Respondi suavemente, mantendo a expressão impassível, escondendo o desejo que crescia dentro de mim:
— Quando houver reuniões técnicas como essa, eu participarei e te ajudarei na tradução. Na verdade, acho seu trabalho excelente. Você é centrada, traduz tudo com confiança e no tempo certo. Só de observar, me canso. Não teria paciência para fazer isso por ninguém.
Isabela sorriu para mim, e naquele instante o tempo pareceu congelar. Meu mundo parou. Mas ele voltou a girar rapidamente quando meu pai a chamou com rigidez na voz. Sua postura mudou, e ela se levantou apressada, tropeçando desajeitadamente no processo.
Ela caiu, o som abafado ecoando na sala. Meu impulso natural foi ir até ela e ajudá-la, mas algo me paralisou. Meus pés pareciam presos ao chão. Apenas a observei se levantar sozinha enquanto meu pai revirava os olhos, claramente irritado com o que considerava um deslize imperdoável.
Senti uma dor profunda ao ver o desprezo no rosto dele. Era um reflexo claro da frieza com que sempre tratava os outros, especialmente aqueles que ele julgava inferiores. Quando Isabela lançou um olhar rápido para mim, seu rosto estava vermelho, seja de constrangimento ou esforço.
Eu sorri, tentando transmitir apoio, mas nunca soube se ela interpretou meu gesto da maneira que eu esperava.
Depois daquele dia, comecei a fazer questão de participar de todas as reuniões técnicas em que ela estivesse presente. Viajava para a Inglaterra sempre que sabia que meu pai precisaria de sua assistência. E em cada uma dessas ocasiões, ajudava-a com os termos técnicos, mantendo uma fachada de profissionalismo.
Até Camily, minha amiga de longa data, questionou o motivo de tantas viagens. Eu respondia evasivamente, mas no fundo sabia que minha fixação por Isabela estava crescendo. No entanto, algo mudou entre nós. Com o passar do tempo, nos tornamos mais frios, mais profissionais. O abismo do profissionalismo cresceu entre nós como uma barreira invisível, e eu me agarrei a isso como um escudo.
Mesmo assim, a necessidade de tê-la em meus pensamentos nunca desapareceu. Passei a observá-la pelas redes sociais, cada foto e cada postagem, como um viciado buscando uma dose de algo que sabia ser nocivo.
Quando surgiu a oportunidade de uma viagem de negócios para Dubai, vi isso como uma tábua de salvação. Um mês longe. Um mês para tentar esquecê-la. Decidi: se ao final dessa viagem eu ainda não tivesse conseguido afastá-la dos meus pensamentos, enfrentaria meus sentimentos de frente, mesmo sabendo que isso significaria desavenças com meu pai.
Mas antes mesmo de partir, meu irmão me ligou. Ele estava na Inglaterra, passando as férias, e sua voz soava casual enquanto dizia algo que me fez congelar.
— Estou saindo com a assistente do pai.
Eu precisei que ele repetisse.
— Você está saindo com... Isabela?
Era impossível. Meu irmão, com seu jeito despretensioso e despreocupado, havia conseguido algo que eu nunca consegui, algo que eu sequer ousava tentar.
Orgulho ferido, enchi-o de conselhos. Falei sobre suas virtudes, enfatizei que ela era uma mulher para casar, e ao mesmo tempo omiti completamente o que sentia. Não disse uma palavra sobre como isso me consumia.
Fiz a viagem como planejado, mas durante todo o tempo, as perguntas me torturaram. Por que ele tinha tudo? Por que ele era o filho preferido do meu pai? Por que ele tinha uma mãe que o adorava? Por que ele tinha Isabela de um jeito que eu nunca tive?
A resposta sobre Isabela estava clara para mim: eu era o único culpado. Deixei que meus temores fossem maiores que meus sentimentos. Deixei que o medo de me envolver com uma mulher tão independente e inteligente me paralisasse. Mulheres como ela me assustavam. E isso, mais do que tudo, era o que eu não conseguia perdoar em mim mesmo.
Depois que soube de sua gravidez, fui tomado por uma avalanche de emoções: amargura, angústia, frustração, tristeza e uma dor quase física que não dava trégua. Mas, em meio a tudo isso, uma coisa era certa no meu coração: eu lutaria pelos direitos de Isabela. Estava pronto para enfrentar meu irmão, Zein, e exigir que ele assumisse sua responsabilidade. Sabia que isso significaria uma briga de proporções épicas, pois ele teria meu pai como aliado em qualquer decisão que tomasse.
Já conseguia prever o desenrolar dos eventos: Zein, com o apoio de meu pai, aceitaria assumir a criança, mas tudo não passaria de uma farsa. Eles convenceriam Isabela a viajar para nosso país com a promessa de casamento, apenas para meu pai encontrar uma forma de afastá-lo e confiná-la no palácio até o nascimento do bebê.
Nesse mesmo dia, angustiado e decidido, esperei meu pai no hotel. Antes que Zein chegasse, contei-lhe sobre a conversa que tive com Isabela. Relatei a gravidez, o modo como meu irmão a enganou mesmo depois de meus avisos, e apontei o caráter inquestionável dela.
Meu pai me olhou primeiro com incredulidade, depois com uma decepção que feriu mais do que qualquer palavra poderia. A raiva rapidamente tomou conta de seus olhos, mas, com sua habitual frieza diplomática, limitou-se a dizer que aguardaria Zein para conversar e encontrar uma solução.
Zein, no entanto, nunca chegou. A notícia de sua morte caiu como um raio, abalando todos nós.
Relato tudo isso para Burak, omitindo alguns sentimentos e impressões, até chegar à conversa que tive há pouco com meu pai ao telefone.
— Seu pai abrindo mão do neto? — Burak pergunta, com o semblante incrédulo.
— Neto? Pelo que percebi, ele nem o considera como tal. Para ele, isso é só mais uma peça em seu jogo de controle, uma tentativa desesperada de me impedir de seguir meu próprio caminho. Ele acha que isso me deterá. É tão típico dele... tão preso às tradições que Camily é a única escolha aceitável para mim.
— Ele está sendo muito duro com você.
— Sempre foi assim. Eu já esperava por isso. Meu pai foi moldado por uma criação rígida, onde meu avô era quase um tirano. Ele nunca aceitaria bem a ideia de eu me casar com Isabela. Mas abrir mão de um neto... isso me pegou de surpresa. É como se ele estivesse disposto a sacrificar qualquer laço de sangue para manter suas regras intactas.