2 - O HOSPITAL DE FRANKFURT, Júlio

1341 Words
Sou forte. Poucas coisas já me abalaram na vida, e quando eu digo poucas, realmente foram poucas. A história da minha vida é marcada por diversos momentos complicados, e pode acreditar, nem me abalou quando eu deixei meus pais no Brasil, porque eu estava vindo para a Alemanha destinado e sabendo o que eu ia encontrar, ou pelo menos quase. Acredito que o pior momento da minha vida foi quando o telefone tocou no dia 20 de março por volta das 22:50 da noite. Quando recebi a ligação que vinha do celular de Layla, fiquei desesperado para atender, quando eu atendi veio a surpresa: era uma voz masculina. Com certeza Layla não possuía uma voz masculina. Com a voz trêmula, falei que aquele era o celular de Layla Shabal, minha esposa, mas antes de qualquer coisa, a pessoa que estava do outro lado da linha, perguntou se eu era Júlio Mendonça Sasha, e falei que sim. Em seguida, perguntei quem era: - Aqui é o policial Ausen Nürberg. Comecei a ficar cada vez mais nervoso e gélido. Por que um policial ligaria para mim. - Layla Shabal é sua esposa? - perguntou. - Sim - respondi m*l me contendo de ansiedade pela notícia. - Venha para o hospital Universtätsklinikum Frankfurt. - Por que? - perguntei insistindo por uma resposta para o que estava havendo. - Sua esposa sofreu alguns machucados. - Como assim! - gritei pelo telefone. - Só isso que posso falar, senhor - e desligou. Tirei o telefone da orelha bem devagar com a cara um nerd que acabou de receber uma nota r**m na prova de matemática, depois abaixei o braço e continuei a parado com aquela expressão facial, e peguei minhas chaves na mesa de centro e corri até a porta. Bati-a e nem cheguei a fecha-la. Corri igual um doido pelo corredor do andar do prédio, e não esperei o elevador e corri pela escada mesmo. Fui até o estacionamento no desespero e peguei meu carro. Entrei no veículo e pisei no acelerador. Fui ultrapassando todos os carros que apareciam na minha frente e não diminuí a velocidade em momento nenhum. Passou um turbilhão de coisas pela minha cabeça, desde um pequeno tombo no vão entre o vagão do trem do metrô e a plataforma de embarque e desembarque, até uma tentativa de homicídio. Em momentos assim, coisas te atrapalham, e enquanto eu pensava nessas coisas, quase atropelei uma senhora que estava atravessando a estrada da ponte sobre o rio Meno. Cheguei no hospital, e foi só ali que diminuí a velocidade do meu carro. Entrei correndo na recepção. - Boa noite - disse a recepcionista. - Layla Shabal! Onde está Layla Shabal? - falei. - O senhor tem identificação? - disse a mulher. - Cadê Layla Shabal! - Pode deixa-lo entrar - disse um homem com a roupa da policia civil da cidade. - Tudo bem - falou a recepcionista. Fui até o policial, e antes de eu falar qualquer coisa, ele estendeu a mão para mim para que eu pudesse apertá-la como gesto de cumprimento. - Boa noite - disse ele. - Foi você que ligou para mim? - perguntei. - Sim. - Como você conseguiu o celular da Layla Shabal? - Me acompanhe por favor - disse ele, indo em direção a um corredor com um elevador em seu fim. - O que aconteceu? - eu não iria ficar quieto até ter uma resposta. O policial apertou o botão do elevador que era o de subir e enquanto esperava, falou: - Sua esposa passou por um momento complicado. - Que tipo de momento complicado?! - perguntei, levantando a voz. Ele respirou fundo, pensou um pouco e disse: - Ela foi encontrada caída num vagão de trem do metrô de Frankfurt, e estava com diversas marcas vermelhas e roxas, e sangue. - Que?! - me exaltei - Como?! Então o elevador chegou. - Um senhor que entrou no vagão que a viu e chamou a polícia. - Alguma evidência de a***o? - perguntei preocupado. - Não. Respirei aliviado. - Pegamos o celular do bolso dela para ver se havia alguém para quem podíamos ligar, e só encontramos você na lista de contatos - disse ele andando comigo pelo corredor do terceiro andar. - Sim. A família dela ainda está em Mossul, e nem sabemos se estão vivos. Eu sou a única fonte confiável e pessoa com quem ela mantém um contato extremamente próximo. - É aqui - disse ele parando em frente a uma porta. - Ela está aí? Ele respondeu com um simples gesto de "vá em frente", então pus a mão na maçaneta e abri a porta. Ela estava sobre a cama, com muitas marcas no rosto, e algumas bem feias. Fiquei em estado de choque. Me aproximei, segurei sua mão e continuei calado, parecendo não acreditar naquilo. O policial que estava no quarto percebeu o que estava acontecendo e disse: - Quer que eu o deixe sozinho? - Sim - confirmei. - Por favor. - Claro - e fechou a porta. Começou a entrar em mim um sentimento um pouco incomum. Fiquei furioso, com uma baita vontade de socar algo, ou quebrar alguma coisa. Beijei a mão de Layla, que também estava machucada, com hematomas vermelhos e roxos e chorei, mas não de tristeza, mas de fúria. *** Fiquei sentado nuns bancos que havia no corredor, do lado exterior do quarto. Um médico estava analisando alguns ferimentos e coisas do tipo. Tudo para poder dar o melhor diagnóstico possível sobre a saúde de Layla. - Júlio Sasha - disse o médico me acordando. A adrenalina havia passado, e não aguentei, a ponto de apagar no banco mesmo. - Me desculpe - disse eu me levantando e me ajeitando. - Tudo bem. - E então? - Vamos andando - disse o médico. Em seguida, deu o diagnóstico. - Ela perdeu muito sangue, e quando foi encontrada, estava inconsciente. Ela ainda não tem previsão de quando irá acordar, mas garantimos que em breve, ela estará melhor. - Muito obrigado, doutor - falei estendendo a mão. - Não tem de quê - respondeu. - Apenas faço meu trabalho. Depois ele deu as costas e foi embora. *** Eu estava no quarto, sem sair a qualquer momento do lado de Layla. A única coisa que eu fazia era olhar pela janela a cidade de Frankfurt mergulhada sob a escuridão da noite. Eu poderia até ligar para os meus pais para avisar sobre o que havia acontecido, mas eles não falavam comigo. Eu ligaria para minha irmã, mas ela não atendia o telefone. Estava tudo muito estranho. Meu pressentimento não era bom. *** No dia seguinte, ao acordar, a primeira coisa que fiz foi olhar para Layla. Ela permanecia respirando, permanecia com o coração batendo, e permanecia com os olhos fechados. Respirei fundo, me levantei da cadeira e saí do quarto. Eu estava com fome. Meu destino era a cantina do hospital. Ao passar pela recepção, que ficava de frente para a entrada, vi uma coisa diferente. Estranhei muito tudo aquilo. Os seguranças tentavam conter várias pessoas que tentavam entrar no hospital. Algumas delas seguravam pequenos caderninhos de anotações, outros seguravam microfones, e outros seguravam câmeras. Alguém famoso poderia estar dentro do hospital? Ou era apenas um relato sobre a infraestrutura excepcional dos serviços de saúde de Frankfurt? Continuei meu caminho em direção a cantina. *** Eu estava sentado numa cadeira bem ao lado da cama em que Layla permanecia deitada, e eu continuava olhando pela janela. Os carros de diversas emissoras alemãs continuavam estacionados bem em frente ao edifício do Universtätsklinikum Frankfurt. Em seguida, ouvi uma voz. - Júlio...? Conheci a voz. Me levantei da cadeira, e logo dei um abraço e um beijo na testa dela. - Layla! - disse eu quase chorando - Você acordou! Então, Layla começou a chorar. - Me bateu na nuca! - dizia ela - Me bateu na nuca! E continuava chorando, e eu ia abraçando-a cada vez mais. - Calma - eu falava. - Estou aqui agora. Calma...
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