Capítulo 15

1605 Words
Eu passei o resto da madrugada sentada no chão do quarto, as costas encostadas na porta, como se meu corpo pudesse segurar do lado de fora tudo o que ameaçava entrar. A casa respirava pesada, cada madeira rangendo como se lembrasse dos gritos. O rosto ardia onde a mão dela me atingiu, mas a dor que mais doía não ficava na pele. Era aquela que se esconde entre as costelas, feita de anos de silêncio, de culpa herdada, de “não pode”, “não deve”, “não é assim”. Quando a primeira luz da manhã desenhou um risco pálido no chão, eu soube que não dava mais para adiar. Não havia esconderijo que coubesse os dois mundos. Se eu ficasse, seria para me encolher. Se eu fosse, seria para crescer — e crescer dói. Quase sempre. Levantei. Lavei o rosto com água fria até o espelho devolver uma versão minha que não tremia. Penteei o cabelo, vesti uma blusa simples, uma calça que não me prendia. Evitei o corredor do porão. Não porque quisesse evitar Aidan, mas porque precisava, antes de tudo, me encontrar sem me apoiar nele. A escolha tinha que ser minha. Encontrei minha mãe na cozinha, de robe claro e rosto lívido. Ela segurava a xícara com força, como se o café dependesse do punho fechado para não cair. Olhou para mim sem dizer bom-dia. Olhar de inventário. — Então? — perguntou, e a palavra veio fria como a borda de uma faca. — Terminou o seu espetáculo? Respirei fundo. Mantive a voz firme. — Eu vou sair de casa, mãe. Ela não riu. Não chorou. Apenas pousou a xícara e ajeitou a lapela do robe, como se arrumasse a própria autoridade. — Você não tem para onde ir. — Tenho — respondi. — Tenho a mim. E tenho quem me queira inteira, não só quieta. A sobrancelha dela arqueou, uma linha de ceticismo que eu conhecia desde criança. — Isso é sobre ele, obviamente. Você não sabe nada desse homem. Só sabe o que projetou nele para escapar de si mesma. — Eu sei que comigo ele não mente. — Engoli devagar a tensão. — E sei que com a senhora eu aprendi a esconder. De tudo. Ela se levantou. A cozinha parecia menor com sua presença. Os azulejos devolviam nossa conversa como se fosse eco. — Se você sair por essa porta por causa dele, nunca mais volte. A sentença caiu entre nós como um veredito. Dói, pensei. Dói porque parte de mim sempre quis essa permissão proibida, essa rendição definitiva: “nunca mais volte”. Se eu não pudesse voltar, talvez finalmente aprendesse a viver sem pedir desculpas por existir. — Eu não vou sair por causa dele — falei, surpresa com a calma na minha própria voz. — Vou sair por mim. Por tudo o que me tiraram quando disseram que eu era demais ou de menos. Por todas as vezes que engoli o que precisava dizer para caber na sua ideia de filha. Eu vou sair porque, se eu ficar, eu desapareço. Ela aproximou o rosto do meu, os olhos brilhando. Não eram lágrimas. Era algo mais duro. — Você vai se arrepender. — Talvez — admiti. — Mas pelo menos será meu arrependimento. Ela voltou a sentar. Como se a guerra tivesse decidido recuar um passo para me observar de longe. — Leve suas coisas até o fim do dia — disse. — Eu estarei na sala. E não vou te ajudar. Não respondi. Não havia mais nada a ser dito que pudesse fazer diferença naquele momento. Saí da cozinha com a respiração curta e um tremor leve nas mãos, mas minhas pernas não vacilaram. Subi ao quarto e abri o armário. Enquanto colocava roupas na mochila, minhas mãos encontraram os cadernos escondidos atrás dos livros. Páginas com poemas tortos, cartas nunca enviadas, bilhetes que eu mesma me deixava para lembrar de respirar. Coloquei tudo dentro. Era isso que eu levaria: pele, voz e papel. No corredor, por um instante, fiquei parada diante da porta do porão. Bati de leve. A madeira devolveu um som curto. A voz de Aidan veio abafada. — Ivy? — Estou indo — respondi. — Por mim. A porta abriu devagar. Ele estava com o rosto tenso, olhos cinzentos procurando o meu como quem tateia no escuro. Eu quase fui até ele. Quase afundei no porto seguro que eu encontrei no corpo dele. Mas levantei a mão entre nós, pedindo um segundo. Um segundo só meu. — Eu preciso que você me escute sem tentar me salvar — disse. — Eu não estou fugindo para os seus braços. Estou saindo porque não posso mais viver numa casa onde o amor vem com mordaça. Se você quiser caminhar do meu lado, ótimo. Se não quiser, eu vou do mesmo jeito. Ele assentiu, devagar, como se cada milímetro custasse. O maxilar relaxou um pouco, e eu vi no rosto dele algo que reconheci: respeito. Talvez amor. O tipo que não aprisiona. — Eu caminho do seu lado — respondeu simples. — Com você à frente, se for preciso. — Hoje eu preciso estar à frente. Ele deu um passo para trás, abrindo espaço para mim — um gesto pequeno, enorme. Passei e senti a corrente do porão bater no meu tornozelo como um último frio. No topo da escada, respirei. A sala me esperava com o ritual da despedida: os olhos de lobo no sofá, a televisão ligada sem som, o relógio anunciando que uma era terminava. Minha mãe não me dirigiu a palavra enquanto eu saía com a primeira mochila. Na segunda viagem, ela ergueu o controle remoto e aumentou o volume, como se o mundo pudesse preencher o que estava se partindo. Na terceira, falou, sem olhar. — Você sempre foi teatro. Parei. Olhei para a janela, onde a luz estava mais quente que de costume. — E você sempre foi cenário. Imóvel. — Deixei o ar sair devagar. — Eu prefiro ser vida. A porta fez um som surdo quando se abriu. Do lado de fora, o dia tinha cheiro de asfalto molhado e começo. Aidan veio atrás, mas não encostou. Me deu o espaço que eu pedi. Caminhamos até o portão em silêncio, cada passo dizendo o que as palavras não davam conta. No portão, parei. Toquei o ferro frio, senti o peso, empurrei. O mundo do lado de fora parecia maior que ontem. Talvez fosse só dentro de mim que algo tivesse esticado. — Se você entrar agora, acaba — a voz da minha mãe veio da porta da sala, cortante. — Você nunca mais pisa aqui. Virei-me. Vi a mulher que me criou no batente, rígida como um móvel antigo que se recusa a ser movido. Eu quis chorar. Pelas duas. Pela menina que eu fui e pela mulher que ela não conseguiu ser. Em vez disso, ergui a mão num gesto pequeno, sem adeus dramático. Apenas um reconhecimento: eu entendi. Ela também entendeu. — Eu sei — falei. — E, ainda assim, eu vou. Cruzei o portão. Do outro lado, o ar entrou como se eu só agora aprendesse a respirar. Os joelhos tremeram, por fim, e foi aí que Aidan se aproximou. Não para me sustentar; para me lembrar que eu podia me apoiar sem desabar. — Para onde? — ele perguntou baixo, como quem oferece mapa e deixa a bússola comigo. Olhei a rua, as árvores, o céu aberto. Sorri de um jeito que nunca sorri dentro daquela casa. — Para qualquer lugar que não me peça para ser pequena. Caminhamos. Dois quarteirões em silêncio. O mundo não mudou, mas a forma como eu ocupava o espaço, sim. Quando chegamos na esquina, ele falou: — Eu tenho um lugar. Não é muito. É o que eu tenho. — Eu tenho papel e coragem — respondi. — É o que eu tenho. Ele assentiu, e seguimos. No terceiro quarteirão, a mão dele encontrou a minha. Não como quem puxa. Como quem acompanha. Eu apertei de volta. Senti o ritmo dele se encaixar no meu. Pela primeira vez, eu não me sentia carregada nem conduzida. Eu caminhava. E, ao meu lado, um homem que aprendeu a sobreviver no escuro e agora aprendia a viver na claridade. Paramos numa praça pequena. O som de risos distantes, um cachorro correndo, o dia estalando. Sentei num banco e encostei a cabeça no ombro dele. O corpo inteiro que ainda doía de ontem encontrou abrigo. — Eu tenho medo — confessei. — Eu também — ele disse. — Mas hoje o medo anda atrás da gente. Fechei os olhos. Deixei o sol atravessar as pálpebras. Pensei na cama do meu quarto, na borda fria da porta, nos cadernos agora misturados com as roupas. Pensei na casa que queimou por dentro sem fogo. E na casa que eu começava a construir em mim. — Amanhã eu volto para buscar meus livros — disse, num sussurro. — Eu vou com você — ele respondeu, e eu soube que “com você” era o pedaço da frase que importava. Ficamos ali até o sol subir alto. Quando levantamos, senti que algo tinha mudado de lugar dentro de mim, como uma peça que finalmente encaixa. Eu tinha escolhido. Não Aidan, não a fuga — a mim. Ele era o amor que se soma, não o que substitui. A casa em chamas ficou para trás. A estrada à frente pedia passos. E eu tinha pés. Caminhamos de novo. E a cada passo, repetia por dentro: eu vou, eu fico, eu sou. Até o medo aprender meu nome.
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