Capítulo 9

1214 Words
Yasmin 🌝 Depois de 14 horas de voo e muito enjoo, chegamos no Brasil de novo, mas dessa vez não sozinha. Vim com dois bebês na barriga e uma irmã maravilhosa que a vida me deu. E sem pai e sem mãe. Mas sei que vou passar por tudo isso e vou ser forte. Só que, nesse momento, eu tô sentindo uma tristeza… uma tristeza sem explicação. Beatriz: O ar do Brasil é diferente, né? — falou, pegando nossas malas e colocando no carrinho. Yasmin: Sim, com certeza — falei meio pra baixo, mas feliz. Beatriz: Ei, não fica assim — pegou no meu ombro. — Já falei que agora é vida nova. — Concordei com um pequeno sorriso. — Vamos que o carro já tá esperando a gente. Ajeitei minha bolsa nas costas e fomos saindo do aeroporto. Já tava noite, um clima tão gostoso. Parei de andar por um segundo, respirei fundo e deixei o clima brasileiro tocar no meu corpo. Meu olhar passeou pelo pátio. Dois carros chamaram minha atenção de cara, cada um de um jeito totalmente diferente. O primeiro, um HB20 preto, descansava ali todo discreto… mas nem tanto. O bicho parecia compacto, mas tinha personalidade. A pintura escura brilhava mesmo na pouca luz, os faróis ligados, a grade grande e moderna, quase agressiva. Já o segundo carro… ah, esse não precisava nem tentar. Uma Range Rover Velar azul fosco, simplesmente estacionada como se tivesse sido colocada ali por um diretor de cinema. O carro parecia flutuar de tão elegante. As linhas eram limpas, sofisticadas, os faróis finos acendiam como se piscassem com superioridade. As rodas grandes completavam o conjunto. Tudo nele gritava luxo, força e presença. Por um instante, fiquei ali só observando. Um compacto pronto pro dia a dia e um SUV que parecia coisa de milionário. Dois mundos diferentes, lado a lado. Beatriz: Amiga, tá tudo bem? Tá travada aí há um minuto? — me chamou, tirando minha atenção dos carros. Yasmin: Amiga, olha aqueles carros ali. A Velar é linda demais, não acha? — voltei minha atenção pra ela e escutei ela rindo. Dois homens saíram dos carros. Eram grandões, com uma vibe meio perigosa, e vieram na nossa direção. Já fiquei com medo. — Amiga, eu olhei demais pros carros, agora eles tão vindo pra cá. Socorro. Beatriz: Fica de boa, menina — ela tava rindo da minha cara. X: Patroa, moça — falou comigo e com a Bia. Patroa? Como assim patroa? Olhei pra ela sem entender. Beatriz: Tigrão! — abraçou ele. — Amiga, esse é o Tigrão. Tigrão, essa é a Yasmin, minha amiga. Tigrão: Prazer, moça — ele olhou pra minha barriga. — Tá pra ter, né? Yasmin: Prazer é meu — sorri. — Ainda faltam três meses. X: c*****o, e tá desse tamanho por quê? Mais um pouco tu explode, mina. Nem preciso falar que deu vontade de chorar, né? Deixei uma lágrima escorrer. Eu tô muito sensível e meu corpo eu tô achando horrível. Beatriz: Tá doido, KK? — deu um tapa na cabeça dele. — Amiga, não liga pra isso. KK: Desculpa, mina. Eu não quis falar desse jeito. Chora não, pô, não gosto de ver mulher chorando, não. Se tu parar de chorar, eu compro doce pra você. Olhei pra ele e sorri. Beatriz: Agora vai ter que comprar, b***a. — Passou por ele e eu ri. — Vamos, já vai dar meia-noite. Quero minha cama e você tem que descansar, passou horas sentada. Tigrão: O patrão sabe que a senhora voltou? Patrão? Como assim? Bia é casada? Beatriz: Teu patrão não precisa saber das minhas coisas, Tigrão. E senhora tá na casa do c*****o. — Ele riu e entregou a chave do carro pra ela. — Coloca três malas no meu carro e o resto no de vocês. Vieram só vocês? KK: Quatro carros, patroa. Eu sem entender nada. Patroa? Patrão? Quatro carros? O que essa menina é, meu senhor? Beatriz: Vamos, amiga — pegou na minha mão e me levou até a Velar. Yasmin: Amiga, esse carrão é seu? Fiquei chocada quando ela abriu a porta pra eu entrar. Por dentro era a coisa mais linda do mundo. O carro que eu usava era um HB20. O dos meus pais era outro nível, mas mesmo assim nunca cheguei perto de algo assim. Beatriz: Sim. Ganhei de presente antes de ir pra Paris. Lindo, né? Yasmin: Lindo é pouco. Ele é maravilhoso, mulher. Beatriz: Amiga, eu sei que você deve tá se fazendo várias perguntas sobre tudo isso, né? Yasmin: Sim. Você é casada? Por que te chamam de patroa? Pra que quatro carros? E onde eles tão? Ela respirou fundo. Beatriz: Amiga… minha família é envolvida com o crime. Eu fiquei sem reação. Minha mente virou uma bagunça. Beatriz: Eu sei que deveria ter contado. Fiquei com medo. Lá no morro muita gente só fica do meu lado por causa dos meus irmãos. Eu não queria que você se afastasse de mim. Sua vida é diferente da minha. Eu sei que errei, mas me desculpa. Os quatro carros são por segurança. Meus irmãos têm inimigos, têm a polícia, e sabem que eu sou o ponto fraco deles. Yasmin: Eu… eu não sei o que falar agora. Fiquei m*l, sim. Mas ao mesmo tempo eu entendi. Se eu estivesse na situação dela, talvez fizesse o mesmo. Beatriz: Eles não são o que a sociedade chama de m*l elemento. São as pessoas mais maravilhosas do mundo pra mim. Me perdoa por não ter contado. Yasmin: Tá tudo bem. Só fiquei sem reação. — Sorri fraco. — Lindo seu carro. Mudei o assunto. Depois a gente conversa. Ela continua sendo minha irmã. Não é isso que vai me fazer deixar ela. [...] Fomos o caminho todo conversado, que saudade eu tava do Brasil. Beatriz: Chegamos. De longe dava pra ver o morro iluminado. Yasmin: Caramba, que lugar lindo. Beatriz: Você tem que ver lá dentro. O morro é enorme e você vai amar. Mas na frente tinham homens armados. Beatriz: Naldo, cadê meus irmãos? Naldo: c*****o, a princesa voltou! — sorriu pra ela, toda sem jeito, aí tem coisa — Eles tão no baile, comemorando o título do Mengão com tua coroa. Beatriz tava maluca, porque ia perde o jogo. Assim que saiu do avião já foi ver o placar e gritou no aeroporto, quando viu que o time ganhou. Essa maluca ainda me fez usar uma blusa enorme do Flamengo. Ficou parecendo um vestido, mas ficou bonito. Naldo: Quem é a mina? Beatriz: Amiga minha. Por quê? Naldo: O patrão sabe? Ela negou. Beatriz: Se tu falar, eu nunca mais falo contigo. Fechou o vidro e acelerou. Yasmin: O amor vem do ódio, amiga. Beatriz: Aí tu fumou pedra, Yasmin. Eu ri. Beatriz: Vamos no baile pegar a chave com dona Fátima. Yasmin: Bia, melhor não. Eu tô feia. Beatriz: Feia onde? Tu tá maravilhosa. Vamos só passar um perfume, soltar o cabelo e tamos gostosas. Yasmin: Bia, tu é demais. Beatriz: E tu ama, né? Me arrumei rapidinho. Beatriz: Pronta pra conhecer o melhor baile do Rio? Yasmin: Pronta não… mas vamos. Só rapidinho, seus sobrinhos pesam demais. Ela sorriu e voltou a dirigir. E eu ali, tentando entender pra onde a vida tava me empurrando.
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