medo de acabar me entregando.
Mas para o meu desgosto o caminho até foi torturante e silencioso, não tínhamos assunto algum. Até tentei dizer alguma coisa espirituosa, só que a conversa não fluía. No fim agradeci a Deus pelo restaurante ficar na rua seguinte, se fosse mais longe eu teria morrido de constrangimento. Ainda assim, Marcos parecia pior, bem pior, e cogitei perguntar o motivo desse almoço inusitado o quanto antes, só que o assunto parecia sério demais e eu continuava com medo de Marcos ter descoberto as escutas pela casa.
— Desculpe te fazer vir aqui no seu horário de trabalho — mencionou cauteloso, me fazendo olhar para o seu rosto de perfil.
Certo, ele precisava ser tão alto?
— Tudo bem, enquanto a Bianca não chega, fico sem ter o que fazer — dei de ombros, mesmo com receio de ele pensar que eu ficava no ócio ao invés de trabalhar.
O que não era bem verdade. Bianca dava um trabalhão assim que chegava e meus nervos ficavam em frangalhos ao ter que lidar com ela sem enlouquecer.
— Ela gosta de você — falou me surpreendendo.
— Está me zoando? — escapou.
Sua boca se curvou em um sorriso completo.
— Jamais faria algo assim…
— Desculpe — voltei atrás, eu tinha sido deselegante — É que está sendo difícil conseguir me aproximar dela.
Chegamos ao restaurante e o assunto ficou de lado por um momento, até estarmos sentados um em frente ao outro. O lugar era agradável e tinha poucas pessoas ali, devido ao horário. Ainda era cedo para o almoço, mas não tive opção de escolha.
Fizemos nossos pedidos e enquanto aguardávamos, a curiosidade cresceu ainda mais.
— Você deve estar se perguntando porque eu te trouxe aqui — fiz que sim com a cabeça de forma quase inconsciente.
Seus dedos se cruzaram abaixo do queixo e ele refletiu por um instante, antes de soltar:
— Vou viajar a trabalho por alguns dias e gostaria de saber se pode ficar em casa ajudando a Maria — meus lábios se abriram para protestar, mas ele continuou: — Sei que está sendo difícil lidar com a Bianca, mas não posso deixar a Maria responsável por tudo sozinha.
— Tudo bem, não tenho nada importante para fazer em casa — dei de ombros — Não precisava perder seu tempo almoçando comigo só por isso.
Ele soltou um suspiro.
— Só queria saber como está sendo cuidar da Bianca e ser um pouco mais solicito já que não conversamos muito depois de ter sido contratada — assenti — Imagino que não deve ser fácil, ela é muito reservada e m*l conversa comigo.
— Talvez você devesse passar mais tempo com ela ao invés de trancado em seu escritório — escapou. Por sorte o garçom chegou com nossos pedidos e não deu tempo de eu ser repreendida de imediato.
Quando ele se afastou, fui surpreendida mais uma vez.
— Prometo que vou tentar ser mais presente assim que voltar de viagem — Marcos passou os dedos pelos cabelos sedosos. — Sei que preciso mudar isso, mas também não sei como lidar com ela depois…
— Da perda da sua esposa — assentiu — Sinto muito.
— Obrigado. — Marcos soltou um suspiro profundo antes de cravar os olhos esverdeados em mim.
— Pode viajar tranquilo.
Terminamos de comer quase em silêncio, só trocando algumas palavras cordiais e então fomos embora.
Eu teria a oportunidade perfeita para investigar, mas porque não tinha vontade alguma de fazer isso?