Capítulo 7

775 Words
No Brasil... O último ano de Nayere tinha sido uma espiral descendente, um lento afogamento na dor que a transformou em uma sombra eficiente. Enquanto a multinacional que ela era secretária, fervilhava com a expectativa da chegada do novo CEO, um homem que todos diziam ser implacável e distante, Nayere apenas contava os minutos para o fim do expediente, esperando que a escuridão da noite a engolisse de novo. Todos os dias em sua vida, eram iguais, infelizmente. Ela esperava por seu novo chefe, mas, na verdade, esperava que ele a ignorasse. O silêncio era seu novo refúgio. Por longos anos, desde a juventude, Nayere viveu sob o feitiço de um homem que ela acreditou ser o amor de sua vida. Ele era o centro de seu universo, e a relação era seu único pilar emocional. O colapso, quando veio, foi total. No último ano, ela foi sistematicamente traída, maltratada e manipulada emocionalmente. O abuso não foi apenas físico, mas psicológico, minando cada gota de sua autoestima até que ela não reconhecesse mais o próprio valor. Quando ele a largou, o mundo real desmoronou. Nayere caiu em uma depressão profunda, isolando-se em um mundo paralelo alternativo construído de negação e mentiras necessárias. Ela não podia encarar a verdade brutal da sua fragilidade, então vestiu uma armadura de falsidade. No ambiente de trabalho, onde a excelência profissional era sua única máscara intacta, ela mantinha uma fachada fria e inventada: "Eu sou casada. Essa era sua principal mentira." O anel, que ela ainda usava, era o último vestígio de um sonho morto e a desculpa perfeita para evitar qualquer interesse masculino, que agora lhe causava pavor. Ela não socializava. Almoçava sozinha, evitava confraternizações e mantinha as conversas estritamente profissionais. Seus colegas a viam como reservada e um pouco "estranha", mas extremamente competente. Quando estava sozinha, o teatro terminava. A casa silenciosa era o palco de sua solitária e profunda tristeza. Passava as noites encarando o teto, sem vaidade, sem hobbies, apenas a escuridão da culpa pelos abus0s sofrid0s e a dor de ter permitido que acontecesse. A antiga Nayere, sonhadora e radiante, estava apagada, coberta por roupas simples baratas, maquiagem zero e o medo paralisante de qualquer i********e masculina. Ela estava no fundo do poço, esperando que a vida simplesmente passasse. A chegada de Dominic, o CEO exigente, representava exatamente o tipo de homem que seu trauma a ensinara a temer. Seu ex, era dominante, manipulador, grosso, agressivo e dissimulado. O luto tóxico e isolamento haviam esculpido um novo Dominic. O homem que retornava ao Brasil para assumir o comando de uma multinacional, era uma versão lapidada pela amargura, mais perigosa e muito menos charmosa que antes. Ele estava vivendo sozinho desde que Martina morrera, se é que se pode chamar de "viver" o ciclo de trabalho excessivo e prazeres vazios que ele adotara. Seu apartamento, alugado às pressas, em uma cidade que ele não conhecia ninguém, era a antítese do luxo que compartilhara com Martina, era minimalista, funcional, desprovido de qualquer calor ou história pessoal. A mudança de país e de cargo não trouxe alívio, apenas intensificou sua antipatia pelo passado. Dominic era agora: Mal-humorado: Sua paciência era inexistente. Qualquer ineficiência, ruído ou deslize era recebido com um olhar de desdém ou um silêncio cortante que gelava a espinha de seus subordinados. Ele raramente sorria, e quando o fazia, era um sorriso cínico. Era sempre ríspido: A cortesia havia sido descartada como um luxo desnecessário. Suas comunicações eram diretas, objetivas e, muitas vezes, brutalmente francas. As reuniões com ele eram temidas por sua falta de tato e sua capacidade de reduzir egos a pó em segundos. Ele não tinha tempo para gentilezas. Era exigente: Seu padrão de excelência, que já era alto, atingiu níveis quase impossíveis. Ele exigia perfeição de tudo e todos, desde a pontualidade milimétrica em um relatório financeiro até a temperatura exata do seu café. Essa exigência era um reflexo de sua necessidade neurótica de controle; se ele não podia controlar seu passado ou suas emoções, ele controlaria, implacavelmente, o mundo ao seu redor. Aos quarenta anos, Dominic era um homem pesado. Seus ternos cinzas e escuros não eram apenas um código de vestimenta, eram a personificação de seu humor. Ele entrava nos ambientes como uma frente fria, sugando a alegria e deixando apenas a tensão. O charme havia sido substituído pela autoridade crua. Ele estava voltando ao Brasil, mas não para recomeçar. Estava voltando para exercer o poder e se enterrar ainda mais no trabalho, um CEO de luto em tempo integral, preparado para destruir quem ousasse atrapalhar seu isolamento profissional. E sua nova secretária, seria a primeira pedra, em seu calçado.
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