Helena Narrando
Quando eu vi aquele homem, eu soube na hora que eu tava ferrada.
Ele tava ali, no meio de um lugar estranho, com uma arma na mão e, ele tava rezando. Não era uma cena normal, não era algo que você vê e esquece. Tinha uma mulher no chão, gritando por ajuda, desesperada, se debatendo como se a vida dela dependesse de um milagre que não ia vir.
E tinha homens armados ao redor. Muitos. Todos parados, como se aquilo fosse normal.
Meu estômago virou.
Eu engoli seco na mesma hora, porque a ficha caiu com força: eu não devia estar ali. Eu tinha entrado num lugar errado. Muito errado.
Eu pensei que ele ia me matar.
Sério.
Foi isso que passou na minha cabeça. Eu só conseguia olhar e pensar: acabou pra mim.
Mas ele não fez isso.
Ele só puxou o gatilho.
E eu fechei os olhos sem querer ver.
O som ecoou seco, pesado, e depois veio o silêncio estranho que fica depois de algo irreversível.
Quando eu abri os olhos de novo, minha respiração já tava desregulada.
Foi aí que ele me viu.
O olhar dele veio direto em mim. Fixo, Profundo. Gelado.
Naquele segundo, minhas pernas começaram a tremer sem parar. Não era exagero, não era drama. Eu simplesmente perdi o controle do próprio corpo.
— Não… não… — eu tentei falar, mas não saía som.
Eu queria correr: Mas minhas pernas não funcionavam.
Eu queria gritar: Mas minha voz tinha sumido.
Eu tava em choque, parada, olhando pra ele como se meu cérebro tivesse travado.
Ele falou alguma coisa, mas eu não ouvi direito. Só vi ele vindo na minha direção.
— Entra no carro.
Eu neguei com a cabeça na hora, mesmo sem forças.
— Eu não vou…
A voz saiu falha, quase um sussurro. Ele não discutiu.
Só veio.
E me pegou pelo braço.
— Me solta! — eu tentei puxar, mas não adiantou.
Ele me arrastou.
Eu tava me mijando de medo, literalmente sem controle de nada. Meu corpo não obedecia mais.
— Por favor… eu não fiz nada… — eu consegui dizer, mas parecia que eu tava falando com o vento.
Ele abriu a porta do carro e me jogou no banco de trás como se eu não pesasse nada.
Caí de lado, ofegante, tremendo inteira.
Antes que eu entendesse qualquer coisa, ele colocou uma menina no meu colo.
— Segura.
A criança tava chorando baixo, assustada, sem entender nada. Instintivamente, eu segurei ela, mesmo sem saber o que tava acontecendo.
— Eu não sei o que tá acontecendo. — eu sussurrei, olhando pra ele.
Ele não respondeu.
Fechou a porta e entrou no banco da frente.
O carro arrancou com força.
Eu me segurei como pude, tentando manter a menina firme no meu colo. Meu corpo ainda tremia inteiro, mas aos poucos eu percebi que ela tava diminuindo o choro.
Ela foi se acalmando.
Encostou em mim.
Apertou minha blusa com a mãozinha pequena.
E, de um jeito inexplicável, acabou dormindo.
— Tadinha. — eu falei baixinho, olhando pra ela.
Mas meu coração ainda tava fora do lugar.
Porque eu não sabia onde eu tava. Não sabia com quem eu tava.
E principalmente, Eu não faço ideia se eu vou sair viva daqui.
Ele entrou no morro e eu percebi na hora que aquele lugar não era como qualquer outro que eu já tinha visto.
Eu não conhecia o lugar, mas ele subia as ladeiras como se já soubesse exatamente pra onde ia. Quanto mais alto a gente ia, mais eu conseguia ver o lugar mudando. As casas iam ficando mais próximas, empilhadas, umas em cima das outras. Gente na rua olhando o movimento, criança correndo, moto passando rápido demais nas curvas estreitas. Tinha som, tinha vida, mas também tinha uma tensão que eu não sabia explicar.
Meu coração não desacelerou.
A cada curva, parecia que eu tava indo mais fundo em alguma coisa da qual não tinha como sair.
Até que o carro entrou numa rua mais fechada, mais silenciosa, e parou na frente de um muro enorme.
Não era um muro normal.
Parecia uma fortaleza.
Alto, grosso, bem feito, com uma guarita na entrada e um portão pesado que dava a sensação de que nada entrava sem permissão.
O portão se abriu devagar.
O carro entrou.
E eu só fiquei olhando, sem entender mais nada.
Ele estacionou, desligou o carro e saiu.
Abriu a porta de trás e me encarou.
— Sai.
Eu não consegui responder. Só obedeci, com as pernas ainda bambas.
Ele pegou a menina do meu colo com cuidado, como se aquilo fosse natural pra ele, mesmo ela ainda dormindo. Aquilo me deu um aperto estranho no peito, porque ele parecia outra pessoa com ela.
Fez um gesto com a cabeça.
— Vem.
Eu acompanhei.
Minhas pernas ainda tremiam, mas eu fui andando atrás dele.
Entramos.
E a casa era grande demais.
Muito maior do que qualquer coisa que eu já tinha entrado na vida. Bonita, organizada, tudo no lugar. Parecia outro mundo dentro do morro.
Tinha duas mulheres ali dentro.
Quando uma delas viu a menina no colo dele, o rosto dela mudou na hora.
— Graças a Deus. — ela falou, aliviada, se aproximando. — Ela tá bem?
Ele só olhou pra elas, sério, sem muita expressão.
Depois virou pra mim.
— Zélia, Maria. — ele falou, apontando pra uma delas de cada vez.
As duas me olharam rápido, tentando entender quem eu era.
Ele voltou o olhar pra mim.
— Essa é? Como é teu nome, Garota?
— Helena.
Eu engoli seco.
Ele continuou, simples, direto, como se aquilo fosse óbvio.
— A babá da Luna a partir de hoje.
Eu fiquei parada.
O cérebro não processava.
— O quê? — foi a única coisa que saiu de mim.
Ele me encarou, sem paciência.
— Isso mesmo que tu ouviu.
Respirou fundo, impaciente.
— Quer que eu repita? É surda?
Eu não respondi.
Não tinha resposta.
Só um nó na garganta e o corpo inteiro ainda tremendo.
Minha vontade era correr.
Mas não tinha pra onde.
E nem como.