Isabella precisa se acostumar à ideia de que serei seu futuro marido.

1612 Words
Raed Olho meu reflexo no espelho e solto um longo suspiro, tentando dissipar a tensão acumulada no meu peito. O dia lá fora está magnífico. O sol das oito horas cobre o mar da Ligúria com tons dourados, deixando um brilho suave nas águas calmas e cristalinas. Tudo parece tão sereno, tão perfeito — um contraste gritante com a tempestade que agita meu interior. Como será meu dia com Isabella hoje? Essa pergunta martela em minha mente enquanto ajeito minha postura diante do espelho. Ela continuará lutando, resistindo a tudo que tento oferecer? Ou, quem sabe, hoje seja o dia em que ela finalmente ceda, pelo menos um pouco, permitindo que eu me aproxime de verdade? A noite foi longa e inquieta. Rolei de um lado para o outro na cama, consumido por pensamentos. Em certo momento, considerei abrir meu coração, confessar meus sentimentos. Mas a ideia logo se dissipou. Revelar o que sinto agora seria um erro. Ela poderia interpretar tudo de forma equivocada — talvez pensasse que nunca a considerei boa o suficiente, que demorei a assumir o que sinto porque hesitei em aceitá-la por completo. Não quero que ela enxergue minha hesitação como dúvida sobre ela, mas é impossível prever como Isabella reagiria. Além disso, há a sombra do meu irmão. Ele queria apenas brincar com ela, usar seu charme superficial para se divertir sem se importar com os danos que deixava pelo caminho. Será que ela acredita quando digo isso? Ou minhas palavras apenas colidem com as memórias dela? Confessar meus sentimentos agora seria entrar em guerra com o que ela ainda pode sentir por ele. E, francamente, eu não sei se estou pronto para essa batalha. Não, preciso ser mais estratégico. Não é o momento para me precipitar. Isabella precisa se acostumar à ideia de que serei seu futuro marido. Ela precisa compreender que eu sou o homem que estará ao lado dela, que cuidará dela e dessa criança. Aos poucos, com paciência, eu sei que posso conquistá-la. Pelo menos, é nisso que eu me agarro enquanto tento não sucumbir à frustração. Afasto as cortinas e deslizo a porta de vidro, sentindo a brisa fresca da manhã acariciar meu rosto. Mas antes de ir até o parapeito, meus olhos são atraídos para a visão de Isabella. Lá está ela, na varanda ao lado, olhando para a paisagem. Seus cabelos dançam levemente com o vento, e sua silhueta parece tão serena à distância que me faz questionar se essa é a mesma mulher que tantas vezes me enfrenta com palavras afiadas. Ela já está acordada. Bem cedo, pelo visto. Solto o ar devagar, reunindo coragem para abordá-la. Caminho até a lateral da varanda, posicionando-me o mais próximo possível da sacada dela, de modo que minha voz possa alcançá-la sem esforço. — Vamos tomar café? — chamo em tom alto, tentando soar casual. — Pensei em visitarmos alguns pontos turísticos hoje. O que acha? Ela me lança um olhar rápido e acena com a cabeça em concordância antes de entrar de volta no quarto. Fico parado por um momento, observando o vazio deixado pela ausência dela. Respiro fundo, meus pensamentos rodopiando enquanto olho para o mar, como se as ondas pudessem trazer as respostas que busco. Hoje, quero fazer as coisas de maneira diferente. Não planejei o dia — algo raro para mim. Sempre fui metódico, repassando cada gesto, cada palavra. Mas com Isabella, talvez seja melhor abandonar o controle, deixar o dia nos levar. Conheço Verona como a palma da minha mão. Essa casa sempre foi meu refúgio nos momentos de maior estresse, um lugar onde eu podia respirar, pensar, reorganizar meu mundo. Por incrível que pareça, sempre estive aqui sozinho. No máximo, com um amigo. Nunca trouxe Camily. Nunca senti que ela pertencia a esse espaço, ou talvez ao espaço que eu ocupava como homem. Acho que, no fundo, sempre soube que ela não era a mulher certa para mim. Mas Isabella... ela é diferente. E talvez seja isso que mais me assuste. Isabella Allah! Eu pareço uma colegial nervosa. Nem acredito que, no fundo, me arrumei para ele. Meu reflexo no espelho confirma o que tento negar para mim mesma: o vestido cor de vinho, justo nas curvas certas, não foi uma escolha despretensiosa. Dou uma última checada no visual, ajeitando o tecido que molda minha silhueta. Raed sempre foi diferente dos outros homens da sua cultura. Ele não segue os costumes rígidos que seu pai, o sheik Youssef, considera sagrados. Já o vi bebendo socialmente, para o desgosto evidente do pai, e essa rebeldia velada dele nunca deixou de me intrigar. Quando vestidos como este, de cores vivas e cortes ousados, chegaram às minhas mãos, não me surpreendi tanto. Mas, ainda assim, não consigo evitar a curiosidade: quem os escolheu? Raed? Alguma outra mulher que já ocupou um lugar em sua vida? Por mais que eu tente me convencer do contrário, sei que tenho meus encantos. Não sou o tipo que atrai olhares por onde passa, mas meus atributos — os s***s firmes, o bumbum razoavelmente arredondado — são notáveis. Dou uma última olhada na maquiagem leve, no cabelo preso parcialmente, com algumas mechas soltas emoldurando o rosto, e calço minha rasteirinha preferida. Uma bolsa pequena de couro cru repousa no meu ombro, completando o visual. Estou pronta. Caminho em direção à sala, mas meu nervosismo não me deixa em paz. Não deveria ser assim, mas Raed sempre teve esse efeito sobre mim. Chego à entrada da sala e paro, ficando parcialmente escondida nas sombras. Ele está ali, sentado à vontade, conversando com Donatela. Não consigo evitar: meus ouvidos se aguçam para captar a conversa. — Sempre me perguntei por que você nunca se casou. — Donatela pergunta, a curiosidade evidente. — Trinta anos, para um árabe, é muita coisa. Ele ri, o som grave e natural, tão característico. — Verdade. Isso sempre foi um desgosto para o meu pai. Na nossa cultura, associam a demora ao pecado. Já o homem comprometido é visto como virtuoso, sério. — Da outra vez que você veio, estava quase noivo de Camily... Meu coração aperta ao ouvir aquele nome. Ele olha para os lados, como se procurasse alguma coisa, e eu me escondo ainda mais nas sombras, quase prendendo a respiração. — Por favor, não cite o nome dela aqui. — Sua voz soa firme, quase cortante. — Isabella é minha noiva agora e se sente insegura com isso. Insegura? Meu estômago revira. Será que ele realmente acredita nisso? — Insegura? Mas por quê? Você a escolheu, não escolheu? Ele ri de novo, mas há algo diferente no som dessa risada, um toque de desconforto talvez. — Você sabe como as mulheres são... — Pode deixar, não toco mais no nome de... — Donatela murmura algo, mas sua voz fica tão baixa que não consigo ouvir o nome claramente. — Vou terminar de arrumar a mesa. Espero alguns instantes, tomando coragem para sair do meu esconderijo. Respiro fundo e finalmente entro na sala. Raed ergue o rosto assim que me vê e, por um momento, o tempo parece parar. Seus olhos cor de mel brilham sob a luz suave, e suas pálpebras semicerradas indicam que ele está me analisando com atenção. No passado, só a presença dele era suficiente para me deixar sem ar. Cheguei a hiperventilar ao lado de Raed mais vezes do que gostaria de admitir. Nunca fui imune ao seu charme — sua postura confiante, o olhar intenso que parece atravessar qualquer fachada, o sorriso que ele raramente oferece, mas que quando surge é devastador. Mas, aos poucos, consegui construir barreiras para me proteger, para encará-lo com seriedade, mantendo as prioridades bem claras na minha mente. No entanto, com Zein, foi diferente. Ele tinha um jeito doce, um sorriso encantador, toques sutis que faziam meu coração disparar... Céus! Como fui cair tão fácil naquela armadilha? Volto ao presente quando Raed se levanta, seus olhos ainda presos aos meus. Ele deixa o olhar deslizar lentamente pelo meu corpo, e posso sentir o calor subir pelo meu rosto antes que ele finalmente diga, em um tom baixo e rouco: — Está linda. Allah! Esse é o Raed que me desestabiliza, o homem que faz meu coração vacilar. Tento manter a compostura e respondo com um sorriso leve: — Obrigada. Mas, por dentro, meu coração está correndo uma maratona. Ele se aproxima lentamente, mas com uma determinação que me deixa estática. Seus olhos, fixos nos meus, são como duas adagas afiadas, cortando qualquer barreira que tento erguer entre nós. É impossível não sentir o calor que emana de sua presença, ou não notar o que transparece no brilho intenso de seu olhar: desejo. Um desejo que me faz estremecer, mas também me alarma. Antes que eu consiga reagir, seus braços me envolvem, e todo o controle que lutei para manter escorre pelos meus dedos como areia. O toque dele é firme, quase possessivo, e o perfume que carrega parece uma extensão de sua própria força. É forte, másculo, mas, curiosamente, não me enjoa como tantos outros odores que me incomodam ultimamente. Isso, por si só, já é quase um milagre, considerando minha hipersensibilidade recente até a coisas simples como amaciantes de roupas. Seu olhar afiado continua cravado em mim, analisando cada detalhe como se pudesse decifrar meus pensamentos. Quando finalmente fala, sua voz é baixa, mas carregada de emoção, um tom que me atinge como um trovão: — Isabella. Vamos fazer desses dias que passaremos juntos momentos felizes. Não existe nada melhor do que viajar. Eu gosto muito daqui e quero que, ao seu lado, seja uma experiência nova. Espero que seja a melhor experiência da minha vida.
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