Yasmin 🌝
Hoje estou fazendo seis meses. Parece que foi ontem que descobri a gravidez e surtei. Eu literalmente surtei. Queria tirar, não aceitei… mas Beatriz conversou tanto comigo, insistiu tanto, que toda a força que eu tenho agora é porque ela me mostrou que eu posso.
No dia seguinte à descoberta, fui fazer exame pra confirmar mesmo. Fiz tudo certinho e, quando peguei o resultado, fui direto pra médica. Já estava de três meses. Meu nenê forte e saudável.
Quem não estava muito bem era eu. m*l conseguia parar comida no estômago.
Mas enfim.
Quando fui fazer o ultrassom, eu surtei ainda mais. Beatriz pirou. Eu quase morri ali mesmo. Eu simplesmente estava grávida de dois.
Dois.
Sim, dois presentes de Deus.
Fiquei em choque. Passei uma semana chorando. Mas hoje estou aqui, forte, pelos meus nenês.
Meus pais, nesses seis meses, não mandaram mensagem. Só enviam meu dinheiro todo final de mês. E nada mais.
Falei com a Nina. Contei da gravidez. Surto? Sim. Demais. Mas agora ela está toda boba com os nenês. Fizemos chamada de vídeo, e ela me mostrou umas coisinhas que comprou pra eles. Vai tentar mandar ou talvez venha pra Paris. Fiquei toda emocionada vendo. As coisas mais lindas. Ela quer vir antes de eles nascerem pra me ajudar.
Ainda não comprei nada. Pode ser eles, elas… ou um casal. Vou esperar descobrir primeiro.
Minha barriguinha já está enorme. Tô quase rolando. Sinto dor em tudo quanto é canto.
Estou me arrumando pra consulta e espero que esses bebês já estejam de perninha aberta, porque eu tô ansiosa demais. Não quero esperar até o nascimento pra saber.
Beatriz: JÁ TÔ ESPERANDO! — gritou da sala.
Beatriz é maravilhosa. Me ajuda em tudo. Está comigo pra tudo. Encontrei nela uma irmã de verdade.
Yasmin: TÔ INDO! — gritei de volta.
Peguei meus documentos, me olhei no espelho. Estava inchada, sim, mas bonita do meu jeito. Coloquei um vestido longo azul clarinho e saí do quarto.
Beatriz: Que demora.
Dei de ombros.
Beatriz: Já era linda. Agora, com meus sobrinhos na barriga, tá ainda mais.
Yasmin: Eu sou linda, filha. — joguei o cabelo pra trás, e ela riu. — Vamos?
Ela concordou e saímos.
Chegamos quase em cima da hora. Fizemos a recepção e ficamos esperando a doutora chamar. Beatriz estava mais nervosa que eu. Ela teve a ideia de fazer um chá revelação. Viu algo no i********: e quer fazer pra nós duas. Eu nem queria muito, mas aceitei. Depois de tudo que ela fez por mim, o mínimo é dar esse momento pra ela.
Enfermeira: Yasmin Gomes.
Entramos.
Dra. Nádia: Boa tarde. Como está essa mamãezinha hoje?
A doutora Nádia é maravilhosa. Me deu vários conselhos desde o começo. Disse que era normal o medo, a insegurança. Que tudo ia dar certo.
Yasmin: Estou bem. Ainda com uns enjoos pela manhã, mas estou comendo melhor.
Beatriz: Só está comendo porque eu quase bati nela, doutora.
Olhei pra ela indignada, e ela riu junto com a médica.
Dra. Nádia: Isso sim é amizade. E amizades assim são raras.
Olhei pra Beatriz toda orgulhosa. E é mesmo. A amizade dela é rara demais.
Dra. Nádia: Então vamos lá?
Concordei.
A sala branca, silenciosa. Aquele cheiro de hospital que antes me dava conforto… agora me dava frio na barriga. Me ajeitei na maca, levantei o vestido. Beatriz sentada ao meu lado, com cara de mãe emocionada.
O monitor ligado fazia um bip leve. Meu coração acompanhava, todo descompassado.
A doutora passou o gel gelado na minha barriga.
Dra. Nádia: Vamos dar uma olhada nos seus nenéns?
Nenéns. No plural. Toda vez que escuto isso, meu cérebro trava.
Eu vim terminar a faculdade. Não começar uma família.
E agora estou aqui, com dois.
Deus realmente tem senso de humor.
A imagem apareceu na tela. Dois movimentos pequenos. Dois coraçõezinhos batendo tão rápido que pareciam dançar.
A doutora sorriu.
Dra. Nádia: Olha que coisa linda… os dois estão perfeitos. Crescendo muito bem. Um pouco agitados, mas isso é normal. O desenvolvimento está exatamente onde deveria para seis meses.
Seis meses.
Faltam três.
Três meses e minha vida muda completamente.
Eu ainda nem escolhi nomes. Ainda nem sei como contar pros meus pais. Ainda nem sei como sustentar dois bebês em outro país.
Respira, Yasmin. Respira.
Yasmin: Doutora… já dá pra ver o sexo deles?
Perguntei quase envergonhada.
Dra. Nádia: Sim, perfeitamente.
Beatriz: NÃO!
Ela levantou a mão dramática.
Beatriz: Quer dizer… não conta pra gente agora. Anota num papel, por favor. A gente vai fazer um chá revelação.
A doutora riu.
Dra. Nádia: Sem problemas. Posso escrever e colocar em um envelope lacrado.
Beatriz quase bateu palmas.
Eu só conseguia olhar pra tela.
Dois corações. Dois futuros. Duas responsabilidades.
Estou morrendo de medo.
Mas tem algo dentro de mim — além deles — que está acendendo. Uma coragem que eu não sabia que tinha.
A doutora desligou o aparelho, limpou o gel e entregou o envelope fechado pra Beatriz.
Dra. Nádia: Está tudo aí dentro.
Beatriz segurou como se fosse um tesouro.
Respirei fundo, mão na barriga.
Seis meses.
Não tem mais volta.
E, de algum jeito, eu vou dar conta.
Por eles.
A doutora passou exames, receitou vitaminas e marcou a próxima consulta.
Saímos do consultório e Beatriz estava elétrica.
Beatriz: Amiga, tu tem noção? Nesse envelope está o sexo dos nossos bebês!
Ela balançava o envelope.
Eu estava louca pra saber.
Yasmin: Não demora pra fazer esse chá, viu? Quero começar o enxoval.
Beatriz: Pode deixar. Vou ligar pra mamãe pra ela saber junto com a gente.
Dona Fátima é um amor. Conheci há três meses e ela já se considera vó dos meus filhos.
Entramos no carro.
Mas, sabe quando alguma coisa incomoda?
Um pressentimento.
Eu tô assim.
Tem alguma coisa me incomodando…