Capítulo 04

1926 Words
Nicole narrando Eu nao podia acreditar que eu ia justo para a casa daquele homem, o meu destino parecia uma piada, como era possível ? Meu rosto queimava, minhas pernas não respondiam por mim… Eu fui pra cozinha e não consegui comer, tomei um copo d’água, peguei a chave do carro e saí de casa, entrei no carro respirando fundo tentando entender como depois de toda aquela cena no bar, toda aquela encarada dele, que me deixou desconfortável, eu ia ter que entrar na casa desse homem e cuidar da filha dele ? Todos sabem da história de quando a sua ex o abandonou. Eu achei uma crueldade pela criança. Por ele não me importei, dizem que ele sofreu e tudo mais, mas não me importa, não faz diferença pra mim… Eu fiquei sentida pela menina, tão pequena, coitada… eu sabia que ela tinha essa condição, mas nunca me chamaram pra cuidar dela, e eu também não via a mãe dele, que era quem cuida da menina, e também não ia chegar nele me oferecendo, já que eu nunca tive contato com ele né…. Eu segui pra casa dele com aquela sensação estranha no peito. A música tocava no som do carro, mas minha cabeça estava longe. Estava na casa dele… a casa do dono do morro. Do homem que ontem me olhou como se quisesse me despir com o pensamento. Eu dei seta e estacionei bem na frente da casa. Grande, reformada, com portão de correr e muro alto. Tudo muito limpo, muito organizado, nada de ostentação desnecessária — era o tipo de casa que impunha respeito só de olhar. Desliguei o carro e respirei fundo. Peguei minha pasta, ajeitei minha blusa, puxei o espelho pra conferir se o cabelo tava no lugar. E tava. Mas meu rosto… meu rosto estava queimando só de lembrar do olhar dele no bar. c*****o. Aquilo ali foi s*******m com minha paz. Os seguranças me liberaram após eu informar que vim pra cuidar da menina, eles passaram um rádio para dentro de casa e eu ouvi minha autorização vindo de uma mulher… Segui pelo portão e antes de tomar coragem e tocar a campainha eu respirei fundo torcendo para ele não estar ali também, e não ser ele a atender a porta… Toquei a campainha. Não demorou muito e o portão foi aberto. Uma senhora simpática, com o cabelo preso e olhar cansado, apareceu com um sorriso no rosto. A cara do Urso. Ou melhor, ele é a cara dela… — Oi, você que é a Nicole? — ela pergunta já abrindo mais o portão. — Sou sim, tudo bem? — estendo a mão e ela aperta com firmeza, sorriso verdadeiro. — Ai, que bom que veio, filha. Seja bem-vinda. Entra, por favor. Eu sou a dona Vera, mãe do urso, mas isso você já deve saber né ? — ela fala divertida e eu confirmo Ouvir ela falando assim, com aquele ar de mãe orgulhosa, pareceu… íntimo demais, e eu fiquei nervosa, senti meu rosto esquentar na hora… — Muito prazer, dona Vera. Já estou com tudo aqui, só preciso conhecer a Sophia e entender a rotina. — A Sophia tá dormindo agora, mas já tá quase na hora dela acordar. Vem, senta um pouco. Quer uma água, café? — Um copo d’água, se não for incômodo. — Imagina! — ela fala enquanto me guia pra dentro da casa. A casa era linda. Simples, mas aconchegante. Cheiro de lavanda no ar. Uns brinquedinhos no canto da sala, uma televisão ligada no mudo, passando desenho, e um sofá grande, com almofadas que claramente foram arrumadas por alguém que tem carinho pelos detalhes. Tudo tinha cara de lar. E isso… mexeu comigo. Ela me trouxe o copo d’água, sentou do meu lado e começou a falar da Sophia. Eu ouvia atenta, anotando mentalmente cada detalhe: horários, alimentação, medicações, histórico de internação. — Ela é tudo pro meu filho. Essa menina salvou ele, sabe? Depois do que a mãe dela fez… — ela balança a cabeça e suspira fundo. Eu não queria ser invasiva, mas a dor dela transbordava. E eu sei reconhecer quando uma mulher carrega o mundo nas costas. Então só escutei. — E ele é um ótimo pai, Nicole. Muito protetor, muito exigente. Já aviso logo… — ela riu de canto — mas com razão, né? A saúde da nossa pequena não é qualquer coisa. — Pode deixar, dona Vera. Eu sou muito profissional, e amo o que faço. Prometo dar o meu melhor por ela. — Eu já gostei de você, sabia? — ela falou sincera — E olha que eu oro antes de cada atendimento novo, pedindo pra vir alguém que se importe de verdade. Deus mandou você. Eu sorri sem saber muito o que responder, mas aquilo aqueceu meu peito. Ser reconhecida assim, logo de cara, era raro. Ainda mais por uma mãe de cria. Eu sei como é. E respeito muito. — Vem cá, vamos lá no quarto dela. Já deve estar acordando… — ela se levanta e eu a sigo pelo corredor. A casa estava toda decorada com fotos da Sophia. O quartinho dela era uma delicadeza só. Cor pastel, bichinhos de pelúcia, um berço e uma caminha de transição com lençóis cor de rosa e um móvel com medicações bem organizadas. — Bom dia, meu amor — ela fala baixinho, abrindo a cortina de leve — olha quem chegou pra cuidar de você… Sophia era linda. Pequena, magrinha, cabelinho cacheado bagunçado, os olhos mais vivos que já vi. E quando me olhou, sorriu de um jeito tímido, mas doce. Meu coração já foi pra ela ali mesmo. — Oi, princesa… — falei me abaixando até a altura dela — posso cuidar de você? Ela assentiu com a cabeça e agarrou um bichinho de pelúcia. Um coelhinho. — Ela tá mais animadinha hoje — a dona Vera comentou sorrindo. Montei o tatame, preparei os materiais e comecei a avaliação dela com toda delicadeza do mundo. Me envolvi tanto, que nem percebi o tempo passar… Sophia é um amor, um doce de criança — agora me mostra o pé — eu falo rindo com ela no meio do exercício e ela joga o pé pra cima e eu bato palmas comemorando — hmmmmm e a Sophia é boa de equilíbrio será ?— eu faço estratégias de forma lúdica e interativa para que ela não se sinta pressionada, e sim como se estivesse brincando - ximmmm eu sei tia — ela fala e fica de pé e fica tentando se equilibrar enquanto eu apoio seu corpinho segurando ela com delicadeza e sorrindo completamente focada nela E estava fundo indo na mais perfeita ordem, ate que eu senti aquele cheiro de novo. O mesmo do bar. Forte, amadeirado, intenso. Levantei o olhar e ele tava ali. Na porta do quarto. Sem camisa, bermuda preta, corrente pendurada no pescoço e aquele olhar… Ele não falou nada. Só ficou ali. Me olhando. Olhando a filha. Olhando a forma como eu encostava nela com carinho, cuidado, respeito. E eu segurei o olhar de volta. Sem abaixar os olhos. A tensão entre a gente era palpável, como se o ar tivesse mais pesado. O coração deu aquela acelerada, mas eu respirei fundo e continuei meu trabalho. Ele não ia me intimidar. Nem me desconcentrar. Mas que p***a, aquele homem era um perigo. — Tá de parabéns, doutora. — ele falou com a voz baixa e grave — A Sophia riu, e isso é raro. — Obrigada. Ela é uma menina incrível. Ele assentiu e ficou ali, de braço cruzado, observando cada movimento. E eu fingindo que era tudo normal… Mas por dentro? Por dentro eu tava um furacão e eu não podia deixar ele perceber isso O atendimento seguiu, e eu fingindo que não tinha um homem esculpido por Deus — e lapidado pelo inferno — parado me encarando na porta. Concentração total, controle absoluto… pelo menos era o que eu tentava manter. Porque cada passo que ele dava mais perto, parecia que o oxigênio da casa era dividido com meu autocontrole. A Sophia era incrível. Atenta, esperta, carinhosa. Não demorou pra ela se soltar comigo, e quando percebeu que a gente ia brincar de exercício, ela já puxou o coelhinho pro tatame e veio junto. A cada progresso dela, o coração apertava. Tão pequena… e com tanto pra ensinar. Eu já tava completamente rendida. — Ela tem um bom tônus, dona Vera, mas vamos precisar ajustar algumas rotinas e revisar alguns exercícios. Eu vou montar um plano específico pra ela, bem personalizado, tá? — Fica à vontade, filha. Confio no teu trabalho. — a mãe dele respondeu com um brilho no olhar que parecia me examinar além da profissional. Ela se sentou ali no tatame conosco para observar o desenvolvimento da sessão Enquanto isso, ele… ele continuava ali, recostado na parede, os olhos cravados em mim. Nem disfarçava. E quando a Sophia resolveu, do nada, deitar no meu colo, foi como se o mundo tivesse ficado em silêncio por dois segundos. Ela colocou o coelhinho no meu ombro e se aconchegou contra meu peito. A cabecinha dela encaixou no meu braço como se aquilo ali já fosse costume. Natural. Quente. Afetuoso. E foi nesse momento que eu olhei pra ele. Sem querer. Sem planejar. E ele tava com a expressão mais indecifrável do mundo. Um misto de surpresa, emoção, respeito… e desejo. Como se aquela cena tivesse acertado um lugar que ele nem lembrava que existia dentro dele. Eu não desviei. Segurei o olhar. E juro, por um instante, era como se só existíssemos nós três naquele quarto. — Ela já te adotou, viu? — a dona Vera brincou, com um sorrisinho nos lábios enquanto dobrava umas roupas ali no canto. — Eu tô apaixonada nela já… — falei sem pensar, baixinho, acariciando o cabelinho da Sophia, que já estava praticamente cochilando de novo no meu colo. — Então fica. — a dona Vera soltou como quem joga uma isca certeira. — Hm? — levantei o olhar, surpresa. — Fica pro almoço. Já tá quase pronto. Fiz galinhada com quiabo e farofa de bacon. Ela vai amar você aqui quando acordar de novo, e, sinceramente? — ela deu uma piscadinha — Eu também. Foi a primeira vez em meses que a vi tão entregue e confortável — ela fala e me pega de surpresa com esse comentário, mais até que com o convite em si O urso ainda estava ali. Silencioso. Mas agora tinha se aproximado mais, parado do meu lado. Tão perto que dava pra sentir o calor do corpo dele. O cheiro dele. A energia dele. — Aceita. — ele falou num tom que não era pedido. Era afirmação. Baixo. Grave. Quase um comando. Eu olhei pra ele. E pela primeira vez, ele sorriu. De leve. Sem mostrar os dentes. Só o canto da boca erguido. Aquele sorriso que diz “não é hoje que você vai escapar de mim”. E eu aceitei. — Só se eu puder ajudar a arrumar a mesa. — respondi, tentando manter a pose, com a Sophia ainda aninhada no meu colo, como se já fosse minha. E ele… ele soltou uma risadinha rouca e passou a mão na boca, desviando o olhar pela primeira vez. Merda. Esse homem vai dar trabalho demais. Eu não posso me distrair, eu estou aqui pelo meu trabalho, e preciso continuar, essa menina precisa de mim… Eu não posso me deixar levar por esse homem, porque é um caminho de perdição sem volta…
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