Lembranças.

1062 Words
Eu ofego. — Pai, eu vou me casar com ela. Silêncio. Do outro lado da linha, ouço um xingamento abafado antes que meu pai interrompa a ligação sem sequer se despedir. Ele não precisava dizer nada; o peso da sua desaprovação já estava claro como o dia. Respiro fundo, tentando dissipar o aperto no peito, e ergo os olhos para Burak, que está me aguardando com sua expressão calma e inquisitiva. Ao meu redor, o burburinho do restaurante parece distante, como se houvesse uma barreira invisível me isolando do resto do mundo. As vozes misturam-se em um som indistinto, mas nada disso importa. Tudo o que consigo pensar é no peso da história que estou prestes a compartilhar, uma história que até agora guardei apenas para mim. Olho para Burak e, reunindo coragem, começo: — Tudo começou há quatro meses... Minha mente me transporta para aquele dia. O primeiro dia de trabalho de Isabela. Um almoço beneficente organizado pelo meu pai, repleto de figuras importantes. E lá estava ela, ao lado dele, desempenhando o papel de intérprete com uma elegância que parecia natural. Isabela Saladino. A jovem de cabelos vermelhos, uma cor vibrante que contrastava com a monotonia usual das pessoas ao redor do meu pai. Eu sabia quem ela era antes mesmo de sermos apresentados. Meu pai a havia mencionado brevemente, quase com desdém: "Uma garota independente, mas muito jovem para lidar com a vida sozinha". Ela usava um conjunto discreto, mas de um vermelho que capturou meu olhar — uma cor que meu pai jamais toleraria em minha mãe. Ele desprezava tons chamativos, dizia que atraíam atenção desnecessária. Mas Isabela não precisava de uma cor forte para chamar atenção. Havia algo nela que ia além do físico. Era a maneira como ela se movia, como se o mundo ao seu redor não pudesse tocá-la, como se carregasse uma força invisível que a mantinha ereta, mesmo entre gigantes. Meu pai me chamou e eu caminhei até eles, sabendo que não seria apresentado diretamente a ela. Ele não apresentava empregados, apenas os utilizava, como quem troca uma ferramenta desgastada por outra. — Filho, esse é Willian Reney. Ele cuidará da organização das festas daqui para frente. — Salaam Aleikum — cumprimentei educadamente, estendendo a mão para Willian. — Alaikum As-Salaam — respondeu ele, num sotaque quase perfeito. Troquei algumas palavras com Willian, mas era como se meu foco estivesse preso em outra direção. Meus olhos, teimosos, encontraram os dela. Os olhos verdes de Isabela pousaram brevemente nos meus. Havia algo em seu olhar — não era curiosidade nem provocação, mas uma serenidade que me desarmou. Quando ela sorriu de leve, senti algo se agitar dentro de mim. Mas logo ela desviou o olhar, retomando sua postura profissional, enquanto seguia meu pai em direção ao embaixador. Fiquei com Willian, que começou a me explicar suas estratégias para atrair mais atenção aos donativos com imagens impactantes. Fiz o possível para parecer atento, mas não podia evitar. Meu olhar encontrava-se repetidamente com a figura dela. Suas pernas, cobertas por uma meia-calça em tom levemente mais escuro que sua pele pálida, chamaram minha atenção de maneira perturbadora. Eu me repreendi mentalmente, afastando os pensamentos que começavam a se tornar... inadequados. Ainda assim, minha curiosidade continuava a crescer. Quando me afastei para pegar uma bebida, vi que ela estava sozinha. Meu pai conversava com Tarif Kalil, deixando Isabela momentaneamente desocupada. Ela se virou para a mesa de salgados, escolhendo um com cuidado antes de levá-lo à boca. De perfil, pude observar melhor seu rosto — o nariz arrebitado, os lábios macios, tão convidativos que precisei desviar o olhar para não me perder. Decidi me aproximar, sem sequer pensar nas consequências. — Salaam Aleikum. A surpresa dela foi evidente. Um rubor suave subiu por suas bochechas, mas ela recuperou a compostura rapidamente, respondendo com seriedade: — Alaikum As-Salaam. — Como aprendeu a falar tão bem a minha língua? — perguntei, genuinamente curioso. — Meus avós eram emiradenses. E meus pais fizeram questão de preservar parte da cultura e a língua. Seu tom era firme, mas havia algo delicado em sua resposta, como se ela carregasse um orgulho silencioso. Eu sorri, impressionado. — Sim, somos um povo que valoriza a sua cultura milenar, mas você não parece seguir à risca os costumes. Meu pai comentou que você mora sozinha. Ela arqueou levemente a sobrancelha, e por um breve instante, vi um lampejo de desagrado em seus olhos. — Eu assimilei as duas culturas. E não vejo nada de errado em morar sozinha. Havia firmeza em sua voz, mas não rudeza. Apenas a certeza de quem sabe o que quer. E naquele momento, percebi que minha curiosidade havia se transformado em algo mais. —De maneira nenhuma te recriminei, ou te julguei. Ela me lançou um olhar arisco, controlado, como se suas palavras estivessem guardadas atrás de um escudo. Não respondeu nada. Apenas acenou de leve, desviou o olhar na direção do meu pai e, com um pedido de licença educado, afastou-se. Fiquei parado por um momento, observando enquanto ela se juntava a ele. Meu pai a aguardava com a postura de sempre — rígida, superior. A segunda vez que a vi foi em uma reunião sobre biotecnologia, onde eu e meu pai participamos juntos. Isabela estava lá, novamente como intérprete. Lembro-me de cada detalhe daquele dia, principalmente do quanto me distrai ao observá-la. Enquanto ela traduzia termos técnicos com sua voz calma e precisa, não consegui evitar. Meus olhos insistiam em deslizar até sua boca, admirando a forma como ela articulava cada palavra. Seus gestos, ainda que sutis, revelavam dedicação e esforço. Quando ela arqueava as sobrancelhas em dúvida e lançava um olhar em minha direção para buscar confirmação, sentia algo indescritível crescer em mim. Nesse dia, percebi que a atração que começava a sentir por ela era acompanhada por outro sentimento — frustração. Ela não era o tipo de mulher com quem eu imaginava estar. Ela era inteligente, independente, e isso me intimidava profundamente. Quando a reunião terminou, ela veio me agradecer. Até hoje, lembro-me perfeitamente de suas palavras. — Eu não sei o que seria de mim sem você hoje. Havia termos técnicos que eu nunca tinha ouvido antes. Suas palavras pareciam inocentes, mas sua beleza tornava impossível não me sentir incomodado. Mudei de posição na cadeira, tentando mascarar o desconforto que suas simples palavras haviam despertado.
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