Um plano começou a se formar em minha mente.

1088 Words
Sento-me na minha cama, jogando meu corpo para trás, como se o peso do passado pudesse ser aliviado com esse gesto simples. Mas não é tão fácil. Imagens tristes e intensas invadem minha mente, rasgando o véu de controle que tento manter. Quando Isabela me disse que estava grávida, não fazia ideia da profundidade de sua ligação com Zein. Era um mistério que me torturava silenciosamente. Então, como se o destino já não fosse c***l o suficiente, Zein morreu, e a árdua tarefa de contar a ela recaiu sobre mim. Engoli minha própria dor, sufocando emoções que ameaçavam escapar. Peguei o telefone e, com a voz mais firme que consegui, pedi que ela fosse ao hotel. Numa sala reservada, ao lado do saguão principal, esperei. O tempo parecia uma entidade c***l, arrastando-se enquanto meu coração martelava com angústia. Estava arrasado, nervoso, e uma tristeza sufocante pairava como uma névoa densa. Quando ela entrou no saguão, levantei-me imediatamente. Meu corpo se moveu com a determinação de quem carrega um fardo insuportável. Geralmente, a senhora Clark, a secretária do meu pai, tratava dessas convocações formais. Talvez, por isso, Isabela tenha imaginado que o motivo do encontro fosse sobre sua gravidez. Mas minha aparência destruída, as olheiras profundas e o cansaço estampado em cada linha do meu rosto, traíram qualquer tentativa de esconder a gravidade da situação. Ela percebeu. Isabela me olhou, aflita. Seus olhos eram como espelhos, refletindo preocupação, mas também incerteza. — Você está abatido. Aconteceu alguma coisa? Quando você me ligou, parecia urgente. Minhas mãos agiram quase por instinto. Peguei as dela, apertando-as de maneira possessiva, como se precisasse de algo concreto para me ancorar. Seus dedos delicados, mornos e frágeis, eram um contraste gritante com o turbilhão que me dominava. — Aqui não. Vem, vamos para a sala que reservei ao lado. Conduzi-a para a sala de conferências. O espaço amplo, com tapete vermelho e uma iluminação cálida, parecia estranhamente inadequado para o peso das palavras que eu precisava dizer. Indiquei o sofá para que ela se sentasse, e minhas pernas cederam ao lado dela, incapazes de sustentar o nervosismo que me consumia. Pisquei rapidamente, tentando afastar as lágrimas que ameaçavam escapar, enquanto meus olhos travaram nos dela, buscando coragem em meio ao caos interno. Meu coração parecia um tambor, ecoando no silêncio da sala. Cada batida lembrava-me do que precisava ser feito, da notícia devastadora que eu carregava. Limpei a garganta, minhas mãos ainda segurando as dela, sentindo sua inquietação crescente. — Por favor, acaba com a minha agonia! O que aconteceu? — sua voz tremia, carregada de desespero. — Houve uma tempestade. — As palavras saíram pesadas, quase sufocadas. — Não! — Ela choramingou, e seus olhos se encheram de um desespero tão profundo que quase me fez recuar. O pânico em sua expressão confirmou o que eu temia. Ela sabia. Os noticiários estavam saturados de informações sobre o acidente, mas os nomes dos passageiros ainda não haviam sido revelados. — Sim, o acidente do jato é o que Zein estava. A confusão tomou conta de seu rosto por um breve instante antes que a verdade se firmasse. Ela caiu de joelhos, as mãos cobrindo o rosto, e um soluço rasgou o ar, cortando-me como uma lâmina afiada. Sem pensar, ajoelhei-me à sua frente, compartilhando o peso daquela dor esmagadora. Sentia-me um vilão por não ter tido coragem de enfrentar meus próprios sentimentos antes. Se eu tivesse agido diferente, poderia ter evitado tudo isso? Isabela soluçava, sua dor inundando a sala. Ela agarrou minha camisa, como se precisasse de algo para se segurar, implorando silenciosamente que eu dissesse que era mentira. Mas eu permaneci calado, prisioneiro da verdade imutável. Eu via em seus olhos o amor que sentia por meu irmão. Sua dor era como uma ferida aberta, exposta diante de mim. Sentia-me esmagado por isso, lutando contra a vontade de gritar, de exigir que seu coração se libertasse desse amor que o prendia. A intensidade do momento me paralisou. Ela se agarrava a mim, suas lágrimas molhando minha camisa. Não pude evitar. Encostei minha testa na dela, fechando os olhos enquanto uma dor pungente esmagava meu coração. — Raed! — Ela chorou meu nome, e naquele instante, num impulso desesperado, fiz o que sempre quis, mas nunca tive coragem: abracei-a. Abracei-a com toda a força que possuía, beijei suas lágrimas, tentando oferecer consolo. Por um momento, ela se rendeu ao meu toque, mas logo endureceu, seu corpo ficando rígido. Ela se afastou, limpando as lágrimas rapidamente. Sua postura tornou-se altiva, os lábios firmemente pressionados, enquanto me olhava com olhos ainda vermelhos. Mas o pior ainda estava por vir. Eu precisava dizer que viajaríamos para os Emirados para o enterro de Zein. Meu coração pesava com o conhecimento das intenções de meu pai. Ele planejava aprisioná-la no palácio, manipulando-a com sua fala mansa. Ela seria convencida de que o melhor para ela e seu filho seria permanecer em nosso país. Ele usaria as leis contra ela, tiraria seu filho, se necessário. Um plano começou a se formar em minha mente. Deixaria meu pai acreditar que estava no controle. Eu seria o carrasco, a figura que ela odiaria, para então agir no momento certo. Ele nunca imaginaria que eu tomaria a decisão que mudaria tudo: casar-me com Isabela. Allah! As memórias de meu pai e seus jogos frios me invadiram, e sacudi a cabeça para afastá-las. Levantei-me da cama e peguei o telefone, discando rapidamente o número do meu secretário, um homem leal que trabalhava comigo há anos. — Salaam Aleikum. — Digo. — Alaikum As-Salaam. — Muhafa, cheguei mais cedo de viagem, mas parto hoje para a Itália. Quero que prepare um jato da frota real e abasteça-o. Avise Donatela que estarei lá em aproximadamente quatro horas. Quero discrição. Meu pai não deve saber meu itinerário. Cuide de apagar o relatório de voo. — Algo errado? — Ele perguntou, sua voz ansiosa. — Não, estou tirando férias e não quero ser perturbado. Você será meu único contato. Prepare-se para resistir à pressão de meu pai e diga que não sabe onde estou. — Sim, vossa alteza. Desliguei o telefone e fui até o closet, puxando uma mala grande. Comecei a enchê-la com roupas leves e esporte-fino. Uma excitação crescente tomou conta de mim, uma sensação de aventura e, acima de tudo, paixão. Pela primeira vez, não era o medo que guiava meus passos, mas algo muito mais poderoso. Uma coisa era certa: minha vida e meu coração nunca mais seriam os mesmos depois dessa viagem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD