Um Monstro

1155 Words
Helena Narrando Maria me emprestou uma roupa. Foi estranho trocar de roupa ali, num lugar que não era meu, com tudo acontecendo tão rápido, mas eu não tinha opção. Tomei um banho demorado, tentando acalmar a cabeça, deixando a água cair como se pudesse levar embora o medo, a confusão, mas nada saía. Quando saí, me senti um pouco melhor. Não bem, mas menos perdida. Jantei com elas na cozinha. A comida tava boa, simples, mas bem feita. Eu comi quieta, ainda tentando entender onde eu tava e o que ia ser de mim dali pra frente. Fome zero, mais tenho que me alimentar, para não cair de vez. — Você come pouco — Maria comentou, me olhando. — Tô sem muita fome. — respondi baixo. Antes de subir, eu abri minha mochila e tirei alguns doces que ainda tinham ficado comigo. Entreguei uns pra Zélia e outros pra Maria. — Eu vendo doce na rua, brownie, brigadeiro, essas coisas. Zélia sorriu. — Tá explicado o cheiro bom. Maria pegou o doce e me olhou com mais carinho. — Você é uma boa menina, Helena. Dá pra ver isso. Eu não soube o que responder. Luna já tava coçando os olhinhos, sonolenta, o corpinho mole pedindo colo. — Vem cá, princesa. — falei, pegando ela. Fiquei balançando devagar, andando pela sala, sentindo o peso leve dela nos meus braços. Aquilo, de algum jeito, me acalmava também. Não demorou muito, ela dormiu. Subi com ela no colo, com cuidado pra não acordar. Entrei no quarto e coloquei ela no berço devagar, ajeitando a mantinha. Maria entrou logo atrás. — Vou liga o ar — ela disse, indo até o controle. Ligou e ajustou a temperatura. — Deixa o abajur aceso. Se ela acordar, só dá a chupeta que ela dorme de novo. Eu balancei a cabeça. — Tá bom. Ela me olhou mais uma vez. — Boa noite, Helena. — Boa noite. Ela saiu, puxando a porta com cuidado. E o silêncio voltou. Olhei pra Luna dormindo, tão tranquila, e aquilo parecia fora da realidade. Como se aquele quarto fosse um mundo separado de tudo que tinha acontecido lá fora. Eu fui até a cama e deitei. O corpo tava cansado demais. A mente, esgotada. Mas o sono não veio. A cama era macia, o travesseiro confortável, tudo perfeito demais pra quem tava vivendo um pesadelo. Eu virava de um lado pro outro, tentando relaxar, tentando desligar. Mas toda vez que eu fechava os olhos, a cena voltava. Ele, a arma, a mulher no chão, implorando. O disparo. Eu abria os olhos assustada, respirando rápido, o coração disparado. — Não… não… Sussurrei pra mim mesma. Mas não adiantou. Demorei muito pra dormir. E quando consegui, foi mais cansaço do que paz. Acordei cedo, com um barulhinho leve. Abri os olhos devagar. Luna tava no berço, acordada, conversando sozinha, balbuciando, como se estivesse contando alguma coisa pra alguém invisível. Tão linda. Tão pequena. Tão inocente. — Bom dia, princesa. — falei, me levantando. Ela me viu e abriu um sorrisinho, levantando e se segurando nas grades do berço. Meu coração apertou. Peguei ela no colo. — Dormiu bem, não foi? Levei ela até a cama e troquei a fralda com cuidado, tentando fazer tudo certo. Ainda tô insegura, mas já menos desesperada do que ontem. Descemos. Maria já tava na cozinha. — Bom dia. — Bom dia. Ela me ensinou a fazer a mamadeira. — Essa é a medida certa. Nem muito cheia, nem rala demais. Fiquei prestando atenção em tudo. — Assim? — Isso, agora mistura bem. Preparei e dei pra Luna. Ela pegou direitinho, mamando tranquila. Maria me entregou uma escova nova e uma pasta. — Pra você. — Obrigada. Ela continuou. — Vou falar com o patrão pra comprar roupas pra você. Eu só balancei a cabeça. Não respondi. Porque só de pensar nele, meu corpo trava. Esse homem é louco. E quanto menos eu falar sobre ele, melhor. Aquele tiro, ainda ecoa no meu ouvido. Subi de novo com a Luna já alimentada, quietinha no meu colo. Entrei no quarto tentando manter a rotina, como se aquilo fosse me dar algum controle sobre a situação. Coloquei ela no berço por um instante, fui até o banheiro, escovei os dentes, lavei o rosto e prendi o cabelo num coque apertado, só pra não ficar caindo no rosto toda hora. Respirei fundo, me olhei no espelho e tentei me convencer de que eu precisava manter a calma. Voltei pra ela. — Vamos, princesa, hora do banho. Peguei a banheira, preparei tudo com mais confiança do que na noite anterior. Ajustei a água, testei a temperatura e fui falando com ela o tempo todo. — Tá quentinha, viu? Igual você gosta. Coloquei ela devagar na água e, dessa vez, não foi desespero. Foi diferente. Eu fui conversando, tentando distrair. — Você gosta, né? Olha só essa carinha. Ela começou a mexer as perninhas, batendo as mãozinhas na água, rindo daquele jeitinho leve que parecia iluminar o ambiente. Aquilo me arrancou um sorriso sincero. — Tá rindo de quê, hein? Comecei a cantar baixinho, uma música qualquer que veio na cabeça. Nem lembrava a letra direito, mas fui improvisando. E ela ria mais. Ria como se tudo estivesse bem, Como se esse mundo não fosse perigoso. Como se eu não estivesse ali presa. Terminei o banho com cuidado, enrolei ela na toalha e levei pra cama. Abri o guarda-roupa e escolhi um conjuntinho rosa, bem bonito. Vesti ela devagar, ajeitando cada detalhe. Arrumei o cabelinho dela, passei um pouquinho de perfume. — Pronto, olha só você. Ela ficou tão fofinha que eu nem consegui segurar, apertei ela. — Luna, minha vida depende de você, então me ajuda, combinado? Ela me olhou e, do nada, fez um gesto com a mãozinha, meio torto, mas parecia um legal. Eu arregalei os olhos e comecei a rir. — Você entendeu? Ela riu também. Aquele momento, foi leve. De verdade. Eu abracei ela com cuidado, encostando o rosto na cabecinha dela. — É pequena, só você pra me ajudar a não surtar. Fiquei ali alguns segundos, respirando fundo, tentando guardar aquela sensação. Mas a realidade sempre volta. Desci com ela no colo. E quando comecei a descer as escadas, senti meu corpo reagir. Minhas mãos ficaram geladas. Minhas pernas levemente trêmulas. Eu precisava comer. Preciso me manter de pé. Mas tinha uma coisa que pesava mais que a fome. Ele. Quando cheguei na cozinha, ele tava lá, Sentado. O mesmo homem, O mesmo olhar. A mesma presença pesada que parecia ocupar o ambiente inteiro. Naquele instante, todo o ar ficou diferente. Meu coração disparou. Meu corpo travou por um segundo. E eu só consegui pensar em uma coisa: Esse homem, pra mim é um monstro insensível. Mesmo com a Luna no colo, me dando uma sensação de paz, mesmo com tudo aparentemente calmo, eu não consigo esquecer. O que ele fez.
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