Fui abrindo os olhos, de maneira bem devagar e sutil. A primeira coisa que observei ao acordar foram as gotas de água no vidro do quarto do apartamento de nível de classe média, num edifício perto da região central de Frankfurt. Aquilo era meio que o esperado, já que estávamos no período chuvoso do ano. Mossul, a antiga Nínive, cidade onde nasci, não era bem assim, poderia fazer sol o ano inteiro e chover poucos milímetros de água durante um período. Antes de me levantar da cama, me estiquei, olhei para Júlio, que estava dormindo do meu lado. Virei meu corpo um pouco para chegar mais perto dele, e em seguida, lhe dei um beijo. Minha shayla - um véu utilizado pelas muçulmanas, e pode ser de diversos tipos diferentes, desde os que deixam apenas os olhos para fora, até aqueles onde o rosto é visível - que ficava dentro do guarda-roupa, coloquei-o e depois segui em direção ao tapete de orações que ficava no canto do quarto e permanecia, como sempre, ajeitado para a posição de onde ficava a cidade de Meca. Ao chegar perto dele, ajoelhei-me e comecei minha oração o alvorecer. Eu aprendi que para Alá, o solo em que eu tocava durante o salá era sagrado, e que daquele jeito, eu permanecia fiel ao supremo do islã.
Ao levantar da oração, entrei no banheiro e tomei um banho. Eu estava me preparando para mais um dia na faculdade de direitos da Universidade de Frankfurt. Todo dia, ao acordar para poder ir estudar, me lembro dos meus pais que deixei na acabada cidade de Mossul, destruída por inúmeros bombardeios e ataques de grupos terroristas como o EI (Estado Islâmico). Meu pai sempre me dizia que eu era a menina dele, e que um dia eu teria um futuro brilhante, e é isso o que eu estou buscando agora. Papai nunca foi muito de estudo, estudou pouco e de forma limitada, devido à infraestrutura precária de educação no Iraque e pela política de trabalhar para sustentar. O coitado trabalhou a vida inteira, enquanto minha mãe cuidava dos filhos. Já estava na hora de alguém, alguém como eu, mudar esse padrão de família, e seguir os conselhos a respeito de uma vida de sucesso, tanto socialmente, quanto profissionalmente, e quanto espiritualmente.
Enquanto a água escorria pelas minhas costas no chuveiro, bateu uma grande dúvida, que de vez em quando bate em minha mente: o fato de meu pai, minha mãe e Ayun, Liv e Musam ainda estarem vivos. Eu havia visto alguns dias antes uma reportagem no Deucthswelle que o Iraque havia bombardeado Mossul para recuperar o território do EI. Aquele bombardeio poderia ter caído sobre qualquer casa, inclusive a dos meus pais e dos meus irmãos. Ao chegar na Alemanha, eu estava completamente perdida, tudo girava, e eu continuava parada, e demorou um pouco para me acostumar com o ritmo da cidade de Frankfurt. Júlio Sasha foi quem me trouxe "de volta à vida".
Sempre tento ter o máximo de bom humor, e naquele dia não foi diferente. Ao sair do banheiro, me enrolei na toalha e fui trocar de roupa no quarto. Júlio já estava acordado e com os olhos bem abertos, cheguei para ele e falei:
- Acordou dorminhoco?
Ele se sentou e colocou as mãos no rosto. Naquele dia, ele deveria dar sua aula de sociologia para estudantes do Ensino Médio, e ele não se contentava com isso, já que seu forte era alunos de faculdade, os da Universidade de Frankfurt e outras localizadas pela cidade. Seu forte era gente madura, inteligente, não vários garotos que só falam de p****s.
Naquele dia, eu deveria ir para o trabalho e ficar até tarde lá. Os advogados são pessoas exigentes, e mesmo que demos nosso melhor, eles sempre inventam algo para os auxiliares administrativos fazerem, e antes de sair de casa para a faculdade, deixei isso claro para Júlio e fechei a porta do apartamento.
Não gosto de carro. Aliás, odeio carro. Principalmente quando sou eu que estou dirigindo. Falta paciência para tudo: para diminuir gradativamente a velocidade, aumentar gradativamente a velocidade, parar em sinal vermelho, e essas baboseiras de trânsito, por esse motivo, prefiro o metrô que é rápido, prático, e não pega trânsito.
Frankfurt me conhece, e eu conheço Frankfurt. Falo alemão fluente, e conheço cada rua da cidade, mas algumas coisas ainda soam estranhas e meio anormais. Ao chegar na plataforma do metrô de Frankfurt e sentar num banco que se localizava não muito longe da linha, olhei para um casal de velhinhos também sentados no banco e falei:
- Guten morgen. (Bom dia.)
Os dois olharam para minha shayla, depois para o meu rosto, e fizeram uma clara expressão facial de desconfiança, em seguida se levantaram e não falaram nada. Aproveitei que havia mais espaço e tirei minha bolsa e coloquei-a sobre o banco. Retirei meu celular do bolso e vi que várias mensagens de Panz-Hölfman, meu chefe, haviam chegado.
Panz: Vem hoje
Eu: Sim, depois da faculdade.
E fechei o app de mensagens antes que ele começasse uma longa conversa sobre advocacia que eu não estava com a mínima vontade de prestar a atenção.
A maioria das cidades têm jovens arruaceiros, ou bagunceiros, rebeldes, drogados e coisas do gênero. Isso é inevitável, e Frankfurt é uma dessas cidades. Enquanto eu esperava o metrô, um jovem loiro, cabeludo, aparentemente com uns 17 anos veio em minha direção e sentou do meu lado. Ele usava uma touca grandes, suéter de lã maior do que seu tronco e seus braços, um par de sapatos de cano longo e fones de ouvidos que partiam de algum aparelho que se encontrava no bolso de sua calça apertada. Ele olhou para mim e falou:
- Nicht hier nicht blasen! (Não vai explodir aqui não!)
Depois ele riu sagazmente enquanto eu mostrava que não estava nem aí, como os arruaceiros que não estão ligando para o que acontece com pessoas da minha nacionalidade e do meu país. Depois o moleque (gente assim para mim é moleque) se levantou e foi embora, andando de um jeito desengonçado e supostamente descolado. O caso do casal de idosos e do jovem desrespeitoso são tipos de coisas que eu aprendi a lidar com um tempo. Frankfurt não é para todos. É para os fortes. Principalmente se você é um muçulmano refugiado de uma zona de guerra, ou simplesmente um muçulmano alemão.
***
Depois de um tempinho sentada ali, ouvi uma voz. Uma voz dizendo que o meu trem se aproximava da plataforma, e todos ali ouviram aquela voz que saía das saídas de som que ficavam no metrô. Quando a voz se repetiu, várias pessoas se levantaram e eu fui uma delas. O trem parou na plataforma e vários homens, mulheres, crianças, velhos, entraram também. Consegui pegar um lugar sentada.
A poucos minutos de antes descer na estação que eu deveria, uma senhora entrou no vagão de uma estação anterior a ante anterior a minha. Independentemente, do lugar, de costume, de crença, somos ensinados a ter educação e respeito, principalmente com os mais velhos, mesmo que eles não tenham conosco. Primeiro, assobiei para ela me ouvir, mas não ouviu. Então, a chamei.
- Dame... (Senhora...)
Mesmo assim, não ouviu. Então repeti.
- Dame... (Senhora...)
Então ela olhou para trás, depois olhou para os lados, até que olhou para mim. Estendi o braço e fiz uns movimentos com a mão direita como sinal para ela se aproximar, e se aproximou, de forma devagar, mas se aproximou.
- Lady... Setzen Sie sich bitte. (Senhora... Sente-se por favor.) - disse eu.
Ela retirou o cabelo que estava sobre a orelha, aproximou-a da minha boca e disse:
- Wie? (Como?)
Me aproximei mais ainda de seu órgão auditivo e falei:
- Ich sagte die Dame sitzt hier, bitte. (Falei para a senhora sentar aqui, por favor.)
Ela sorriu para mim e disse:
- Ah, ja. Danke. (Ah, sim. Obrigada.)
E me levantei, e ela sentou no banco ao invés de mim. Ao ficar em pé, tive a sensação de que alguém estava olhando para mim, e desconfiando de alguma coisa, foi então que olhei para a esquerda, e vi um homem olhando para minha shayla. Quando ele percebeu que eu prestei a atenção nele, o homem olhou para mim, depois voltou a olhar para frente. Coisas assim são inevitáveis para um muçulmano. Principalmente num país como a Alemanha, mas, me acostumei com um tempo e na minha opinião, aquilo não passava de uma ignorância humana que não levava a lugar nenhum.
- U-Bahnhof Miquel-/Adickesallee - disse a voz no auto falante do vagão.
Aquilo indicava que eu deveria descer na estação de Miquel-/Adickesallee, a mais próxima da Universidade de Frankfurt.
Ao subir as escadas do metrô que levavam à superfície, dei de frente com uma banca. Sempre quando passo em frente à uma banca, dou uma olhada rápida nos jornais expostos, e naquele dia não foi diferente. Ao olhar, dei de cara com uma notícia bem trágica e que me causou uma sensação de insegurança:
"JOVEM MUÇULMANO É AGREDIDO E ASSASSINADO NA CAPITAL, BERLIM."
Era a primeira notícia. Estava escrito bem em cima do jornal com letras maiúsculas bem grandes e em negrito. De uma maneira ou outra, esse tipo de coisa me faz pensar um pouco sobre a terra que eu estava vivendo.
***
Marcy, Zenercks, e Marks me esperavam em frente ao prédio principal da Universidade. Antes de chegar até eles, percebi que estavam lendo jornais. Eles sempre eram, provavelmente, os primeiros em Frankfurt a comprarem o jornal do dia.
- Viu o jornal? - disse Marks a mim com um tom de indignação na voz.
- Sim - disse eu ao me aproximar mais ainda deles.
- Isso aqui é um absurdo - disse Marcy.
- É sim - confirmou Zenercks.
- Por que logo um muçulmano? - Marks continuou falando - Me responda, Layla, por que logo um muçulmano.
- Não sei - respondi de forma sucinta.
- Isso é importante, Layla! - insistiu Marks.
- Eu sei - dei novamente uma resposta sucinta.
- Layla, você está me ouvindo? Você é muçulmana! - continuou Marks.
- Sou. Com muito orgulho.
Eles olharam para mim com expressão facial de descontentamento. Depois eles me ignoraram e começaram seus assuntos de esquerdismo político.
- Vamos começar uma revolução - disse Zian. - Os muçulmanos são pessoas como a gente.
- Com certeza. Se o governo alemão não faz nada por essa causa, nós faremos.
- Vamos fazer protestos. O governo tem que tomar vergonha. Vamos força-lo até ele nos ouvir.
Eu só fiquei ouvindo aquilo sem nenhuma reação, até que o assunto caiu em mim.
- Layla, você topa?
- Como?
- Isso mesmo. Topa? Você é muçulmana. Sabe o que eles passam diariamente.
- Eu não tenho nada a ver com isso - respondi e fui embora.
Apesar de sim, eu achar a violência contra muçulmanos ser um absurdo, é uma causa perdida, um luta contra um de uma potência mundial, e de um dos países mais poderosos e influentes do mundo. Marcy, Zenercks e Marks são totais apoiadores dos Black Blocks, que é um grupo de pessoas que é um movimento que se originou na Alemanha nos anos 80, onde o principal trabalho é utilizar a tática ação direta em protestos, ou seja, um confronto literal com o governo e com as autoridades. Além disso não resolver em nada contra a xenofobia, eu não queria ser presa por participar disso.
***
Depois que acabou a aula, dei uma passada em casa para almoçar. Logo depois eu iria para o trabalho num escritório de advocacia no centro financeiro de Frankfurt. O local ficava a alguns quilômetros da minha casa. Quando cheguei ao apartamento, dei de cara com Júlio dormindo no sofá. As aulas o estresse do dia a dia, e principalmente, os alunos do médio, deixavam-o cada vez mais cansado.
- Preguiçoso - falei acordando-o.
Ele abriu os olhos lentamente e sorriu para mim.
Fui para a cozinha, colocar um prato de comida para esquentar, enquanto Júlio falava da onda de ataques a muçulmanos que ocorriam na Alemanha. Assim como reagi com a notícia quando a ouvi na faculdade, reagi quando ouvi Júlio falando, de forma indiferente.
***
Às vezes, a própria rotina nos atrapalha ou quase nos mata. Minha rotina era pegar o metrô, da zona central de Frankfurt até a estação Miquel-/Adickesallee. Sempre foi assim. A boa infraestrutura e a tranquilidade de Frankfurt ajudaram-me a me sentir segura na cidade, segura para fazer qualquer coisa e pegar qualquer meio de transporte, esse o motivo de sair de Mossul para viver na Alemanha. Mas, naquele dia, Frankfurt me provou o contrário, e me deu um choque brutal de realidade, indicando que nenhum lugar é totalmente seguro e nem totalmente tolerante, mesmo sendo a cidade que me acolheu de forma conturbada.
22:07
O trem ainda não havia chegado na plataforma da estação. Ele havia se atrasado um pouco. Apesar de ser uma cidade pacífica, Frankfurt de noite é deserta, e como qualquer outro lugar, tem seus perigos a respeito de andar de noite. O trem parou na plataforma alguns minutos depois, e como uma pessoa normal que apenas queria ir para casa, entrei. Ao ver o vagão vazio, aquela sensação esquisita começou a aguçar. Me sentei num banco e fiquei ali. Peguei meu celular e olhei o horário. Estava bastante tarde, e como uma pessoa sensata, disquei o número de Júlio no celular para avisar que o horário havia "estourado" um pouquinho, mas, aquilo era um metrô. Estava sem sinal. Coloquei meu aparelho na bolsa e continuei sentindo o leve balançar do trem sobre os trilhos enquanto olhava para o nada. De repente, o trem parou, e entrou um homem dentro do vagão. Ele era alto, e usava capuz. Fiquei um pouco desconfortável com aquilo, mas eu tentava me acalmar e tentava achar que aquilo era pelo frio que estava fazendo naquela noite em Frankfurt e para proteger a cabeça da leve garoa que caía sobre a cidade nublada. Ele sentou-se bem ao meu lado, e disse:
- Gute nacht. (Boa noite.) - disse ele.
Aquilo me deixou mais tranquila, e eu respondi.
- Gute natch.
O auto-falante do metrô anunciou a próxima estação, e era a minha. Me levantei, ajeitei minha roupa e fui andando até a porta do vagão. Ao chegar nela, fiquei de frente para a saída para esperar o trem chegar na plataforma. Foi então que aconteceu. Senti uma pressão muito estranha no meu braço, parecia com a mão de alguém me segurando. Quando olhei para trás, era o homem que havia me dado boa noite.
- O que foi? - disse eu trêmula.
Ele continuava me encarando com aquele capuz e aquela expressão facial, causando uma sensação de intimidação. Depois, me jogou contra parede do vagão, e bati com o braço. Ele se aproximou, e eu tentei me afastar me rastejando, mas o homem me impediu de me locomover mais um pouco pisando na minha mão. Eu seguida começou a me dar vários socos e repetia:
- Povo de porcos imundos!
- Para, está doendo! - eu gritava - Por favor, para! - e ele ainda me espancava.
Depois, ele me deu uma cotovelada na nuca, de repente, ficou tudo preto. Eu ainda resistia e cheguei a abrir levemente os olhos. Na hora em que eu abri, vi Júlio ao meu lado, dormindo como um anjinho. E me lembrei de olhar a nebulosidade de Frankfurt pela janela, depois, voltei para a realidade, e vi uma parte da minha shayla caída no chão, e havia sangue nela. Movimentei levemente a cabeça, e com muita dificuldade e dor olhei para cima, e vi o homem retirando o cinto, depois o vi abaixando a calça, mas foi então que o trem parou em outra estação, as portas se abriram, e ouvi:
- Was machst du da? (O que você está fazendo aí?)
E então, levantou a calça, colocou o cinto rapidamente e correu. Era um velhinho. Ele entrou no vagão, olhou para mim, e disse:
- Mein Gott! (Meu Deus!).
Em seguida, falou:
- Ich werde dir helfen. (Eu te ajudarei.)
E fechei os olhos totalmente, e a única coisa que eu via era uma escuridão total.