Capítulo 20

797 Words
O Que Realmente Importa A tarde estava silenciosa demais. Morgana percebeu isso enquanto caminhava ao lado de Thiago pela estrada de terra que levava de volta para casa. O piquenique tinha sido perfeito, o beijo tinha sido real, bonito, do jeito certo. Mesmo assim, algo dentro dela continuava inquieto, como um pensamento que insistia em bater à porta do coração. Ela sabia de onde vinha aquela sensação. Thiago era mais velho. Tinha vivido mais. Tinha beijado outras bocas, conhecido outros corpos, outras histórias. E ela… ela era diferente. Não apenas pela doença, pelos tratamentos, pelo tempo roubado. Mas pelo jeito. Pela cautela. Pelo ritmo. Morgana nunca se comparava às outras garotas por vaidade, mas, naquele dia, a comparação veio como dúvida. Ela apertou os dedos dele um pouco mais forte. — Thiago… posso te perguntar uma coisa? — disse, finalmente. Ele parou de andar e olhou para ela com atenção. — Claro. Sempre. Morgana respirou fundo. O vento mexia de leve no vestido dela, e por um instante ela pensou em desistir. Mas não queria carregar aquilo sozinha. — Você… sente falta de alguma coisa? — perguntou, com cuidado. Ele franziu levemente a testa. — Como assim? Ela baixou o olhar. — Eu sei que eu não sou igual às garotas que você já ficou — continuou. — Você é mais velho. Já viveu coisas que eu ainda tô aprendendo agora. Thiago ficou em silêncio por alguns segundos. Não por desconforto, mas por entender o peso da pergunta. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, fazendo-a olhar para ele. — Olha pra mim — pediu, com suavidade. Ela obedeceu. — Morgana, eu nunca pensei que você fosse igual a ninguém — disse. — E isso não é um problema. É o motivo de eu estar aqui. Ela engoliu em seco. — Mas você nunca sente falta de… sei lá… de coisas mais intensas? — perguntou, com a voz baixa. — Eu não sei ser assim. Não sei fingir. Não sei correr. Thiago soltou um suspiro leve, quase um sorriso triste. — Você acha mesmo que tudo o que eu vivi antes era intenso? — perguntou. Ela ficou confusa. — Não era? — Não — respondeu ele, sincero. — Era barulho. Pressa. Gente tentando preencher vazio com outra pessoa. Ele passou o polegar de leve pela mão dela. — Com você é diferente. É silêncio bom. É calma. É verdade. Morgana sentiu os olhos marejarem. — Às vezes eu tenho medo de te segurar — confessou. — De te impedir de viver coisas que alguém “normal” poderia te dar. Thiago franziu o cenho. — Não fala assim — disse, com firmeza. — Você é normal. Só viveu mais cedo o que muita gente só entende tarde demais. Ela respirou fundo. — Você não sente falta de nada? Ele pensou por alguns segundos e respondeu com honestidade. — Sinto falta, sim. O coração de Morgana deu um aperto imediato. — Do quê? — perguntou, quase num sussurro. Thiago sorriu. — De mais tempo com você. Ela arregalou os olhos. — Só isso? — Só isso — confirmou. — Porque tudo o que eu achava que fazia falta antes… não faz mais sentido agora. Ele se aproximou um pouco mais. — Eu não quero uma namorada pra mostrar. Quero alguém que caminhe comigo. No ritmo que der. No dia que der. Morgana deixou uma lágrima escapar. — Eu não sei até onde posso ir — disse. — Tem dias que eu tô forte. Outros que eu só… canso. Thiago encostou a testa na dela. — Então, nos dias que você cansar, eu caminho por nós dois — respondeu. — E nos dias que eu cair, você segura minha mão. É isso que importa. Ela sorriu, emocionada. — Você não se sente preso? — Eu me sinto escolhido — corrigiu ele. — E isso é muito diferente. O sol já estava mais baixo quando chegaram perto da casa dos Cameron. O cheiro de terra molhada, o som distante dos animais, tudo parecia acolher aquele momento. Morgana parou antes de entrar. — Obrigada por me dizer a verdade — disse. — Obrigado por confiar em mim — respondeu ele. Ela se aproximou devagar e o beijou novamente. Um beijo mais seguro, menos tímido. Ainda delicado, mas cheio de sentimento. Quando se afastaram, ela sorriu. — Eu ainda tô aprendendo — disse. Thiago sorriu de volta. — E eu também. A gente aprende junto. Enquanto ela entrava em casa, Morgana sentiu algo se acomodar dentro do peito. Não era mais dúvida. Era compreensão. Ela não precisava ser como as outras garotas. Não precisava correr, provar nada, competir com o passado de ninguém. Ela era quem era. E, para Thiago, isso não era falta. Era exatamente o que ele procurava.
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