A paquera dos sonhos
-Decididamente lindo.
Foi o comentário animado da Amélia com um sorriso de orelha a orelha erguendo os olhos do livro de química. Nós últimos dias ela vinha com mais afinco se dedicando mais aos estudos na esperança de conseguir uma aprovação no vestibular. Pelo menos uma faculdade pública. Talvez fosse a hora de deixar de perder tempo com os namoricos de infância.
Cindy evitou com todo cuidado fazer comentários porque afinal bastava chegar um novato e os olhos de Amélia pareciam farejar qualquer carinha em potencial para um namoro.
- Acho melhor continuar estudando para o vestibular e...
Cindy ia comentar que outra vez a amiga não ia tirar nota suficiente para aprovação e parou.
Entrava pela porta da lanchonete um homem alto de roupas que ela jamais ia imaginar ver por ali.
Terno. Cabelos escuros e penetrantes acinzentados.
"Uau. Dessa vez Amélia realmente não está exagerando."
Com algum cuidado Cindy tentou disfarçar olhando discretamente.
O recém chegado não era da cidade.
- Terno e gravata. Ah,deve ser alguém da igreja local.
Cindy quase engasgou bebericando o refrigerante dizendo consigo mesmo que a última coisa que ia combinar com aquele bonitão seria igreja pelo maço de cigarros na mão direita.
- Acho impossível. - ela comentou e riu.
Foi nesse instante que o homem se aproximou mais do balcão e ela pode reparar com maior atenção o rosto de expressões sérias no rosto atraente. Os cabelos estavam como seu pai diria precisando de um corte,mas ficava bem no rosto de maxilar forte e quadrado acentuando as sobrancelhas erguidas em curiosidade ao olhar para o menu de opções de comida disponíveis na lanchonete.
- Ela não é daqui. - Cindy ainda observou e pela primeira vez de forma casual o olhar dela e do estranho se cruzaram o ambiente de música alta.
- Preciso de um mecânico.
A voz era grave e forte de um homem acostumado a dar ordens e comandar todos a seu redor.
Eram quase sete horas da noite e pelo horário ela engoliu o riso. Nunca aquele estranho ia encontrar o velho mecânico na oficina. O cara era nojento. E pelo horário estaria na terceira quarta garrafa de cerveja e provavelmente bêbado.
- Pode tentar o posto de gasolina. - o balconista avisou pegando a comanda de pedidos esperando uma boa gorjeta do visitante pela aparência de suas roupas.
- Talvez um hotel ou pousada?
Cindy desviou o olhar rapidinho para a amiga dessa vez engolindo em seco sabendo com fé inabalável que a amiga não ia perder tempo.
- Teve sorte porque minha colega aqui é filha da dona da pousada mais pitoresca dessas bandas.
Cindy encarou Amélia pasma sem ânimo de perguntar o que a amiga pretendia dizer com a palavra pitoresca.
Era uma pousada antiga e de grandes quartos da época colonial.
No passado a cidade de Altamira tinha sido uma missão de jesuítas.
- Meu nome é Cindy. - ela respirou fundo olhando meio que aborrecida para o relógio preso a parede depois do dia atarefado verificando a lista de reservas para o próximo feriado e para o final do ano. Não havia parado um instante durante a tarde. Não era absolutamente justo um homem lindo daquele como hóspede da pousada.
- A pousada de minha família não fica longe daqui e pela manhã talvez consiga um bom mecânico que possa ver seu carro.
Sua voz ecoou um pouco tensa enquanto ela erguia o rosto para poder encarar o estranho.
O sorriso dele se alargou no rosto claro de bochechas bronzeadas ao encara-la de jeito divertido.
- Estou de passagem na cidade visitando alguns canis. Meu nome é Andrew. Na verdade doutor Andrew. Sou veterinário.
Os olhos de Amélia se esbugalharam com surpresa notando que a atenção do estranho se concentrava na colega.
Cindy assentiu. Bem, havia na região alguns canis e gatis e criadores de cães de raça nunca eram novidade para ninguém com o juiz do Kennel Club morando na cidade.
- Veio a trabalho, doutor Andrew?
Cindy perguntou curiosa mas satisfeita percebendo que de repente uma estranha onda de magnetismo prendia o olhar do estranho.
- A trabalho e talvez mudança de residência.- a voz dele soou forte e decidida.
Cindy assentiu sentindo -se meio boba. Era afinal apenas mais um estranho que chegava na pousada. E eles sempre chegavam nas épocas de férias, feriado e festas. O sotaque dele era nitidamente sulista e talvez descendente de alemães pela aparência dele.
- Tem sorte que o feriado está longe. - o comentário dela foi o mais neutro.
Pelo menos não era outro daqueles arrogantes motoqueiros que se achavam donos do mundo, irresistíveis e absolutamente deuses. Era o tipo mais irritante que aparecia na pousada sempre fazendo gracinhas.
- Posso então ter um quarto com água quente para um bom banho depois do dia inteiro dirigindo. - Andrew sorriu olhando agora com atenção a aparência dela. Observando a calça de cotton n***a e a camisa branca folgada com a estampa de Disney. Os cabelos estavam presos num r**o de cavalo e o boné dificultava Andrew de perceber qual a cor exata deles.
Mesmo assim ela não parecia tão nova assim quanto a garota ao lado de livros enquanto tamborilava a caneta com os olhares rápidos e poucos amistosos para o que ele percebeu serem fórmulas químicas.
Como ela podia ter concentração para estudar com todo aquele barulho era outra proeza. Bem, jovens faziam de tudo na vida quando o assunto era uma matéria entediante para estudar.
- Posso providenciar para o senhor...
Andrew passou a mão pelos cabelos vastos e lisos erguendo a sobrancelha divertido notando também que Cindy não deveria ser tão mais velha assim e...
- Sua família ou sua mãe...
Dessa vez os olhos de Cindy cintilaram mostrando o olhar amendoado revoltada.
- Tenho vinte e um anos de idade e sou responsável pela recepção da pousada. Sou completamente capaz de saber se há quartos disponíveis na pousada e cuidar de sua bagagem..
O riso de Andrew veio alto e sonoro e...