Capítulo 05

2006 Words
Urso narrando O que era só um rolê na praça pra tirar aquela mulher da mente virou uma tortura assim que percebi sua presença lá. Ela toda solta, sambando, como se não tivesse preocupações na vida. Os vapor tudo olhando e eu incomodado com aquela p***a, fiquei nervoso pra c*****o, namoral, eles tentavam não demonstrar que estavam babando, mas naquele rebolado tinha mistério, tinha chama, e não era pra qualquer bico… Eu corri pra casa, acionei o Jn pra ir pro samba pra dar aquela disfarçada, tomei um banho rápido, fui me arrumar e vi a confirmação dele que iria também, pois precisava aliviar a mente… Eu espero que não dê confusão entre ele e a dona dele lá… eles podem não estar juntos mais, mas dona e dona, e não tem quem mude isso não… E pra melhorar ela tá sempre grudada na outra que me tira o sono, então o sinônimo de confusão tá colado em nós Eu nem me meto na treta deles porque cada um sabe das suas escolhas e consequências e eu não tenho que dar opinião em nada da vida de ninguém, assim como não gosto que se metam na minha. Já estava pronto, peguei a moto e guiei pra praça com pressa. Nunca paro naquele bar, mas eu não ia dar mole de deixar ela lá toda solta enquanto eu ficava lá do outro lado da rua, não mesmo. Eu queria ver aquele rebolado de perto, se possível no meu colo, mas isso aí é papo pra outra hora, porque eu ainda vou tê-la nos meus braços… Maior desacerto, estava só apreciando a cena, e a outra doida chegou causando, p***a, acabou com a minha noite, a mina tomou ar legal, ia pra encarar a loira mesmo, e eu gostei que ela se impôs, a voz pode ser doce, mas ela é firme pra c*****o, não dá mole pra ninguém e eu fico louco nisso, namoral, ela mete bronca mesmo, mete marra e não dá espaço não, filho, cresceu gigante pra outra lá… Eu não sei como mano, mas eu paro na sua direção, encaro ela, e minha alma fica quente, é um bagulho que vai além da pele, eu não sei explicar, mas é como se ela tivesse um magnetismo muito forte, é um bagulho que mexe comigo de verdade, ela me deixa todo arrepiado sem nem abrir a boca pra falar comigo — qual foi essa loira vai te dar problema, se liga no que eu tô te falando que tu vai ter dor de cabeça — o jn fala comigo e eu viro o copo de uma vez só — mina maluca po, quer tirar onda com a outra que tá calada, se a minha mulher entra no problema eu entro junto, tu tá ligado né ?— ele fala e eu n**o — na Nicole ninguém encosta, nem por cima do meu cadáver, parceiro, não tem nem desenrolo — eu falo bolado com ele já imaginando se alguém tenta encostar na mulher que brevemente estar no meu nome, duvido! — iii qual foi urso ??— ele começa a entrar na minha mente e começa a reclamar da mulher dele lá dançando com a mãe da Nicole Enquanto a minha dona estava de cara fechada sentada, tomando uma cerveja, até que ela voltou a dançar e um sorriso surgiu de canto no meu rosto Colírio o para os meus olhos, pena que para os olhos de muita gente também — mais um ano que ela nem fala comigo, nem responde o bagulho que eu mandei pra ela — o jn fala virando uma dose e faz careta por descer rasgando — tu nunca vai superar né ?— eu pergunto e ele me encara bolado — tu na minha pele ia superar ? Não é fácil assim não, urso, tu tá ligado do bagulho todo po, eu posso me envolver com quem for, mas na hora que ela falar que sou eu, eu paro tudo e vou na direção dela po, tu tá ligado nisso, ela é a única que eu boto na minha proteção dentro de qualquer lugar desse mundo, podem fazer tudo comigo, com quem estiver comigo, fodase, dona eu tenho uma só — ele fala e encara a tatuagem que ele tem com o nome dela — a marca de quando o inferno começou tá aqui, e nunca vai sair…— ele fala e eu observo elas pedirem a conta, e faço sinal pro garçom deixar comigo, sem ela ver Ele fala com ela que me olha e agradece simples, sem ousadia, enquanto a mãe dela é pura simpatia, maior responsa a coroa Elas foram embora e eu parti pro meu barraco, nem marquei dali muito tempo mais não, estava cansado e amanhã o dia ia ser puxado porque ia chegar carregamento cedo. Cheguei em casa, fui ver minha filha que estava dormindo toda torta na cama, ajeitei ela, dei um beijo na sua testa e fui pro meu quarto, tomei meu banho e caí na cama apagando com os pensamentos nela, inevitável… e mais forte que eu… Acordei no dia seguinte com meu rádio tocando, um chamando — coe os maluco ta tirando nós pô, não mandaram metade da carga que tu pediu, segurei dois aqui, brota no qg — ele fala puto comigo e eu levanto num pique só — segura aí e dá as boas vindas, já tô indo — eu falo com ele e corro pro banheiro Faço minhas higienes na urgência, eu nem podia sair de casa agora de manhã, tinha que pelo menos ver a cara da fisioterapeuta nova da minha filha, mas eu preciso ir lá embaixo resolver esse bagulho o mais rápido possível Sai de casa voado, minha mãe ainda não tinha nem levantado, cheguei na boca e já fui na direção do jn que estava com a mesma roupa de ontem — foi nem em casa cuzao ?— eu pergunto olhando ele com nojo — perdi a hora no qg dos cria — ele fala malandro e eu dou risada Fui resolver os bagulho e passei os dois caras, eles acham que tem otario aqui, entrei em contato com o meu fornecedor e esculachei ele, acabou, não faço mais negócio com esse merda, e ainda vou dar uma f**a nele por querer me tirar pra moleque, pra ele aprender a ser homem, fudido do c*****o, tenho paciência para dois papos não — ai vou em casa, tem fisioterapeuta nova lá, e eu preciso pegar a visão — eu falo com o jn que concorda fazendo o toque comigo — depois eu vou lá ver minha afilhada — ele fala e eu concordo Fui correndo pra casa, cheguei lá já direto no banheiro do lado de fora, tomei aquele banho, minha mãe sempre deixava uma roupa ali pra mim, em caso de emergência, joguei a que estava suja de sangue no saco preto de lixo e fui entrando em casa Entrei pela cozinha. Minha mãe tava lavando uns legumes, cortando cebola, com um pano jogado no ombro. Quando me viu, só levantou o queixo como quem diz “bom dia” com o olhar. — Ué, não tá acompanhando a sessão? — perguntei, colocando a pistola no balcão e ela só me olhou com aquela cara e eu já tirei a arma dali e guardei no lugar. Ela sorriu de canto. Aquele sorrisinho debochado dela. — Vai lá ver por quê. — Hein? — Só vai. Elas estão no quarto da Sophia. Ela voltou a cortar os legumes como se tivesse me despachando. E foi o que eu fiz. Segui pro corredor, curioso, meio apreensivo, com a testa franzida e os passos lentos. Assim que cheguei na entrada do quarto da Sophia, parei. Travado. Sem conseguir dar mais um passo. E o ar me faltou por um segundo. Era ela. Nicole. Ali na minha casa e eu não conseguia acreditar nisso, eu olhava ela ali, elas ainda não tinham me visto, e parecia que eu estava num mundo paralelo junto com as gargalhadas de Sophia Eu não conseguia acreditar, parecia até ironia do destino uma parada dessas Eu já vi muita coisa nessa vida. Vi homem cair com um tiro no peito sem tempo de rezar. Vi mãe gritar em cima de corpo de filho, vi parceiro virar traíra, vi irmão de quebrada implorar pra não morrer. Mas tem coisa que a gente não espera ver. Tipo… minha filha, com aquele sorrisinho safado de canto, deitada no colo de uma mulher que ela viu pela primeira vez hoje. E não foi qualquer mulher. Foi ela. Nicole. A mesma que sambava com o copo na mão e o orgulho no olhar ontem. A mesma que levantou pra proteger a mãe dela sem piscar. A mesma que me desarma com um olhar atravessado. Porra. Eu fiquei parado ali, encostado na porta, só observando. E cada gesto dela era tipo uma porrada silenciosa. A forma como ela olhava pra Sophia, como segurava, como se importava. Não era fake. Não era profissionalismo forçado. Era de verdade. E foi aí que me pegou. Porque eu conheço bem gente que se aproxima querendo alguma coisa. Já cansei de ver vagabunda fingir interesse só pra ter vantagem. Mas ela não. Ela nem queria estar aqui. Foi Deus que empurrou essa mulher pra dentro da minha casa, só pode. Minha mãe tava toda encantada. Era só elogio, só simpatia. E a Sophia… a Sophia dormiu no colo dela. No colo. A minha filha, que não encosta em ninguém desde que a última fisioterapeuta pegou ela de qualquer jeito e ela ficou com medo. Dormiu. Respirando fundo, toda encolhida, agarrada naquele coelho de pelúcia como se já conhecesse aquela mulher desde o ventre. Eu senti um nó na garganta. Que eu engoli. Porque eu sou homem, p***a. Sou dono dessa p***a toda. Mas ali, naquela cena, eu era só pai. Minha mãe soltou aquele convite do almoço. E eu ganhei na loteria, afinal, eu também queria que ela ficasse. Queria ver mais. Ver ela rindo. Ver ela falando com a minha mãe. Ver ela tocando na minha filha como se ela fosse de casa. E quando ela olhou pra mim, como quem não tava entendendo nada… Mano, eu soltei um “aceita” como quem diz “fica”. Fica mais um pouco. Fica aqui. Fica… na minha vida. Ela segurou o olhar. Com marra, como sempre. Mas aceitou. E ali, eu soube. Já era. Ela não vai invadir só os meus pensamentos, mas a minha casa, a minha família também, e eu vou lutar pelo o que eu quero Ela se levantou com a Sophia ainda no colo e me olhou de canto. Passou por mim devagar, e o cheiro dela bateu no meu nariz com uma força que me fez perder um segundo de consciência. — Vou só pôr ela no sofá, bem devagar. — ela falou pra minha mãe, e eu senti o orgulho na voz. A mulher já entrou no clima da casa. Nem parece que é o primeiro dia. Eu fui pra cozinha disfarçar. Ficar perto dela demais agora ia dar merda. Eu sou do tipo que age. E eu ainda tô tentando respeitar. Tô tentando entender. Mas o cheiro dela, o jeito que ela segura minha filha, as lembranças do vestido de ontem colado no corpo dela, tudo me perturba. Minha mãe me cutucou quando ela saiu da sala: — Eu vi teu olhar emmmm— ela me provoca — Não viaja, mãe. — tentei disfarçar. — Eu não viajo não, menino. Você nunca ficou assim com nenhuma. Nem com a mãe da Sophia. — ela falou sem olhar pra mim, mexendo na panela como quem mexe na ferida. — Ela é diferente. — falei baixo, quase num sussurro. — Então trata diferente. Porque se você assustar essa aí, vai perder o que nem chegou a ter. Ela tem razão. Mas eu sou o Urso. E o Urso, quando quer uma coisa… Ele vai buscar.
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