Helena

1069 Words
Helena Narrando Meu nome é Helena, tenho 17 anos e trabalho vendendo doces na rua. Brownie, brigadeiro gourmet, bolo de pote e também faço bolo por encomenda, daqueles bem caprichados, que o cliente olha e já imagina a mesa de festa montada. Pode não parecer muito pra quem vê de fora, mas foi isso aqui que me salvou. Minha vida nunca foi fácil. Mas também não vou mentir dizendo que passei fome ou coisa do tipo, porque não passei. Sempre teve comida em casa, simples, mas tinha. Eu moro em Santa Teresa, nasci e cresci aqui, no meio das ladeiras, dos becos e das casas antigas que contam histórias só de existir. Sou carioca, morena, tenho 1,60 de altura e cabelo cacheado que às vezes dá trabalho, mas eu amo mesmo assim. Meu pai sempre trabalhou como servente de pedreiro. Acorda cedo, volta tarde, com a roupa suja de cimento e o corpo cansado. Minha mãe vive de empregada doméstica, limpa casa dos outros desde que me entendo por gente. Nunca faltou esforço dentro de casa, isso eu reconheço. Somos quatro irmãos. Duas meninas e dois meninos. Eu não sou nem a mais velha, nem a mais nova, sou a terceira. Aquela que fica no meio, meio esquecida, meio jogada, meio se vira aí. E se tem uma coisa que me irrita até hoje é o tal do filho favorito. Meu irmão mais velho. Pra mim, ele não passa de um preguiçoso encostado. — Mãe, ele não vai procurar trabalho não? — eu já perguntei uma vez, segurando a língua pra não falar mais do que devia. — Para de implicar com seu irmão, Helena — ela respondeu, sem nem olhar na minha cara. Implicar. Eu quase ri. Enquanto eu me mato tentando fazer alguma coisa da vida, ele fica largado no sofá, mexendo no celular, vivendo às custas dos outros. Mas pra eles, ele é perfeito. Isso me revolta, mas também me empurrou pra frente. Eu terminei o ensino médio e fui atrás de trabalho. Já passei por dois lugares. O primeiro foi numa loja de sapato. Eu atendia cliente, organizava prateleira, limpava o chão se fosse preciso. Não era o melhor emprego do mundo, mas eu fazia direitinho. O segundo foi numa clínica odontológica. E ali foi humilhação atrás de humilhação. Eu ficava na frente, na calçada, entregando panfleto. — Aproveita a promoção! Limpeza com desconto! — eu falava, tentando sorrir. A maioria das pessoas nem olhava na minha cara. Outras pegavam o papel e jogavam fora logo depois. Mas teve um dia que passou do limite. Uma mulher veio andando apressada, toda arrumada, salto alto batendo forte no chão. Eu estendi o panfleto. — Boa tarde, senhora... Ela nem deixou eu terminar. — Sai da frente! — falou, me empurrando com força. Eu perdi o equilíbrio na hora. O papel caiu da minha mão. Meu coração disparou, não de susto, de vergonha. — Você tá atrapalhando a passagem — ela completou, como se eu fosse lixo. Naquele dia eu voltei pra casa engolindo o choro. E no dia seguinte, eu não voltei. Cansei. Cansei de depender dos outros, de aceitar qualquer coisa, de me sentir pequena. Foi aí que eu decidi tentar algo por conta própria. Fiz uns brownies. Nada demais. Receita simples, ingredientes básicos. Usei o que tinha em casa. Minha irmã tinha ganhado uma cesta de café da manhã do namorado, daquelas bonitas, com alça. Peguei a cesta. Forrei com um pano limpo, arrumei os brownies embalados direitinho e saí. Sem saber se ia vender um. Sem saber se alguém ia comprar. Mas fui. — Olha o brownie! Caseiro, fresquinho! — comecei a oferecer, meio sem jeito. A primeira venda eu nunca vou esquecer. — Quanto é, menina? — um senhor perguntou. — Três reais — respondi, com a voz baixa. — Me dá dois então. Naquele momento, parecia que eu tinha vendido o mundo inteiro. E vendi tudo. Tudo. Voltei pra casa com a cesta vazia e o coração cheio. No outro dia, fiz mais. Brownie e brigadeiro. E fui de novo. E vendi de novo. E assim, eu comecei. Hoje eu já tenho minha clientela. Tem gente que me espera nos mesmos pontos, gente que compra toda semana, gente que encomenda. — Helena, separa dez brigadeiros pra mim amanhã — uma cliente já falou. — Pode deixar, dona Marta. Amanhã Vai estar tudo prontinho. Também tem lugares que compram pra revender. Pequenos comércios, lanchonetes, gente que viu meu esforço e resolveu apostar. E os bolos, ah, os bolos. Já fiz muito bolo de festa. Cobro no quilo, capricho na decoração, faço tudo com cuidado. Cada bolo é uma conquista pra mim. Mas nem tudo foram flores. Teve uma fase que começou a dar prejuízo. Meus próprios irmãos. Eles comiam tudo. Sem pedir. Sem pensar. — Quem comeu os brigadeiros? — eu perguntava, já sabendo a resposta. Silêncio. Ou pior… — Ah, foi só um — falavam, como se não fosse nada. Só um. Um, dois, três quando eu via, metade da produção tinha sumido. Foi aí que eu tomei uma decisão difícil. Saí de casa. Não foi briga, não foi escândalo, foi necessidade. Hoje eu moro numa kitnet. Pequena, simples, mas é minha. Meu espaço. Meu sossego. Meu trabalho. Ali eu faço meus doces tranquila. Sem ninguém mexer, sem ninguém atrapalhar. Minha rotina não é fácil. De noite, eu produzo. Faço brigadeiro, brownie, organizo tudo. De manhã cedo, eu já tô de pé fazendo entrega. — Bom dia! Trouxe seu pedido — falo, com um sorriso. — Você é muito caprichosa, menina — já ouvi várias vezes. E isso me dá força. À tarde, eu encho minha cesta, coloco a mochila nas costas e saio. Rua, sol, cansaço, mas também liberdade. — Hoje tem brownie, brigadeiro gourmet e bolo de pote! — eu anuncio, andando pelas ruas que já conhecem meu nome. Tem dia bom. Tem dia fraco. Tem dia que eu volto cansada, com dor nas pernas, querendo só cair na cama. Mas eu olho ao redor. Pra minha kitnet. Pros meus ingredientes. Pra minha vida. E sei que fiz a escolha certa. Porque diferente de muita gente, eu não esperei oportunidade. Eu criei a minha. E mesmo sem saber o que o amanhã me reserva. Eu continuo. Vendendo doce. Vendendo esforço. Vendendo cada pedaço da minha história em forma de açúcar. Porque essa sou eu. E eu não desisto fácil.
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