Raed
Respiro fundo e aceito o jornal que o comissário me oferece, tentando ocupar a mente. As palavras dançam na minha frente, mas nenhuma delas me prende. Viro uma página atrás da outra, até que uma matéria sobre a morte de Zein surge diante de mim.
Uma onda de desgosto me invade, e empurro o jornal para longe. As imagens de Zein, sempre sorridente, exibindo seus carros esportivos com aquele ar de invencibilidade, invadem minha mente sem permissão. A dor é aguda, não pela perda em si, mas por tudo que ficou entre nós — as palavras não ditas, as mágoas não resolvidas.
Eu e Zein nunca fomos unidos. Nossa relação era... conturbada, para dizer o mínimo. Desde crianças, havia uma tensão constante, como se estivéssemos em lados opostos de uma batalha invisível. Zein sempre se comportou como o centro do universo, e nosso pai, junto com minha madrasta, reforçava essa ideia a cada oportunidade.
Ele era o "bom filho" — a fachada perfeita de obediência e carisma. Mas eu conhecia a verdade por trás da máscara. Quando nossos pais viajavam, ele mostrava seu verdadeiro rosto, indo a festas secretas, vivendo como bem entendia, longe dos olhos severos do Sheik. Enquanto isso, eu era quem carregava o peso das expectativas, das regras, da imagem impecável que precisávamos manter.
Desde que meu pai se casou com minha madrasta, meu mundo começou a murchar. A indiferença dela era sufocante, uma presença silenciosa e constante. Ela sempre me tratou como uma inconveniência, uma pedra no sapato que não conseguia se livrar. E meu pai... ele não fez nada para mudar isso.
Ele tinha sua nova vida, seu novo amor, e eu era apenas um vestígio de uma união que nunca deveria ter existido. O casamento dele com minha mãe não foi fruto de amor, disso tenho certeza. Foi um arranjo, algo decidido por outros, sem espaço para sentimentos verdadeiros.
Minha mente retorna para o presente, e meus olhos recaem sobre Isabela.
Ela ainda está com os olhos fechados, mas sua expressão parece distante, quase dolorida. A luz suave que entra pela janela ilumina seu rosto, tornando-a ainda mais encantadora, e, por um momento, sou incapaz de desviar o olhar.
Um dia ela me amará?
Essa pergunta me consome, silenciosa e c***l. Será que estou apenas dando murro em ponta de faca? Alimentando uma esperança que pode nunca se concretizar?
Suspiro, afundando-me na poltrona enquanto o peso de tudo — meu passado, meu presente, e o futuro incerto ao lado dela — parece esmagar meus ombros.
Isabela
O percurso transcorre tranquilo, mas dentro de mim é uma tempestade. m*l-estar e infelicidade misturam-se em uma espiral que não me dá trégua. Meus olhos buscam Raed, como se instintivamente procurassem uma âncora. Ele está relaxado, ou pelo menos parece. De olhos fechados, mantém uma serenidade que me escapa completamente, mas sei que não está dormindo.
Desfaço o cinto com dedos trêmulos, e o som do mecanismo o desperta. Seus olhos profundos e atentos se voltam para mim instantaneamente.
— Você está pálida. O que foi?
Sua voz tem um tom grave, mas há um resquício de preocupação genuína que, apesar de tudo, aquece algo dentro de mim.
— Eu não estou passando bem.
Sem hesitar, ele retira o próprio cinto e se levanta, vindo ao meu encontro. Sua mão firme envolve minha cintura, um gesto tão natural para ele quanto devastador para mim. Um arrepio percorre minha pele, um reflexo que não consigo controlar.
— Venha!
Ele me conduz ao banheiro com passos decididos. O toque dele é firme, mas cuidadoso, e isso só aumenta minha inquietação. Quando finalmente entramos no pequeno espaço, sinto um alívio momentâneo.
— Graças a Allah! — murmuro enquanto a onda de náusea me consome.
Meus joelhos fraquejam, mas consigo me agachar diante do vaso sanitário. As mãos tremem enquanto me inclino, e a acidez amarga que sobe pela minha garganta queima, mas não tanto quanto a dor em meu coração.
Imprudência. É tudo o que consigo pensar.
Quando me ergo, encontro Raed parado na entrada do banheiro. Ele preenche o espaço completamente, sua presença é quase opressora. Alto, com ombros largos e a expressão séria que sempre parece carregar o peso de responsabilidades invisíveis, ele me observa.
— Posso ajudar? — Ele pergunta, a voz soando quase hesitante.
— Como? Vomitando por mim? — respondo, mais áspera do que pretendia.
O rosto dele se fecha. As sobrancelhas se unem, e a mandíbula se contrai ligeiramente. Ele não reage com raiva, mas sua postura torna-se rígida, como se meu comentário fosse uma afronta pessoal.
"Allah!" penso, exasperada comigo mesma. Meu humor está terrível, mas ele não merece isso.
— Perdoe-me.
Ele permanece em silêncio por alguns segundos, os olhos fixos no meu rosto. Há algo neles — talvez mágoa, talvez compreensão — que me deixa desconfortável.
— Então controle-se. Não sou seu inimigo.
— Eu não... sei. — Minha voz m*l passa de um sussurro.
— O tempo irá dizer. — Sua resposta é simples, mas carrega um peso que me faz duvidar ainda mais.
Lentamente, começo a me levantar. Raed se aproxima e me ajuda, suas mãos grandes e firmes sustentando-me com delicadeza. Quando retornamos aos nossos lugares, ele faz um gesto para o comissário, que prontamente traz um copo de água.
— Beba. — Ele diz com um tom que não admite recusa.
Tomo a água em pequenos goles, sentindo um alívio gradual. Apesar de tudo, Raed tem uma qualidade que admiro: ele é sensível ao que acontece ao seu redor. Percebe o que outros ignorariam, reage sem precisar de palavras.
Por mais que sua presença me iniba, não posso negar que ele tem um bom coração. E, por mais que isso me irrite, eu também sou grata. Ele sempre esteve disposto a ajudar, até mesmo em pequenas coisas como as traduções de termos técnicos no trabalho. Sempre que ele estava por perto, eu me sentia um pouco mais segura, mesmo que nunca admitisse isso em voz alta.
Preciso parar de pensar tanto. Preciso relaxar.
Olho para ele. Está com o celular nas mãos, checando mensagens. Mas então, como se pressentisse meu olhar, ele ergue os olhos e os conecta aos meus. Por um momento, é como se o tempo parasse. A intensidade de seu olhar me desarma.
Constrangida, desvio o rosto. Tento me concentrar em qualquer outra coisa, mas sua presença é como uma força gravitacional. Sempre foi assim.
— Está melhor? — ele pergunta, quebrando o silêncio.
— Sim, obrigada.
— Então descanse agora. Ainda temos uma hora de voo.
Assinto e fecho os olhos, tentando obedecer, mas minha mente se recusa a silenciar. O nervosismo cresce a cada vez que seus olhos pousam em mim. Não consigo evitar lembrar que, por trás daquele terno elegante e da fachada controlada, existe um homem do deserto — selvagem, determinado, inalcançável.
Respire. Apenas respire.