Capítulo 3

1180 Words
Bianca estava chateada com a viagem do pai e isso dificultava ainda mais nossa relação. Eu continuava mantendo a cordialidade, porque precisava do emprego. Mas além da convicção abalada por não imaginar Marcos sendo o culpado pela morte da esposa, ainda não queria mais ter que aguentar as grosseiras de uma criança mimada. Certo, que perdeu a mãe e tem o pai ausente, ainda assim não queria. — Sabe que precisa estudar, certo? — falei com um suspiro. Eu tinha uma lista com todos os horários e obrigações semanais da Bianca. Agora era a hora dos estudos de artes, mas óbvio que ela não parecia aberta a me ouvir. O fone gigante e rosa provavelmente não permitia que sequer um ruído chegasse aos seus ouvidos. Eu estava cansada daquilo, de verdade. Então parei de falar e comecei a mexer no celular. Se Bianca queria me ignorar, faria o mesmo com ela. Até porque estava ali por outros motivos que não ser mesmo a babá daquela pirralha. Aproveitei para responder alguns e-mails e depois comecei a jogar candy crush. Até que os dedos pequenos da Bianca passaram pelos meus olhos e acabei ouvindo sua voz: — Não está aqui para ser minha babá? — Se não me ouve, não posso fazer nada — dei de ombros de forma teatral. — Tá — rolou os olhos esverdeados que pareciam com os do pai — Só se me disser que jogo é esse — apontou para o meu celular. — Candy crush? — Elevei o tom de voz pela surpresa. — Jura que nunca jogou? — Não — ela cruzou os braços. — É legal? — Se estudar por quinze minutos te deixo jogar no meu celular — barganhei com um sorrisinho. — Certo! — Bianca pareceu super empolgada e duas horas depois não conseguia fazê-la soltar meu celular. — Acho que já chega — puxei o aparelho e ouvi um resmungo alto quando fechei a tela. — Você tem que estudar. — Se você diz. — Bianca revirou os olhos para mim, mas notei que estava mais receptiva comigo. Dava para perceber pelo tom de voz e o brilho no olhar. No fim, a tarde passou de um jeito satisfatório. Ela terminou de estudar, almoçamos juntas e no início da noite assistimos um filme de romance bem levinho. E jurei notar um mínimo curvar de lábios em seu rosto antes de dormir, m*l chegou a ser um sorriso. Apenas uma ameaça, que já me deu esperanças de não ser um completo fracasso como babá. Era uma evolução e tanto. Quem diria que o segredo para chegar ao coração daquela ogrinha eram doces explodindo em uma tela de celular? (...) As coisas entre nós estavam melhores, não podia negar. Até Maria se surpreendeu ao me ver fazendo cócegas na Bianca no sofá gigante da sala. Quer dizer, eu a ameacei de que se não estudasse, a encheria de cosquinha e bom… Bianca não acreditou. — Vim avisar que o Senhor Marcos volta um pouco mais cedo e quer jantar com vocês duas — olhamos ao mesmo tempo para a governanta elegante parada na porta da sala. Os dias passaram tão rápido que quase me esqueci o motivo de estar ali e na verdade m*l tinha avançado no meu propósito. Estava tão concentrada em não perder a pouca evolução que tive com Bianca que o resto ficou para trás. E no domingo eu teria reunião com Bernadete, na qual teria que oferecer alguma informação de valor. Mas a única coisa que tinha, era que Marcos m*l saia do escritório ou interagia com Bianca. Só que nada relacionado ao que minha contratante gostaria de saber. Eu estava ferrada. Não queria mais investigar Marcos. Não tinha nada a ser investigado. Ele não era culpado pela morte da esposa, estava claro como água. A questão era, como me livrar daquela obrigação sem ficar sem emprego? Porque se desistisse, teria de devolver parte do valor do adiantamento. Segundo o contrato, trabalhei o suficiente para não ter de devolver tudo. Ainda assim, eu precisava do dinheiro. Porque não estava certa de que continuaria trabalhando de babá e meu trabalho era como detetive, até encontrar outro caso teria que me virar. Eu precisava finalizar esse trabalho para ter algum crédito na praça. Ninguém mais ia querer me contratar se eu desistisse. Minha cabeça começou a girar, tanto que m*l ouvi a voz da Bianca perguntando se eu poderia ajudar a escolher uma roupa para o jantar com o pai. Ela parecia tão empolgada, então me lembrei da promessa de que ele iria estar mais presente na vida da filha quando voltasse de viagem. Ao menos fiz uma boa ação e mesmo que fosse um fracasso como profissional. Ainda tinha conseguido fazê-los se aproximarem, certo? Tentei me apegar a isso ao sorrir para Bianca e levantar o dedão para confirmar que a ajudaria. Bianca estudou por cerca de vinte minutos e depois correu para o quarto, disposta a encontrar a roupa perfeita para o jantar. Isso me comoveu tanto que por um momento quis tirar todas as escutas espalhadas pela casa. Não tinha captado nada útil além do choro da Bianca e de conversas sussurradas entre Marcos e Maria sobre ele precisar se cuidar mais, deixar de trabalhar tanto e participar mais da vida da filha. Maria parecia ter bastante i********e com ele, do contrário não se meteria em sua vida desse jeito. Conseguimos escolher um vestido florido e sapatilhas, enquanto eu ficaria daquele jeito mesmo. Estava ali para trabalhar e não impressionar o patrão. Até porque a culpa me corroeu durante o resto do dia. Ambos tinham perdido algo muito valioso: mãe e esposa. e eu estava investigando? E se minha atitude colocasse em risco Bianca? E se de repente Marcos fosse mesmo culpado e parasse na cadeia? O que seria da filha dele? Ela me odiaria? Com certeza, eu teria destruído sua vida e feito com que seu pai fosse preso… — Você tá estranha — A voz infantil e doce da Bianca me trouxe de volta dos meus devaneios. — Não parece estar feliz por meu pai voltar hoje. — Imagina, claro que estou — forcei um sorriso — Só estava pensando em algumas coisas. — Coisas de adulto? — Seu tom soou curioso. — Bom, sim. — Meu pai sempre me dá essa desculpa quando tento falar com ele: que está resolvendo coisas de adulto — ela sentou na cama e passou a enrolar a barra do vestido. Os cabelos castanhos estavam presos em um r**o de cavalo com duas mechas caindo pelo rosto pequeno. Ela parecia uma boneca. — As vezes acho que ele não se importa comigo. — Claro que se importa — cheguei mais perto e peguei suas mãos. — Como você sabe? — Bianca fez um bico. — Porque ele me disse antes de viajar. — Hmm… Logo após, Marcos chegou e Bianca saiu correndo para encontrar o pai. Enquanto a culpa corroía meu estômago e parecia me engolir por completo, não pensei que fosse me envolver nos problemas daquela família.
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