Allah! O pensamento de que meu irmão a teve ainda me atormenta.

1081 Words
O jatinho, parte da frota real das Organizações Ibrahim, corta o céu com elegância enquanto decola. Isabela está sentada de frente para mim, com os olhos apertados em apreensão. Tento suavizar o ambiente, oferecendo um sorriso que espero transmitir confiança, mas ela mantém sua expressão indecifrável, quase desafiadora. Seu peito arfa levemente, mas suas palavras são silenciadas por uma barreira que parece intransponível. Sei que, apesar de estar grata por eu tê-la tirado das garras do meu pai, ela ainda sente a tensão de estar sob o meu domínio. Esse desapontamento nos olhos dela é como uma agulha constante na minha consciência. Preciso mudar isso. Ela precisa sentir que pode ser ela mesma ao meu lado, tão à vontade que até esqueça o peso de ser, em essência, minha cativa. — Quer comer algo? Beber algo? — Pergunto, acenando para o comissário de bordo. — Sim, estou com sede. Eu fungo levemente, a frustração escorrendo em minha voz. — Por que não me disse? Quero que se sinta à vontade comigo. Ela não responde. Seu silêncio ecoa mais alto que qualquer palavra. Volto-me para o comissário, um sinal para que ele proceda com o serviço. — Pode servir o café, sucos e tudo que tiver. Ele acena e desaparece na pequena cozinha do avião. Meus olhos, inevitavelmente, recaem sobre ela novamente. Isabela mantém o olhar fixo na janela, seu perfil iluminado pela luz que entra suavemente. Tento decifrar os pensamentos que ela parece esconder tão bem, mas tudo que encontro é a barreira fria de um passado que nos distancia. Franzo a testa. Esse ar de estranheza entre nós sempre esteve lá, como uma sombra persistente. Mas sei que, por trás dessa aparência controlada, há uma intensidade passional que ela tenta esconder. Não seria possível, de outra forma, que ela tivesse caído na sedução de Zein. Allah! O pensamento de que meu irmão a teve ainda me atormenta. Um nó se forma em minha garganta, e minha respiração fica pesada enquanto observo o vestido azul claro e branco que ela usa. A tonalidade destaca sua pele alva e faz seus cabelos ruivos parecerem ainda mais vibrantes. Seu pescoço longo, os traços delicados... Ela é deslumbrante, um verdadeiro enigma que me atrai e me frustra ao mesmo tempo. Quando o comissário retorna e distribui as bebidas e os pratos na mesa, solto meu cinto e me levanto. Ela finalmente me olha, seus olhos verdes me perfurando. — Vem, vamos comer alguma coisa? — Estendo minha mão em um gesto convidativo. Ela solta o cinto com hesitação e aceita minha mão por um breve momento antes de puxá-la de volta, como se o toque fosse um lembrete incômodo de sua vulnerabilidade. Sentamo-nos nas poltronas confortáveis de couro branco, o ambiente luxuoso contrastando com a tensão entre nós. Isabela Observo Raed, tentando decifrar aquela fachada controlada. Sentada tão perto dele, sinto um frio na barriga que não consigo explicar. Ele é o tipo de homem que sempre parece impenetrável, com emoções cuidadosamente escondidas. E, no entanto, aqui está ele, me encarando com uma intensidade que me deixa desconfortável. Nunca imaginei que ele olharia para mim desse jeito. Que Raed Ibrahim, o homem que sempre me pareceu distante e inatingível, estaria agora sentado comigo, contra a vontade do próprio pai. — E então, o que está achando dessa minha decisão de passarmos os dias na Itália? — Ele pergunta, sua voz ressoando como um desafio disfarçado. Eu pisco, surpresa pela pergunta. — Quer realmente saber? Ele limpa a boca com o guardanapo, suspirando como quem se prepara para um golpe. — Se perguntei, quero que seja sincera. Seus olhos se estreitam, fixando-se em mim com uma expressão impossível de ler. — Cativa de sua vontade. Aceitei tudo isso por não encontrar outra alternativa. Ele respira fundo, e sua frustração é evidente. — Minha companhia é tão desagradável assim? — Não, claro que não. Mas eu me sinto exausta, mentalmente e fisicamente. Não consigo relaxar. Vossa excelência há de convir que os eventos dos últimos dias colaboraram muito para isso. Ele solta o ar lentamente, como se tentasse manter o controle de si mesmo. — Sei que o momento não é bom. Você se sente ferida, magoada. — Aprisionada. — Minha voz sai firme, quase cortante. Seus olhos abaixam por um instante, e um nó se forma na minha garganta. Não quero pensar no motivo dessa reação, mas o desconforto é palpável. Ele ergue o olhar novamente, e o que vejo em seus olhos não é compaixão nem bondade. É uma determinação sólida e implacável. — Esse sentimento vai se perder aos poucos. Você só precisa relaxar e aceitar seu destino. Não digo nada. Para quê? Ele não vai ouvir. Desvio o olhar para a janela, onde vejo as nuvens abaixo de nós, uma paisagem que deveria ser pacífica, mas que só reforça minha sensação de isolamento. Sou invadida pelo remorso, uma onda avassaladora de culpa e dúvida. Entreguei-me ao homem errado. Mas eu o amava, não amava? Ou era apenas a necessidade de preencher a solidão que me consumia? Sempre fui tão séria sobre tudo... Antes que eu perceba, lágrimas começam a rolar pelo meu rosto. Elas caem como uma cascata, quentes e incontroláveis. Meu peito está sufocado, minha garganta arde com o esforço de contê-las. Passo as mãos pelo rosto, tentando enxugá-las, mas é inútil. — Isabela, olha para mim. Demoro alguns segundos para me recompor, lutando contra o caos dentro de mim. Quando finalmente ergo o olhar, nossos olhos se encontram. A intensidade em seus olhos castanhos me prende, e o momento parece se estender por uma eternidade. Respiro fundo, tentando parecer firme. — Estou bem. — Está bem? Você estava chorando. — Ele pergunta, a irritação evidente em sua voz. — Estou bem. — Repito, minha voz soando mais firme do que me sinto por dentro. Raed  Gostaria muito que esse muro de frieza entre nós ruísse. Essa barreira invisível, mas impenetrável, é uma agulha constante na minha consciência, um lembrete do quão distante ela ainda está de mim, mesmo aqui, tão perto. — Vem, vamos voltar aos nossos lugares. Minha voz soa firme, mas carrega um tom quase resignado. Levanto-me, e ela me segue com aquela postura impecável, cada movimento meticulosamente calculado para não revelar nada além do necessário. Quando nos sentamos novamente, um de frente para o outro, Isabela ajeita-se na poltrona com delicadeza e fecha os olhos, como se estivesse em busca de uma paz que não consigo oferecer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD