OLÍVIA
Faz dias que o Wando voltou pro morro, e cada dia que passa, a sensação r**m dentro de mim só cresce.
Ele não faz p***a nenhuma além de beber, se drogar e se arrastar por aí como se fosse rei.
A casa virou um inferno.
Minha mãe anda calada, minhas irmãs se trancam no quarto, e eu… bom, eu observo.
Fico de olho. Porque sei que tem merda vindo.
E hoje não foi diferente.
Cheguei do trampo, morta de cansaço, e encontrei o Wando largado no sofá, camisa aberta, lata de cerveja na mão e um baseado no canto da boca.
O cheiro forte se misturava com o suor dele.
— Fala, minha princesa! — Ele abriu um sorriso torto. — Cola aqui, vamo trocar uma ideia.
Revirei os olhos.
— Não sou tua princesa. Fala logo, que eu tô com sono.
Ele riu, aquele riso de quem acha graça na própria maldade.
— Sempre braba, né? Puxou o pai.
— Nunca.
Cruzei os braços, encarando ele.
O que esse desgraçado quer agora?
— Sei que tu não gosta de mim — ele deu um gole longo na cerveja. — Mas pai é pai, né?
Fiquei quieta. Sabia que era provocação.
— Teu futuro tá garantido, sabia?
Minha testa franziu.
— Como assim?
Ele se ajeitou no sofá, jogando a lata vazia no chão.
— Eu me resolvi, Olivia. Fiz um acerto cabuloso… e, olha só, tu foi parte dele.
Meu sangue gelou.
— Como assim, Wando?
Ele sorriu. Um sorriso frio, sem alma.
— Madrugadão tá interessado em tu, sabia? Desde que viu tua foto, ficou doido de t***o te achou linda e gostosa. E eu, como sou um cara esperto, fechei um trato.
Meu coração martelou no peito.
— Que p***a tu fez?
Ele se inclinou pra frente, os olhos vermelhos de droga.
— Tu é dele agora.
O mundo girou. Meu estômago embrulhou.
— O quê?!
— Eu te vendi, filha. Agora cê vai ser mulher de dono de morro. Tá bem na vida.
Meu corpo inteiro ferveu de ódio.
— Seu merda! — Avancei nele, com tudo. Dei um empurrão tão forte que a cerveja voou, o baseado caiu no chão. — Como tu teve coragem?!
Ele gargalhou, como se eu fosse uma criança surtando à toa.
— Para de show, Olivia. Melhor do que ficar aí batendo ponto em pizzaria por mixaria. Agora tu vai ter luxo, vai ser bem tratada… só vai ter que obedecer teu marido, abrir as pernas pra ele algumas vezes ao dia.
Minhas mãos tremiam.
— Tu não manda em mim. Eu não vou pra p***a nenhuma!
Ele estalou a língua no céu da boca, balançando a cabeça.
— Ah, vai sim. Porque Madrugadão já pagou. E tu sabe como é… ele não gosta de perder investimento. Sorte sua que ele aceitou uns dias pra tu se despedir da tua mãe e irmãs. Ou agora tu já ia tá lá, na cama dele.
Minha respiração ficou curta. O ar sumiu. Eu tava fodida.
O ar parecia pesado, sufocante. O peito apertava, a raiva e o desespero se misturando num nó que eu não conseguia desfazer. Meu próprio pai me vendeu. Como se eu fosse um objeto, um pedaço de carne.
Não aguentei ficar ali.
Peguei minha blusa, enfiei o chinelo no pé e saí porta afora, sem rumo. A madrugada já tomava conta do morro, as ruas quase vazias, só os noias se arrastando nos becos, os olheiros encostados nas esquinas, atentos a qualquer movimento estranho. Mas eu nem via direito o que tava na minha frente.
As lágrimas me cegavam.
Caminhei sem destino, os passos pesados, o coração martelando no peito.
Como é que ele teve coragem?
O próprio sangue. Vender a própria filha.
Talvez fosse só brisa da droga.
Talvez, amanhã, ele acordasse e dissesse que era tudo mentira, que tava zoando, que falou merda de tão chapado.
Mas eu sabia que não era.
Não vindo dele.
Ele mesmo chegou dizendo que eu pagaria as dívidas dele. Nos morávamos no morro do Madrugadão, mas meu pai perdeu tudo lá, carro casa que minha mãe mobiliou por anos com muito suor.
Fugimos pra esse morro de agora, ele prometendo mudar, reconstruímos tudo e ele acabou preso.
A fama do Madrugadão não era história inventada. Ele era um louco. Um cara perigoso, doente. Com três mulheres morando na mesma casa, um monte de filho largado por aí e fama de fazer o que queria com as meninas que pegava.
Um estuprador ordinário.
Um nojo de ser humano.
Senti o estômago embrulhar. Meu próprio pai tinha me jogado na boca do lobo. Como se eu não fosse nada. Como se minha vida não tivesse valor nenhum.
Continuei andando, as vielas estreitas se fechando ao meu redor, cada sombra me engolindo mais. Eu não podia aceitar isso. Não podia deixar que isso acontecesse.
Mas o que eu ia fazer?
Fugir?
Me esconder?
Eu não tinha resposta. Só tinha medo. E raiva.
Muita raiva.
As vielas pareciam ainda mais escuras naquela madrugada. A lua iluminava pouca coisa, só o suficiente pra mostrar as sombras dos becos e os olheiros espalhados nos cantos. Meu choro era engolido pelo silêncio do morro.
Quando passei pela boca, senti os olhares pesando em cima de mim. O cheiro forte da erva tomava conta do ar. Vi Urso, encostado numa moto, soltando fumaça devagar, os olhos cortando a escuridão enquanto me observava.
Ele deu um trago longo no baseado e soltou meu nome no ar.
— Olívia.
Meu corpo congelou.
Correr do dono do morro nunca foi uma opção inteligente. Não sabia se ele tava falando por falar ou se queria mesmo trocar ideia, mas fugir não ia resolver nada. Respirei fundo e resolvi encarar.
Cheguei mais perto, as pernas pesadas, os olhos ainda cheios de lágrima. Ele me olhou de cima a baixo, a testa franzida.
— Coé, por que tu tá chorando?
A voz dele era grossa, firme, mas tinha um fundo de preocupação. Não era só curiosidade.
Abaixei a cabeça, tentando esconder a cara vermelha, mas ele não desviou o olhar.
— Nada. Não se preocupa. Posso ir? — minha voz saiu fraca, engasgada no choro.
Ele tragou mais uma vez, soltou a fumaça devagar e inclinou a cabeça pro lado, analisando cada detalhe do meu rosto.
— Brigou com teu namorado?
— Que? — soltei, confusa.
Ele ergueu um canto da boca num meio sorriso.
— Quer que eu arrebente ele pra tu?
Se fosse em outro momento, eu teria rido. Mas não agora. Não com tudo que tava acontecendo.
Balancei a cabeça.
— Não tem namorado.
Ele deu um passo pra frente, apagando o baseado na ponta do tênis. O cheiro da erva ainda impregnava o ar.
— Então quem te fez chorar?
O olhar dele tava sério agora. Intenso. Como se já soubesse que era algo pior do que uma briga boba. E era.
Fiquei parada ali, olhando pro chão, sentindo as lágrimas ainda quentes no rosto.
Será que eu falava?
Será que fazia sentido contar logo pra ele?
Talvez sim.
Talvez ele soubesse de alguma coisa que eu não sabia. Ele também era dono de morro, devia existir algum tipo de ética, uma lei interna, um código entre eles. Não era possível que qualquer um pudesse chegar e tomar uma mulher desse jeito.
Respirei fundo e levantei o rosto, encarando o Urso. Ele continuava ali, me analisando, esperando eu falar.
— Fui vendida.
Ele não reagiu de primeira. Só ficou ali, me olhando.
— Que?
— Isso aí que tu ouviu. Meu pai me vendeu pro Madrugadão.
Falar isso em voz alta foi pior do que pensar. Me deu uma vontade absurda de chorar de novo, mas engoli seco. Não queria parecer fraca.
O olhar de Urso não mudou.
Ele ficou quieto.
Nem piscava.
Era como se eu tivesse falado que ia chover amanhã, não que minha vida tinha acabado.
Eu esperei alguma coisa. Qualquer reação. Uma palavra, um xingamento, um “isso não pode acontecer”. Mas ele simplesmente virou as costas, caminhou até a moto, ligou o motor e soltou, sem emoção nenhuma na voz.
— Tenho que ir.
E foi.
Sem olhar pra trás. Sem dizer mais nada.
Fiquei ali, parada, vendo ele desaparecer morro abaixo, enquanto meu peito apertava de um jeito que eu não sabia explicar. Se até ele, que era dono do meu morro, não disse nada… então eu tava realmente fodida.