Capítulo 4

1018 Words
Marcos estava mais bonito do que nunca, ainda que parecesse meio cansado. Eu não sabia muito bem no que ele trabalhava, mas acho que prestava consultoria comercial para empresas. De qualquer forma, seu olhar curioso sobre mim não ajudou a aplacar o remorso que eu sentia pelo real motivo de estar naquela casa e por um momento desejei ser somente a babá e não ter um motivo escuso para estar ali. Queria jantar com aquela família e me sentir bem por vê-los juntos após a perda de uma pessoa querida. Só que a realidade era diferente e eu precisava colocar a cabeça no lugar para finalizar o que tinha de ser feito. Não tinha sorte na vida mesmo, quando encontrei um caso bom e que me renderia uma ótima grana, o meu alvo era um pai lindo com uma filha que eu estava começando a gostar. — Como foram as coisas na minha ausência? — sua voz grave ressoou entre uma garfada e outra. Estávamos comendo risoto, mas apesar de delicioso, eu não tinha fome alguma. — Boas — respondi diplomática. — Susan me deixou jogar candy crush no celular dela — Bianca disse com a boca cheia. Ele riu. — Não fala com a boca cheia, é falta de educação — ela baixou os olhos. — Desculpa, pai. — Já que a Susan m*l tocou na comida, ela pode me contar os detalhes… — Marcos largou os talheres e olhou para mim de uma forma bem direta. O que me causou um frio na espinha. Mas procurei disfarçar o desconforto e dei um sorriso amarelo. — Estamos nos entendendo — acrescentei receosa. — Fico feliz em saber disso. — Marcos desviou o olhar de mim por alguns instantes e me permiti respirar. Contudo, não estava me sentindo bem. Meu rosto estava quente e as mãos trêmulas e frias. Certo que estava nervosa, mas não era para tanto. Só que por precaução, para não deixar escapar alguma coisa e estragar tudo, pedi licença e fugi para o quarto. Assim eles podiam conversar melhor. Precisava descansar. Provavelmente amanhã já poderia voltar para a minha casa, afinal ele me pediu para ficar ali por alguns dias enquanto estivesse viajando. Eu precisava de uma certa distância emocional deles para poder continuar investigando, porque quem vê cara não vê coração. Ele poderia sim ser um sociopata e Bianca ficaria melhor longe de alguém que tinha matado sua mãe. Minha obrigação era investigar, a verdade viria de qualquer forma. Com ou sem a minha ajuda. E se voltasse atrás continuaria sendo a fracassada de sempre. Era difícil decidir para qual lado seguir, quando as convicções estavam abaladas. Não achei que passaria por isso, era para ser um trabalho objetivo. Descobrir a verdade e ganhar o restante do dinheiro, além do prestígio profissional como detetive feminina. Então porque me sentia tão m*l por estar fazendo meu trabalho? (...) Era bem tarde quando ouvi uma batida na porta. Eu vestia meu pijama confortável e pensei em ignorar, mas então a voz noturna do Marcos soou distante e me vi pulando da cama para atender. — Desculpe te incomodar tão tarde, mas a Maria já dormiu e fiquei preocupado — ele colocou as mãos nos bolsos da calça social e baixou os olhos. Parecia constrangido de alguma forma. Achei adorável. — Estou bem, acho que foi só o cansaço do dia — respondi com um sorriso gentil. — Certo, vou te deixar dormir — Marcos deu um passo para trás e sob a luz fraca do corredor, seus olhos pareciam mais escuros do que eram. Ainda assim muito bonitos. — Obrigada, mas nem estou com sono — dei de ombros. — Não? — ele parecia ansioso para conversar. E quando dei por mim, estávamos no balcão da cozinha, tomando vinho e conversando sobre a Bianca. — Então o grande salvador foi o candy crush? — indagou com um sorrisinho na voz. — Acho que sim — coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. Tinha vestido meu roupão para não me sentir tão exposta, só que Marcos continuava lindo naquele terno escuro e super perfumado para alguém que tinha voltado hoje de viagem. — Fico feliz em saber que estão se dando bem. — Marcos rodou o vinho em sua taça antes de beber mais um gole. — É impressão minha ou você parece mais feliz agora do que antes de viajar? — divaguei, mesmo ciente de que não era da minha conta se ele estava feliz ou não e que minha pergunta poderia soar impertinente. Ele suspirou ao desviar o olhar para longe, antes de voltá-lo a mim e responder: — Sinto que coloquei um ponto final em algo importante e agora tenho mesmo que seguir em frente. Fiquei tão surpresa com sua resposta que não consegui dizer nada de imediato. — Bianca ficou feliz por ter voltado antes. Ele sorriu e olhou no relógio de pulso. — Está tarde, acho melhor você ir dormir… — Tem razão — desci da banqueta e peguei as taças para lavar, mas ele colocou sua mão por cima da minha para evitar a ação. — Deixa que eu faço isso. — Imagina, eu faço. — Você precisa descansar — foi quase um ultimato, então aceitei e com um sorriso constrangido segui para o meu quarto. Aquela noite tinha sido a mais estranha de todas desde que comecei a trabalhar nesta casa. Ao mesmo tempo, não queria que tivesse acabado. Antes de dormir fiquei pensando no porquê de ele ter me chamado para conversar e ainda pior, eu ter gostado tanto daquela conversa. Estava entrando em um terreno perigoso chegando perto do Marcos dessa forma e me envolvendo sentimentalmente com a Bianca. Só não estava conseguindo evitar. Deveria, mas não conseguia. Marcos era sério de um jeito muito charmoso e Bianca se mostrou uma garota adorável por baixo da máscara de sarcasmo e rebeldia. Eu não podia me aproximar deles assim, mas fui dormir com um sorriso no rosto por ele ter vindo no meu quarto checar se eu estava bem. Estava mesmo explorando um terreno muito, muito perigoso.
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