Capítulo 3

1801 Words
Madisson O sol da manhã invade minha cobertura, aquecendo o piso de madeira enquanto pratico minha rotina de ioga. Solto um suspiro de satisfação enquanto o ar fresco da manhã acaricia minha pele úmida de suor. Foram dias frenéticos, e eu não poderia estar mais grata por finalmente ter um pouco de paz. E existe maneira melhor de começar uma manhã tranquila do que com uma boa sessão de ioga? Uma música suave toca na TV. Um talk show matinal preenche o fundo com vozes animadas de apresentadores discutindo as últimas tendências de beleza. Um dos convidados solta uma pérola: diz que não sabia que mulheres tinham pelos no corpo, porque nunca viu uma com pelos antes. Reviro os olhos, alongando o corpo em uma nova pose enquanto o apresentador ri alto, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. O programa irritante continua, e as vozes deles parecem ficar mais altas e mais tolas. Agora discutem se mulheres "de verdade" deveriam usar maquiagem. Um deles afirma que maquiagem é só uma máscara para mulheres feias, e que aquelas que conhecem sua verdadeira beleza não precisam disso. Respiro fundo, tentando manter a calma, inspirando lentamente pelo nariz. Expirando, ignoro a vontade de jogar algo na TV. Mas quando o tom da conversa se eleva mais uma vez, suspiro irritada, quebro minha postura e pego o controle remoto na mesa de centro. Mudo de canal para o noticiário, buscando algo menos ofensivo à inteligência humana. Enquanto me preparo para voltar aos meus alongamentos, a manchete na tela me paraLisa: “Assassinato chocante: corpo mutilado descoberto em armazém abandonado ligado ao crime organizado.” Minhas mãos congelam sobre o controle remoto, e meu corpo inteiro se enrijece ao ver as fotos da cena do crime sendo exibidas. A voz do âncora suaviza, como se isso aliviasse o impacto da notícia, mas as palavras dele me causam um arrepio gelado na espinha. “As autoridades identificaram a vítima como Carlos Rodriguez , primo do proeminente empresário e milionário James Rodriguez , conhecido por seus lucrativos investimentos imobiliários. O corpo foi encontrado em um armazém abandonado nos arredores da cidade, nas primeiras horas da manhã. A polícia acredita que o caso esteja relacionado a uma rede de atividades do crime organizado...” Sinto uma pontada no peito quando um clipe mostra James falando com a imprensa. Ele parece devastado, ou ao menos tenta parecer. James e meu irmão Mateo foram sócios em algum momento, embora quase não se falem mais. Ainda assim, há uma ligação. — Vou chegar ao fundo disso! — grita James, com raiva e dor aparentes. — Vou fazer justiça pela minha família! Desligo a TV. A manhã, antes pacífica, já está completamente arruinada. Uma sensação de pavor rasteja pelo meu estômago. A ideia de Mateo estar envolvido com o cartel é perturbadora, mas nada surpreendente. Todos nesta cidade sabem: o cartel governa tudo. Uma máquina bem fluente, com influência em cada canto — da política às empresas, do comércio ilegal de armas e drogas às forças de segurança. Controlam tudo nas sombras, enquanto o mundo gira em aparente normalidade. Eles usam ternos como armaduras, sorrisos como camuflagem, e se misturam aos altos escalões da sociedade como se fossem parte legítima dela. Investigações surgem e desaparecem como fumaça. Nada os atinge. O poder deles é absoluto. E então... há Alessandro. Já vi homens poderosos se encolherem em cadeiras luxuosas quando ele entra em uma sala. O ar muda. Um frio se instala. Não é apenas medo — é respeito forçado, misturado a uma tensão que arrepia a pele. Alessandro Salvatore carrega uma aura que domina o ambiente. Um homem que pisa em leis e sorri para câmeras. Um mafioso vestido como CEO, com olhos que enxergam tudo e tocam o que quiserem. Mateo nunca me contou muito sobre ele — só que é um babaca arrogante e convencido, que se acha o rei do mundo por causa do dinheiro e dos contatos. Mas... ah, como ele é gostoso. Minha garganta aperta ao me lembrar dele me observando do outro lado do salão, duas noites atrás. Lembro da maneira como seus olhos percorreram cada centímetro do meu corpo, me despindo sem um único toque. O calor que tomou conta de mim foi imediato. Um desejo inesperado, sufocante... seguido por uma onda de vergonha. Eu estava nos braços do meu noivo e, ainda assim, meu corpo reagia como se pertencesse a outro homem. Ele não era só bonito. Era do tipo que faz o tempo parar. Alto, imponente, com uma beleza perigosa, magnética, letal. Uma parte de mim ainda vê o garoto que jogava basquete com meu irmão. Aquele que me fazia corar atrás das cortinas da sala, com minha bochecha colada ao vidro, espiando pela janela. Eu o achava o garoto mais lindo do mundo. Quinze anos depois... e essa opinião não mudou nem um pouco. Sinto um aperto no estômago ao me lembrar de como o olhar ardente de Alessandro se transformou em algo frio no instante em que cruzou com o de Mateo. Me pergunto o que exatamente aconteceu entre eles. Quando éramos mais jovens, eles eram inseparáveis. Naquela época, Alessandro era apenas o filho de um dos capangas do meu pai, não o homem poderoso que se tornou. Meus pais sempre o desaprovaram — especialmente minha mãe, que não suportava a ideia de Mateo andando com alguém como ele. Mesmo assim, eles continuaram próximos. O que será que os afastou? A lembrança do sorriso de Alessandro me vem à mente, e, desta vez, faço um esforço consciente para afastá-la. Ele nem sequer me reconheceu quando conversamos na outra noite. E eu nem o culpo. Eu era só uma garotinha da última vez que ele me viu, e mudei tanto desde então — meu cabelo, meu corpo, minha postura. Eu definitivamente não sou mais uma criança. Sem motivação para retomar minha rotina, decido que preciso de um café. Uma caminhada até meu café favorito certamente vai melhorar meu humor. Já calçando os sapatos, sou interrompida pelo toque do interfone na parede. — Sra. Maddie, a senhora tem um pacote esperando. Gostaria que o entregássemos? — pergunta o atendente do saguão. — Deixem no meu carro, por favor! — respondo, acenando enquanto pego minha bolsa. — Vou pegar quando sair. Imagino que sejam as capas para assento de carro que encomendei há dois dias. Estou até surpresa com a rapidez da entrega. Normalmente leva mais tempo, mas acho que, desta vez, dei sorte. Pego as chaves no suporte magnético na parede e deixo meu apartamento. O elevador chega com um discreto som, e sigo para o estacionamento ao ar livre, onde deixei meu carro ontem à noite. Assim que saio do prédio, o sol da manhã toca minha pele com um calor suave e agradável. Caminho em direção ao meu carro, e logo vejo a caixa marrom ao lado do Porsche Macan que Mateo me deu no meu vigésimo aniversário. Já se passaram dois anos, mas o carro ainda parece novo, seu exterior elegante brilhando sob a luz do sol. Franzo o cenho ao notar o tamanho da caixa. Ela é bem menor do que eu esperava. Confusa, me pergunto se pedi outra coisa. Uma capa de assento de carro jamais caberia ali dentro. Será que houve algum engano? Sinto uma pontada de irritação. É muito cedo para isso. Suspiro, tentando manter a calma. O calor do sol ajuda um pouco. Por um instante, me pego desejando estar numa praia, em algum lugar distante, com uma bebida gelada na mão e o som das ondas abafando todos os problemas. Santorini, por exemplo. Lembro que sugeri a Santorini para nossa lua de mel. John descartou a ideia na hora, dizendo que “lua de mel” era um conceito ultrapassado. Segundo ele, cada dia do casamento deveria ser especial — não precisávamos de férias “sem sentido” para celebrar nossa união. Reviro os olhos ao lembrar da conversa. Caminho certo pra arruinar seu dia inteiro, Mads — murmura minha voz interior com sarcasmo. Nesse momento, como se meu pensamento o invocasse, meu telefone vibra no bolso. É John. Atendo com um suspiro. — Você não viu minha mensagem? — ele dispara, assim que coloco o telefone no ouvido. — Não. Não vi — respondo, exausta antes mesmo da conversa começar. — Devo ter perdido. — O que te distraiu dessa vez? Ioga? — ele provoca, com aquele tom irritante de desdém. Ele sabe que pratico ioga quase todas as manhãs e, como tudo o que gosto, ele acha inútil. “Se quer se movimentar, inscreva-se numa academia de verdade — ele disse da última vez em que dormiu aqui, irritado porque acordou esperando sexo matinal e me encontrou fazendo ioga.” Reviro os olhos, já sentindo a paciência se esgotar. — Eu sei que ainda está bravo por causa daquela noite, mas não gosto de como você fala comigo — digo, tentando manter a calma. — Já me desculpei, e isso foi há dois dias. — Você pediu desculpas, mas sempre tem alguma besteira que te distrai de assuntos mais importantes — ele retruca. — Tipo, sei lá, responder às mensagens do seu noivo? Belisco a ponte do nariz e suspiro, tentando manter o controle. — Sobre o que você queria falar? — Estamos noivos há dois meses, Maddie, e você ainda não está usando a aliança que mandei fazer. Sabe como isso me incomoda? Tento não pensar em como ele se preocupa mais com aparências do que com o que sinto. Assinto distraidamente, ainda ouvindo sua voz enquanto continuo andando em direção ao carro. — Tudo bem, eu errei o tamanho do seu anel — ele continua — mas estou te pedindo há semanas para irmos ajustar. Devemos fazer isso ainda esta semana. Preciso de você ao meu lado para as campanhas. O casamento vai chegar antes que a gente perceba... Nesse instante, desligo emocionalmente. Um arrepio percorre minha espinha e meu coração acelera. Algo está estranho. Tento ignorar a sensação, mas ela se recusa a ir embora. — Então, vai me responder? Vai estar livre ou alguma das suas... atividades vai interferir? — ele pergunta com desdém. — Sim, eu te ligo mais tarde — murmuro, encerrando a ligação sem esperar resposta. Dou mais um passo. Uma luz branca e ofuscante explode diante de mim, seguida por um estrondo ensurdecedor. Sou arremessada para trás, o impacto me jogando contra uma parede distante. O mundo gira. Meus ouvidos zumbem. O chão treme. Meu coração martela no peito enquanto tento entender o que aconteceu. A fumaça enche o ar. Gritos ecoam ao redor. Luto para me levantar, tossindo, com a garganta fechada pelo pânico. Meus olhos ardem. A visão turva. O pacote explodiu. Sobre o meu carro. Alguém tentou me matar.
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