Capítulo 2 – A Liberdade de Wando

1027 Words
FLAVIANA Quando me ligaram avisando que o Wando ia sair da cadeia, senti um aperto no peito. Não de felicidade, mas de medo. Medo do que isso significava pra mim. Pra minhas filhas. Faz quatro anos e meio que ele foi preso, e nesses quatro anos e meio eu aprendi a viver sem ele. Aprendi a carregar tudo sozinha, a me virar, a cuidar das meninas sem depender de homem nenhum. Mas agora? Agora ele tá voltando. E eu conheço o Wando. Ele pode até sair da cadeia, mas nunca vai sair da vida errada. As Meninas e o Medo que Ninguém Fala Não contei de cara pra ninguém. Sabia que, quando a Olívia descobrisse, ia virar um inferno dentro de casa. Essa menina sempre foi dura, forte, não engole desaforo, muito menos do próprio pai. Mas a Neide, linguaruda do jeito que é, se adiantou. Olívia veio tirar satisfação comigo, cheia de ódio nos olhos. Perguntou se eu sabia. Claro que eu sabia. Só que o que eu não falei pra ela foi que o Wando já tinha me mandado um recado importante da cadeia. Ele disse que vinha pra casa, pra morar com a gente. Eu avisei que isso não ia acontecer, que as meninas não iam aceitar. Que era melhor ele ir ficar em outro canto. Eu queria mentir, dizer que tava tudo certo, que ele tinha mudado, que agora era um homem diferente. Mas eu não era burra. Sei que homem nenhum muda porque ficou preso. No fundo, eu só torcia pra que, dessa vez, ele não fizesse a gente sofrer. Ele concordou, disse que não ia aparecer em casa. Pâmela e Mônica fingiram que não se importaram. Continuaram a vida delas como se nada tivesse acontecendo, mas eu conheço minhas filhas. Elas estavam com medo. Só que medo a gente engole, né? No morro, ninguém pode saber que você tá com medo. O Retorno de um Problema Antigo No dia que ele saiu, a notícia correu antes mesmo dele chegar. — O Wando tá voltando! — Ele saiu hoje cedo! — Vai ficar no morro de novo? A vizinhança já tava no falatório, e eu sentia os olhares em cima de mim. Gente que achava que eu ia correr pros braços dele. Gente que sabia o quanto eu já sofri. Anoiteceu, e eu tava na cozinha esquentando um resto de comida quando ouvi o barulho de moto parando na rua, na frente de casa. Meu coração deu um salto no peito. Minhas filhas tavam na sala, mas, pela forma que o silêncio bateu, eu soube que elas também ouviram. Fui até a porta devagar, tentando controlar a respiração. Quando abri, lá estava ele. O mesmo Wando de sempre. O olhar malandro, o sorrisinho de canto de boca, a roupa nova que provavelmente alguém do tráfico bancou. — Fala, Flaviana. Sentiu saudade, patroa? Meu estômago revirou. Ele abriu os braços como se esperasse que eu fosse correr pra ele. Mas eu fiquei parada. Se ele achou que ia ser bem-vindo, tava muito enganado, eu não podia fazer isso com as meninas. E ele prometeu que não viria. — Que foi? Não vai nem me dar um abraço? — Ele riu, debochado. — O que você quer aqui, Wando? Ele sorriu mais ainda. Sorriso de quem já tá com alguma merda planejada. — Só vim ver minha família, ué. E buscar o que é meu. Meu peito travou. — O que você quer dizer com isso? Ele me olhou fundo, e por um segundo, vi algo ali que me deu calafrios. — Logo, logo cê vai saber. Aquele homem não tava ali à toa. E eu senti, no fundo da minha alma, que coisa boa não vinha. Wando entrou sem pedir, como se essa casa ainda fosse dele. Como se tivesse algum direito depois de anos sem botar um pão na mesa. Olívia tava encostada na parede da sala, braços cruzados, olhar cortante. Pâmela e Mônica, no sofá, quietas, fingindo que nem respiravam. — Caraca, minhas meninas tão enormes! — Ele abriu um sorriso largo, mas ninguém sorriu de volta. — Tua filha não tá aqui — Olívia respondeu seca, os olhos faiscando. — Ela morreu quando tu largou nós tudo pra se f***r sozinha. Meu peito apertou. Essa menina não tem medo de nada. Só que eu sei como o Wando é. Sei que ele não gosta de ser afrontado. Mas, em vez de estourar, ele riu. — Ah, então agora tu é a braba da casa, é bebê? — Ele apontou pra ela, ainda com aquele sorriso de deboche. — Achei maneiro. Melhor do que ser otária, né? Olívia travou o maxilar. Mônica olhou pro chão. Pâmela levantou e saiu da sala sem dizer nada. — O que tu veio fazer aqui, Wando? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ele se jogou no sofá, abriu as pernas, se esparramou como se fosse dono do pedaço. — Vim buscar o que é meu. Meus dedos formigaram. — Para de falar em enigma, homem! Que p***a tu tá querendo? Ele inclinou a cabeça pro lado, me analisando. Depois olhou pra Olívia. — Minha dívida vai ser paga. E vai ser com ela. Meu sangue gelou. — Como é que é? Olívia deu um passo à frente, a voz saindo num tom que eu nunca tinha ouvido antes. — Do que tu tá falando, filho da p**a? Wando não tirava os olhos dela. — Já tá tudo certo. Quando chegar a hora, tu vai saber. Meu coração bateu forte. — Você não vai meter minha filha nessas tuas merdas, Wando! Ele se levantou devagar, como quem não tem pressa. Parou na minha frente, baixando um pouco o tom de voz. — Eu salvei minha vida, Flaviana. Tu devia me agradecer. A raiva me fez tremer. — Agradecer? Tu sumiu, deixou a gente se virar, não mandou um centavo e agora volta falando em salvar tua vida? Ele olhou de novo pra Olívia. — Agora eu tô de volta. E as coisas vão ser como têm que ser. Aquele olhar. Aquela malícia na voz. Eu senti que uma desgraça tava chegando. E não ia demorar.
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