Seu corpo se movia suavemente para fora da cama. Isso aconteceu logo nas primeiras horas de uma manhã chuvosa e nublada em Frankfurt. Ao levantar, colocou o roupão que estava pendurado no cabide dentro do guarda-roupa e logo em seguida colocou o shayla e se ajoelhou no tapete de orações que ficava no canto do quarto. Durante o salá, o solo que ela tocava permanecia-se sagrado, e isso foi uma coisa que aprendi e me acostumei com o tempo. Logo que levantou-se da sua oração do alvorecer, me deu um beijo na testa, saiu e entrou no banheiro. Eu, ainda semiacordado, demorei um pouco para perceber que ela estava começando a se arrumar para ir para a faculdade de direitos na Universidade de Frankfurt. Na parede do quarto, havia um quadro em mosaico de uma mesquita, e logo no chão havia um tapete de orações voltado para Meca, e já do outro lado, havia uma foto da estrela de Davi. Demorou uns 10 minutos até eu acordar totalmente, e quando fui levantar da cama, ela saiu do banheiro com uma toalha cobrindo o corpo, entrou no quarto novamente e falou me beijando:
- Acordou, dorminhoco?
Sentei-me na cama coloquei as mãos sobre o rosto e falei:
- Tenho que dar aula para os estudantes do médio hoje.
Ela olhou para mim colocando a roupa e disse:
- E qual o problema? Estudantes do médio são os melhores alunos.
Olhei para ela com um leve olhar de questionamento e estava claro em meu rosto que aquilo não era verdade. Layla era estagiária de uma escola técnica em Bagdá. Dava algumas aulas, era querida pela turma, nunca precisou gritar com algum aluno, ou muito menos mandar algum para a sala do diretor, diferente de mim, que já me estressei e diversas vezes já mandei alunos para a sala do diretor.
Me levantei da cama e fui até o banheiro para escovar os dentes e tomar um banho. Do lado de fora do cômodo, Layla falou:
- Amor, tenho que ficar até mais tarde hoje no escritório.
- Por que? - perguntei curioso
- Você sabe. Coisas de advogado. Eles são muito exigentes - respondeu.
- Ok - respondi.
Ela saiu dizendo:
- Te amo - e respondi com o mesmo.
A vida quase normal em Frankfurt dava para ser levada de um modo bom e agradável, fora o fato dos meus pais terem ficado meses de m*l comigo por eu ter me casado com Layla ao invés de Rebecca, que era uma judia que conseguiu conquistar meus pais. Não sabemos o destino, e eles não entenderam isso, mas temos a certeza de que Elohim e Alá compreendem. Todo dia ao levantar da cama, faço minha shahar e mesmo me casando com uma muçulmana, mantenho meus costumes judaicos como comemorar meu hanukkah, enquanto Layla mantém a prática de ir nas mesquitas quando é data festiva dos muçulmanos. É uma harmonia que sinto toda vez que acordo ao lado dela de manhã.
Tomei meu banho e coloquei um café bem brasileiro para passar e enquanto esperava, liguei a televisão e caiu no canal de notícias Deutchswelle.
- "Imigrante sírio é encontrado morto numa rua de Berlim com várias marcas de espancamento pelo corpo e facadas pelo corpo."
Que horror! Pensei comigo. Apesar de lidar com alguns assuntos polêmicos, nunca gostei de ver notícias tristes, mortes, sangues e coisas do tipo. Na minha opinião, era desnecessário mostrar aquilo em rede nacional, mas depois entendi o que estava acontecendo.
- "O homem estava andando a noite no centro de Berlim, e foi surpreendido por jovens que o agrediram e o esfaquearam até a morte. Tipos de crimes do tipo vem aumentando na Alemanha a cada vez que o número de refugiados de zonas de conflito cresce. Ainda não se entende a motivação do crime."
Eu estava com um papel que mostrava o programa de aulas para o ano dentro da minha pasta. Abri a pasta, peguei o papel, e vi o tema para a data daquele dia. O tema era a xenofobia.
***
- Do que falamos, quando falamos sobre a xenofobia? - disse eu explicando a matéria numa aula de sociologia para o 2º ano do ensino médio de uma escola pública de Frankfurt - A resposta pode estar em simples palavras: preconceito contra algum estrangeiro por um certo motivo. Talvez pela arrogância humana, ou pela nossa própria imbecilidade.
Foi então que Lizel Hanzvitz levantou a mão para poder fazer alguma pergunta que eu deveria estar pronto para responder.
- Professor... - disse Lizel.
- Fale-me - respondi com prontidão.
- Poderia me dar um exemplo de caso de xenofobia que aconteceu recentemente na Europa.
Olhei para ela e tentei dar a melhor resposta possível.
- Hoje mesmo no jornal, eu estava vendo a notícia de que um muçulmano, foi morto em Berlim, com marcas de facadas e espancamentos. Na minha opinião, foi um ato xenofóbico, apenas pelo fato de ele morrer, sendo muçulmano. Entendeu?
Ela olhou para mim. Parecia que não havia gostado muito da minha resposta, e abaixou o braço em seu lugar. Uma outra pessoa levantou a mão. Era Henzel Sniverfitz.
- Pode falar, Henzel - disse eu.
- O senhor acha que a xenofobia pode ter a ver com o fato de pessoas com etnias ou religiões completamente diferentes estarem vivendo no mesmo espaço?
- Sim - respondi logo.
Mas Henzel rebateu:
- Mas você é casado com uma muçulmana sunita, não é?
Fiquei um pouco em silêncio até confirmar:
- Sim, mas...
- E são religiões totalmente diferentes, certo?
- Correto... É que...
- E o que o senhor tem a dizer sobre isso?
Apenas olhei para ele e tentei formular uma resposta precisa.
- Bom, pessoas de etnias, ou religiões diferentes, algumas vezes se dão bem.
Mesmo assim ele retrucou.
- Mas não estou perguntando isso, estou perguntando no geral, pessoas de outras etnias ou religiões, o fato delas estarem vivendo no mesmo espaço, pode gerar a xenofobia?
- Pode sim.
- E se uma pessoa estiver invadindo o território de outra, e ela se prontificar em defende-lo da invasão a qualquer custo, o senhor acha que isso é o que?
Não entendi o que a pergunta tinha a ver com o assunto, mas sou professor, e respondi-o.
- No caso é uma forma de defesa.
Ele cruzou os braços, acostou-se na carteira e disse:
- Os imigrantes estão invadindo nosso país. Eles estão entrando de forma clandestina, e o senhor acha que estamos defendendo nossa nação ou simplesmente estamos impedindo algo maior?
Fiquei quieto. Era coerente o que ele dizia, então, agradeci pela opinião e continuei.
***
De um tempo pra cá, a pacífica e desenvolvida cidade de Frankfurt havia se tornado um núcleo de questionamento sobre os muçulmanos que se refugiaram na Alemanha devido as guerras no Oriente Médio. As opiniões diversas e controversas sobre os praticantes do islã que entram no país clandestinamente estavam por toda a parte. Uma semana atrás, algo explodiu dentro de uma lanchonete na região central da cidade e o culpado pelo acontecimento foi o muçulmano que estava comendo um hambúrguer na hora. O cara foi levado a julgamento e acabou sendo preso, um tempo depois, descobriram que era o gás do lugar que estava vazando. A desculpa do dono da lanchonete foi que eles nunca sentiram cheiro de gás, e a desculpa do juiz foi que o muçulmano foi preso porque ele era o principal suspeito, pelo fato de que ele andava de um jeito estranho, como alguém que tivesse levando algo por baixo da camisa, e por ser um muçulmano, esse "algo", na mente deles, provavelmente seria algo explosivo. Eu não estava com Layla quando ela chegou à Alemanha, mas eu sei que foi a que entrou no país ilegalmente junto com a multidão de refugiados que se deslocou para a Europa, fugindo da guerra. Todos olhavam com cara f**a para ela na rua, e por muito tempo, foi considerada como "intrusa". A real questão é que muita gente não conhece a verdadeira história. Garanto que Layla não é a primeira nem a última pessoa do Oriente Médio que já viveu mais de uma vez.
***
Quando aquele período de trabalho acabou, peguei meu carro e fui pra casa. Frankfurt continuava uma cidade de céu cinza e de ruas molhadas e escorregadias. Era uma típica chuva e clima de outono, temperatura 8 graus centígrados, precipitações de longa duração e abaixo dos 20 milímetros. Ao chegar perto de uma praça pública a umas 2 quadras da minha casa, tive que parar. Um carro de polícia estava estacionado no local e um tira estava orientando os carros. Abaixei o vídeo do meu veículo e chamei o homem.
- Boa tarde - disse eu na educação.
- Boa tarde senhor - respondeu o policial.
- O que está havendo?
- Estamos retirando as barracas de alguns estrangeiros que estão dormindo aqui.
Olhei para ele e perguntei:
- Estrangeiros?
- Sim.
- Sabe da onde são?
- Síria, Iraque, Palestina... De todas essas porcarias, mas fique tranquilo, que nós já já vamos retirá-los daqui e não irão causar mais desordem na bela cidade de Frankfurt.
Fiquei meio indignado, mas mesmo assim agradeci e o policial me orientou por onde eu deveria passar.
***
Em casa, eu estava vendo TV comendo alguma coisa, e estava ligado no Deutchswelle.
"A crise de refugiados na Europa causa transtorno em países como Grécia, Alemanha, França, Turquia, Espanha e Itália."
Depois mudei para o canal BBC.
"Cerca de dez pessoas morreram no Mar Mediterrâneo após o naufrágio de uma embarcação libanesa que ia em direção à costa da Sicília, Itália."
CNN.
"Vinte pessoas morrem em um bombardeiro a cidade de Mossul, Iraque."
E percebi que não dava mais para ver notícias. As repercussões a respeito de árabes ou muçulmanos estavam se alastrando em escala global. O mundo inteiro já sabia sobre a relação entre a guerra e os refugiados. Depois, uma das notícias que passou, falava sobre o número de refugiados do Oriente Médio que fugiram para a Europa em busca de uma vida melhor. Um desses, eu tinha certeza que era Layla.
Cochilei no sofá. O trabalho cansativo e estressante de professor requer muito esforço mental, paciência e voz, e tudo isso junto, cansa bastante. Mesmo cochilando, ouvi a porta se abrindo. Era alguém, disso eu tenho certeza, mas quem poderia ser? Alguém me cutucou, e abri os olhos.
- Júlio? Amor? Você cochilou?
Ouvir a voz dela quando está em casa é a melhor coisa do mundo.
- Preguiçoso.
Seu jeito sempre humorado e doce me descontraía e me deixava tranquilo depois qualquer dia estressante e cansativo de trabalho.
- Por que tu estás em casa?
- Não se lembra do que falei? Vou voltar para a faculdade. Vim aqui só para almoçar e pegar meu computador, que é nele onde está uma parte da apresentação e do trabalho.
Ela entrou no quarto e pegou o computador. E disse:
- Vou voltar tarde.
- Que horas? - perguntei.
- Umas 10 da noite, por aí.
Depois ela foi para a cozinha, pegou a comida que estava na geladeira e colocou no microondas. Fui até a cozinha, e lá estava ela, encostada na pia com os braços cruzados, esperando a comida terminar de esquentar.
- Por que você não espera no sofá?
- Se eu sentar no sofá, meu sangue esfria e não levanto mais.
Em seguida, olhou no relógio, saiu do lugar, sem esperar a comida terminar de esquentar, foi para o quarto, e ajoelhou em seu tapete de orações, e ali, praticou o seu salá do meio-dia.
O microondas apitou e ela pegou o alimento. Foi para a mesa e sentou-se.
- Querida - falei.
- Oi, amor.
- Está uma onda de ataques a muçulmanos na Alemanha.
- Algum caso em Frankfurt?
- Pelo que eu saiba não.
- Quem bom. Eu amo minha Frankfurt - disse ela levando comida à boca.
- Mas você é de Mossul - respondi questionando.
- Só por isso não posso tratar Frankfurt como minha cidade?
Olhei para ela e respondi:
- Faça o que quiseres.
Ela deu aquele sorriso delicado de sempre e disse:
- Que bom.
Quando ela já estava colocando seus calçados para sair de novo, dei uma opinião:
- Vai de carro.
Ela retrucou com uma ideia totalmente diferente.
- Vou de metrô.
- Vai de carro - insisti.
- Vou de metrô.
- Por que?
- De metrô é muito mais rápido e não preciso parar em semáforos ou pegar trânsito.
- Tem certeza?
- Sim.
- Faça o que quiseres.
- Que bom.
E beijei-a. Ela saiu de casa e no final do corredor do andar, ela mexeu seus dedos como sinal de tchau e entrou no elevador.
22:01
Ela não havia chegado no horário. Talvez estivesse se atrasado um pouquinho.
22:11
Talvez o metrô tivesse atrasado.
22:21
Talvez houve uma pane elétrica no sistema do metropolitano. Eu ligava para ela e ninguém atendia. Talvez estava sem sinal. Talvez tivesse perdido o celular. Talvez tivesse acabado a bateria.
22:31
Liguei para minha irmã, mas ela também não atendia. Pensei que ela pudesse ter ido a casa da minha irmã que também mora em Frankfurt, mas no subúrbio. Layla e ela são muito amigas. Mulheres costumam fazer isso.
22:41
Peguei as chaves do carro e fui até a casa da minha irmã. Toquei a campainha, mas ninguém atendia, mas mesmo assim, eu via as luzes de alguns cômodos acesas. Sra. Delszeller, uma vizinha dela, passou por mim. Estava voltando da praça que havia de frente à casa.
- Boa noite, Sra. Delszeller.
- Boa noite Júlio - disse com aquela vozinha debilitado de idosa.
E perguntei:
- A senhora sabe se minha irmã está aí?
- Eu não a vi saindo.
- Tudo bem.
Depois ela foi embora. Desisti. Peguei as chaves do meu carro, dei meia volta e fui para casa.
22:51
Ao chegar em casa, havia 10 chamadas perdidas da Layla. Desesperadamente retornei a ligação.
- Alô - era uma voz masculina.
- Esse é o celular de Layla Shabal! - respondi com a voz trêmula.
- Sim. O senhor é Júlio Mendonça Sasha?
- Sou eu. Quem fala?