Ranjo os dentes, minha paciência sendo testada mais uma vez. Uma mistura de decepção e amargura toma conta de mim, mas me esforço para parecer indiferente.
— Não. E não quero saber. — Minto sem hesitar.
Ela não parece convencida, mas não insiste.
— Ele já sabe, né? Que vamos nos casar?
Minha mandíbula trava. As palavras dele com certeza foram mais que diretas, e eu sei que ele já fez seus próprios planos. Mas não posso deixar Isabela perceber isso.
— Sabe. — Admito. — E é por isso que precisamos seguir em frente, sem nos preocuparmos com o que ele pensa ou quer.
Ela observa meu rosto por um longo momento, como se tentasse entender o que está por trás das minhas palavras. Finalmente, assente levemente, e vejo uma faísca de confiança em seus olhos.
E nesse instante, faço um juramento silencioso: eu não vou falhar com ela.
Os olhos verdes de Isabela se fixam nos meus, um brilho relutante os tornando ainda mais hipnotizantes. Ela acena com a cabeça, um gesto simples, mas carregado de significado. Meu coração bate em um ritmo desenfreado, e eu luto contra o impulso quase irresistível de inclinar-me e beijá-la.
Preciso de controle. Preciso ir devagar. Sem impor, sem forçar, sem assustá-la. Este é o maior teste da minha paciência, um exercício de resistência que exige tudo de mim. Mas eu sei, no fundo, que valerá a pena. Não importa quanto tempo leve, eu não vou desistir desta vez.
Eu a quero. Cada pedaço de Isabela. Cada centímetro de sua pele, cada traço de sua existência. Quero memorizar suas sardas, contar cada uma como se fossem estrelas em um céu noturno só nosso. Quero descobrir todas as suas marcas de nascença, todos os segredos que seu corpo esconde e que só eu terei o privilégio de conhecer.
Mas não é apenas o corpo dela que desejo. Quero mais. Quero tudo. Quero ouvir seus gemidos abafados contra a minha boca, sentir seu coração trovejando contra o meu peito, mas não de medo. Quero que ela confie em mim, que me veja como seu refúgio, seu porto seguro.
E mais do que seu corpo, mais do que sua proximidade física, eu quero sua mente. Quero seus pensamentos, quero entender suas tempestades e me perder em suas calmarias. Quero seu coração, não pela metade, mas inteiro, entregue, vulnerável. Quero sua alma, seus sentimentos, tudo o que ela guarda atrás daquela barreira invisível que construiu para me manter afastado.
Chega de viver de lembranças. Chega de me contentar com o fantasma do seu sorriso brilhante, com a memória do jeito inocente como seus olhos pareciam iluminar qualquer lugar, ou com a forma interrogativa e encantadora como ela ergue as sobrancelhas quando está confusa ou surpresa.
Os sentimentos intensos que ela provoca em mim são ao mesmo tempo fascinantes e aterrorizantes. Por um tempo, eu permiti que o medo falasse mais alto. Dei ouvidos à razão fria e calculista, e agora estou pagando caro por isso. A distância entre nós, que antes parecia uma escolha, agora é uma tortura.
Isabella
De pé diante dele, sinto como se o chão pudesse sumir a qualquer momento. Raed sempre teve esse efeito sobre mim, uma mistura de inquietação e fascínio que nunca consigo ignorar. Seu semblante é uma máscara de frieza, mas seus olhos... ah, seus olhos, tão penetrantes, analisam cada detalhe do meu rosto, me deixando ainda mais nervosa. Sempre foi assim. Ele me olha como se pudesse decifrar cada pensamento que ouso esconder.
— Está certo. Eu vou levar roupas de meia-estação. A que horas saímos? — Minha voz soa mais firme do que me sinto, uma tentativa desesperada de parecer no controle.
Ele limpa a garganta, um gesto pequeno, mas que quebra o silêncio de forma quase ensurdecedora.
— No tempo que você levar para fazer as malas.
Fico imóvel por um segundo, absorvendo suas palavras. O quê? Tão rápido? É como se ele estivesse fugindo de algo, e minha mente corre para tentar desvendar o que poderia ser.
— Tudo isso é por causa do seu pai? Ou de Camily?
Minha pergunta paira no ar como uma nuvem carregada, e ele solta o ar lentamente. A fachada calma que ele tenta manter não me engana. Eu o conheço o suficiente para perceber que está tão nervoso quanto eu, talvez mais.
— Você faz muitas perguntas. — Sua voz carrega um tom de exasperação contida, mas ele tenta suavizar. — Eu já te expliquei o porquê lá na sala.
Lá na sala. O compromisso que agora nos une, forjado por circunstâncias que nunca planejei, ainda paira sobre mim como uma sombra. Estamos juntos, comprometidos por essa criança, mas a sensação de ferida aberta ainda pulsa em meu peito.
A verdade sobre Zein foi um golpe devastador. Ele não era o homem que pensei que fosse, e isso me fez questionar não apenas minha percepção dele, mas também o caráter dessa família de homens que parecem mestres na arte da manipulação.
Allah, é muita coisa para assimilar de uma vez.
— Tudo bem. — Resolvo não pressionar. Não agora. Estou cansada, emocionalmente e fisicamente.
Raed me dá um sorriso, jovial e encantador, mas algo escuro paira em seus olhos. Uma tristeza silenciosa que ele tenta esconder ao desviar o olhar rapidamente. Não sei dizer se é pela perda de Zein, por ter que abrir mão da mulher que um dia amou, ou pela constante resistência de seu pai contra o nosso casamento.
Talvez seja a somatória de tudo isso.
Enquanto ele se afasta, sinto o peso dessa nova realidade cair sobre mim novamente. Estamos ligados agora, não por amor, mas por um dever mútuo. E, mesmo que meu coração esteja confuso, uma parte de mim se pergunta se algum dia haverá mais entre nós. Se ele poderá ser mais que um enigma para mim e se eu conseguirei confiar em suas intenções.
De uma coisa tenho certeza: essa viagem pode mudar tudo. Ou revelar que nada entre nós tem chance de mudar.