O Caminho de Volta
A volta para a escola não parecia apenas um retorno às aulas.
Era, para Morgana, um retorno ao mundo.
Naquela manhã, ela acordou cedo, antes mesmo do despertador tocar. Ficou alguns minutos deitada, olhando o teto do quarto, sentindo o próprio corpo. Ainda havia cansaço, uma leve dor aqui e ali, mas havia também algo novo: disposição. Não a pressa de antes, nem a ansiedade ingênua, mas uma vontade tranquila de continuar.
Levantou-se devagar, vestiu o uniforme com cuidado e colocou o casaco leve por cima. Os cabelos curtos já não a incomodavam tanto. Pelo contrário. Eram parte da história que ela carregava agora — e que não pretendia esconder.
Na cozinha, Clara preparava o café.
— Dormiu bem? — perguntou.
— Dormi — respondeu Morgana. — Um pouco nervosa… mas bem.
Clara sorriu.
— É normal. O primeiro dia sempre é estranho.
Morgana assentiu. Olhou o relógio.
— O ônibus passa daqui a pouco.
Clara ia responder quando o celular de Morgana vibrou.
Thiago.
— Bom dia — ele disse, assim que ela atendeu. — Pronta?
— Pronta — respondeu ela, sorrindo. — Mas eu vou de ônibus, lembra?
— Eu sei — respondeu ele. — Por isso eu liguei.
Morgana franziu a testa.
— Como assim?
— Eu vou também.
Ela riu, achando que era brincadeira.
— Você? De ônibus?
— Eu — confirmou. — Nunca andei, mas… acho que tá na hora.
— Thiago, você não precisa — disse ela, com carinho.
— Eu sei que não — respondeu ele. — Eu quero.
Morgana ficou em silêncio por um instante.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Ela sorriu.
— Então… boa sorte.
— A gente se encontra no ponto — disse ele.
Quando desligou, Morgana balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Ele é teimoso — comentou.
— Parece que puxou a mãe — respondeu Clara, rindo.
Minutos depois, Morgana estava no ponto de ônibus, mochila nas costas, coração acelerado. Algumas pessoas já esperavam ali, como sempre: trabalhadores, estudantes, rostos conhecidos da rotina simples da cidade.
Quando o ônibus chegou, ela subiu com cuidado, passou pela catraca e sentou-se perto da janela.
O veículo seguiu seu caminho.
Alguns pontos depois, o ônibus parou novamente.
E foi ali que tudo ficou… diferente.
Do lado de fora, no ponto seguinte, estava Thiago.
De uniforme, mochila nas costas, olhando para o ônibus como se estivesse prestes a entrar em uma aventura desconhecida. As pessoas ao redor cochicharam. Era impossível não notar: o garoto conhecido pelo carro com motorista agora estava ali, de pé, esperando ônibus como todo mundo.
Quando ele subiu, os olhares se voltaram imediatamente.
Alguns alunos se cutucaram.
— É o Thiago, né?
— O que ele tá fazendo aqui?
Thiago passou pela catraca meio sem jeito, quase errou o passo, mas se recompôs. Procurou com os olhos… até encontrá-la.
Morgana levantou a mão, sorrindo.
Ele caminhou até ela e sentou-se ao lado, respirando fundo.
— Sobrevivi — disse.
— Por enquanto — respondeu ela, divertida.
— Nunca pensei que um ônibus tivesse tanta gente olhando — comentou ele, em voz baixa.
— Bem-vindo à vida real — respondeu Morgana, rindo.
O ônibus seguiu, e o clima aos poucos foi ficando mais leve. Algumas pessoas pararam de encarar, outras continuaram cochichando. Thiago não se importava.
Ele só olhava para Morgana.
— Tá tudo bem? — perguntou.
— Tá — respondeu ela. — Um pouco estranho… mas tá.
Ele assentiu.
— Se alguém falar alguma coisa…
— Eles vão falar — interrompeu ela, tranquila. — E tudo bem. Eu já sabia que ia ser assim.
Thiago respirou fundo.
— Eu queria que fosse mais fácil pra você.
— Mas é — disse ela, olhando para ele. — Eu não tô sozinha.
Ele sorriu.
O ônibus balançava levemente nas curvas, e por alguns minutos eles ficaram em silêncio, observando a cidade acordar. Morgana apoiou a cabeça no vidro, sentindo o sol bater no rosto.
— Posso te dar uma coisa? — perguntou Thiago, de repente.
— Agora?
— Agora.
Ele abriu a mochila e tirou uma caixinha pequena.
Morgana arregalou os olhos.
— Thiago…
— Calma — disse ele, sorrindo. — Não é nada exagerado.
Ela abriu a caixinha.
Dentro, havia um anel simples, delicado, de compromisso.
— Eu sei que a gente é jovem — disse ele, sério. — Sei que você ainda tem um caminho longo de recuperação. Isso não é pra te prender. É só… pra mostrar que eu tô aqui. Que eu escolhi você.
Morgana sentiu os olhos marejarem.
— Você escolheu até o ônibus — brincou, tentando disfarçar a emoção.
— Especialmente o ônibus — respondeu ele.
Ela tirou o anel da caixinha e colocou no dedo com cuidado.
— Eu aceito — disse, olhando para ele. — Do meu jeito. No meu tempo.
— É tudo o que eu quero — respondeu Thiago.
Quando chegaram perto da escola, o movimento aumentou. Alunos subiam, outros desciam, e os cochichos voltaram. Quando os dois desceram juntos, o silêncio foi quase imediato.
Todos olhavam.
Morgana sentiu o coração apertar por um instante, mas manteve a cabeça erguida.
Thiago caminhou ao lado dela, naturalmente, como se aquele fosse o único lugar possível.
— Se prepara — disse ele, em voz baixa.
— Eu tô pronta — respondeu ela.
No pátio da escola, os olhares se multiplicaram. Alguns curiosos, outros respeitosos, alguns carregados de preconceito, outros de admiração.
Morgana sabia.
Sabia que comentariam do cabelo curto.
Do câncer.
Do namoro.
Do garoto rico andando de ônibus.
Mas nada daquilo a definia mais.
Ela parou por um instante, respirou fundo e olhou para Thiago.
— Obrigada por vir comigo.
— Obrigado por me deixar ir — respondeu ele.
O sinal tocou.
A vida seguia.
E enquanto caminhavam para a sala, Morgana teve a certeza de que aquele simples trajeto de ônibus — cheio de olhares, risadas e estranhamentos — era, na verdade, uma das maiores provas de que ela estava retomando a própria história.
Não perfeita.
Não fácil.
Mas viva.