Houve um breve silêncio do outro lado antes de uma voz feminina dizer com hesitação:
— É... Camily... precisamos conversar.
Merda!
—Acabou Camily.
—Raed, como acabou? Até pouco tempo falávamos de nos casarmos. É isso que não entendo.
Fungo.
—Não entende? Seu pai estava me pressionando, isso sim. Você sabe disso, eu apenas estava aceitando o fato que nosso namoro estava delongando muito e sei que isso é contra nossos costumes.
—Então é isso, você não me ama mais?
Allah! Eu nunca disse a Camily que a amava. Creio que pelo fato de eu estar com ela, fez com que ela enxergasse assim.
—A verdade? Estávamos nos conhecendo, eu nunca expressei esse sentimento. Você sabe disso, nunca te iludi. Mas meus sentimentos não evoluíram a ponto de eu querer me casar, você sabe disso.
—Você conheceu alguém, é isso?
Praguejo entre dentes. Preciso falar com ela. Meu casamento será falado na mídia. Não posso mais adiar isso.
—Vamos fazer o seguinte. Marcar um encontro. Não quero ir a sua casa. Podemos nos encontrar no Marina Mall. Amanhã às duas horas da tarde. Eu te explicarei tudo.
Ela funga.
— Quem é ela?
—Amanhã conversamos.
Desligo.
Durante um tempo fico pensativo andando de um lado para o outro. Preciso contar a minha resolução ao meu pai que me casarei com Isabela antes de Camily. Não é justo ela saber antes que ele.
Allah! Amanhã terei um dia cheio!
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Meu pai me olha com aqueles olhos negros semicerrados, o olhar fixo e duro, o mesmo que ele usa para todos que ousavam desafiá-lo.
—Essa mulher que quer se casar nos traiu. Escondeu de todos que estava saindo com seu irmão. Abriu as pernas para ele antes do matrimônio. Ela é uma golpista, por isso ficou grávida. É com essa mulher que irá se casar?
—O senhor está enganado. —Digo com a respiração presa na garganta.
Todos os músculos de meu corpo queimam com fadiga.
—Por que você quer assumi-la?
Estremeço, não estou preparado para contar-lhe meus sentimentos.
—Não acho certo afastar o filho de uma mãe.
—Allah! Ela conseguiu o que queria. Sabe que eu fiquei receoso que isso acontecesse quando a quis levar para a sua casa? Mas eu estava tão aéreo com a morte de seu irmão que não consegui raciocinar direito, e juntando isso, eu não a queria vê-la na minha frente, mas agora vejo que errei. Ela, com aquele jeitinho de mulher virtuosa está enganando a todos.
—Pai, o senhor está enganado. Ela...
Meu pai avança sobre mim.
—Saia da minha frente. Eu não quero ver tua cara. Eu considero uma traição isso que está fazendo.
—Traição? É a minha vida.
—Seu desgraçado! Seu irmão está morto por causa dela.
—Meu irmão está morto por ser inconsequente.
Meu pai quase me acerta o queixo, eu me esquivo de seu ataque indo para trás. Ele fecha mais os punhos.
—Some daqui. Melhor você se esquecer por um tempo que é meu filho.
Odeio esse tom arrogante dele.
—Sim, pois o senhor já se esqueceu disso há muito tempo. Zein sempre foi o seu filho predileto.
Meu pai fricciona os dentes.
—Seu irmão me era submisso, diferente de você. Essa mulher o engodou. Eu vi os sorrisos que ela deu para ele na festa.
Eu dou um sorriso amargo.
—Essa é boa! Ela o engodou? Zein sempre fez tudo na surdina para não bater de frente com o senhor, isso sim. Mas no fundo, ele fazia o que queria.
Meu pai estremece de nervoso.
—Limpa sua boca para falar do seu irmão. Pare de acusar quem já se foi, ele está morto e não pode se defender.
—O senhor então deveria se preocupar com os vivos e não com os mortos.
Saio da presença dele, cabisbaixo. É sempre assim, ele nem me ouviu direito. Meu peito se aperta dentro de mim, esgotado.
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Horas depois Shopping Marina Mall
—Não acredito! Você...vai assumir a mulher de seu irmão!—Camily diz.
Eu a olho impassível.
—Exatamente.
—Você prefere se casar com uma estranha a se casar comigo?
Como abrir o que sinto? Até pra mim é difícil aceitar que eu estou realmente gostando de Isabela.
E por que eu diria para ela, para ela escarnecer? Achar que eu a traí? É mais fácil omitir meus sentimentos. Nenhuma mulher gosta de ser trocada.
—Não vou discutir isso com você. Meu irmão morreu e o filho que ela espera precisa de um pai. É isso.
—Allah! Você é patético. Será infeliz e a fará infeliz.
Ela falou com tanta convicção que meu coração dói.
—Na nossa cultura casamos por muito menos, então quem é você para julgar se serei feliz ou não? —Questiono, entredentes.
—Essa mulher deve ser uma v***a patética.
Eu me irrito e me levanto.
—v***a? Você nem a conhece para chamá-la desse nome e não use essa expressão para falar da mulher que será minha futura esposa! Sinto, Camily. Acabou. É por isso que estou aqui, e não para ouvir o que você tem a dizer sobre minha decisão. Não preciso de seus argumentos e nem de seus conselhos.
—Isso vai lá bancar o pai do filho de outro homem. —Ela escarnece.
Allah! Ela faz parecer pior do que é.
—Sim, o filho do meu irmão, portanto o meu sangue. Vou bancar o pai de uma criança inocente e que precisa de um lar estabilizado, precisa de sua mãe por perto.
Ela aperta os lábios. Sua respiração está agitada.
—Depois não diga que eu não o alertei.
—Estou devidamente alertado. Adeus.
Com passadas largas me dirijo ao elevador para pegar meu carro, então sinto um toque no meu ombro direito. Forço um sorriso para Burak. Um amigo da época de Universidade e que hoje trabalha para mim. Ele é engenheiro da Petrolífera Ibrahim, a empresa da minha família e que leva o meu sobrenome.
Somos unidos, muito mais do que eu fui com meu irmão.
—Salaam Aleikum.
— Alaikum As-Salaam. Pensei que fosse voltar só semana que vem de viagem, resolveu tudo lá?
Eu fungo.
—Era a minha intenção, inclusive deixei algumas ações que gostaria de ter tomado. Tive que voltar antes.
—Vamos tomar um café e você me conta tudo.
Concordo. Quem sabe me abrindo eu espaireço um pouco, mas meu celular toca e eu paro de andar. No visor, meu pai. Eu encaro Burak, e atendo.
—Alô.
—Avise a garota que vou abrir mão da criança. Ela pode nem ser de seu irmão. Entregue seu passaporte e vá para a Inglaterra, compre um apartamento confortável e dê um bom dinheiro que ela se manter até seu filho nascer e um pouco mais. Assim ela poderá se virar durante um tempo até conseguir um emprego. Ela é inteligente, sagaz.