KELLY NARRANDO Eu tava largada no sofá de casa, sozinha, do jeito que eu gosto. Filme rolando na TV nem sei mais qual era, porque eu tava mais concentrada no meu hambúrguer do que na trama aquele bem exagerado mesmo, pão brilhando de gordura, cheddar escorrendo pros lados, bacon crocante estalando a cada mordida. Batata do lado, também afogada em cheddar, sem culpa nenhuma. Zero culpa. Nenhuma. A casa tava em silêncio, só o som do filme e o barulhinho da embalagem da batata quando eu mexia. Ar ligado, luz baixa, cabelo jogado de qualquer jeito. Paz. Aquela paz de quem não deve satisfação pra ninguém. E sim eu pensava nele. Óbvio que pensava. Não sou de pedra. Às vezes a lembrança vinha do nada — um sorriso meio torto, uma frase solta, o jeito confiante demais. A cabeça até ensaiava ir l

