"Nunca perca a esperança"... Essa é uma frase que você não ouve apenas em Mossul ou em Frankfurt. É uma frase que você houve no mundo inteiro, e que é dita por pessoas. Nada mais além de pessoas. Pessoas que te apoiam, que pessoas que enxergam seu momento árduo e mesmo assim estão ali para poder dar uma ajuda. Durante minha vida toda, precisei dessa frase. Ao sair de Mossul, ao deixar minha vida para trás, ao enfrentar as autoridades para poder ter residência em Frankfurt, e naquele momento, eu precisava ouvi-la mais do que nunca. Um tempo depois da minha visão ter ficado totalmente escura no metrô de Frankfurt, comecei a abrir os olhos pela primeira vez depois do ocorrido.
- Júlio...? - foram minhas primeiras palavras nos primeiros segundos vendo a realidade novamente.
Júlio correu da cadeira onde estava sentado, perto da janela, e foi em direção a mim, e me abraçou, depois me deu um beijo na testa, enquanto desabei.
- Me bateu na nuca!
Enquanto eu chorava, e não parava de me lembrar grande p*****a que levei na nuca, Júlio tentava me acalmar.
***
Alguns minutos depois, um médico foi me analisar. Com uma prancheta numa mão, e uma caneta em outra, ele fazia várias perguntas tipo: local de nascimento, data de nascimento, idade, nome do esposo, nome do pai... Todas eu respondia corretamente, o que comprovava que nada da minha mente foi afetada, ou talvez ele achava que não. Os seres humanos são criaturas incrivelmente complexas, e há um lugar, um lugar bem profundo e escondido que se chama subconsciente, e nele, ficam armazenadas algumas "coisas" que marcaram nossas frágeis vidas. Muitas dessas "coisas" nós queremos retirar de lá e jogar em outro lugar, um chamado esquecimento, mas o tal subconsciente é um poço muito profundo, e pra chegar até lá é um esforço, e talvez nem cheguemos. Por isso, as "coisas" ficam ali, e como elas não saem por conta própria, elas ficarão paradas ali, como seres inanimados que servem apenas para atrapalhar nossas vidas. A agressão dentro do metrô não foi jogada no meu subconsciente, ela foi colocada, e enfiada nele.
Depois que o médico terminou o "interrogatório", ele conversou com Júlio sobre o fato de eu ter sofrido alguns hematomas, mas que nada afetou minha forma de pensar, lembranças e coisas do tipo. Depois que ele saiu, vi o sorriso estampado no rosto de Júlio, que olhava para mim. Eu queria ter sorrido de volta, mas pela primeira vez na vida não quiz fazer tal coisa. Ele perguntou como eu estava me sentindo, e em apenas uma palavra curta e clara respondi:
- Bem.
Um silêncio esquisito tomou o quarto, até que falei:
- Júlio, me leve para o banho.
Ele não pensou duas vezes e me ajudou a levantar da cama. Eu estava muito dolorida, e não conseguia andar direito. Ele me colocou no banheiro. Retirei a shayla e a roupa e entrei no box. Ele ligou o chuveiro para mim e a água quente caiu sobre meu corpo. Tive uma sensação de que eu já havia sentido aquilo em algum lugar. Virei meu rosto para a direção em que a água caía, deixei ela molhar meu rosto, em seguida o pescoço e depois o resto. Era uma sensação familiar.
- Quero ficar sozinha - disse eu.
Ele me olhou com uma expressão facial de confuso, mas não hesitou em me obedecer e saiu do banheiro fechando a porta. Depois encostei as costas na parede e deslizei-a até que eu ficasse sentada no chão molhado. A água caía sobre minha barriga e ia direto para o chão. Não passava pelo meu corpo primeiro, mas caía direto no chão. Em seguida, dobrei meus joelhos, me encolhi, coloquei a cabeça encostada na cocha e deixei a água cair em meu pescoço. Aquela sensação... Me trouxe um flashback, daqueles deprimentes é que ninguém quer ter, nem mesmo eu.
***
- Filha, desce por favor.
Fechei meu livro e coloquei-o de volta na instante. Já ia fazer mais ou menos uma semana que eu lia Les Miserables de Vítor Hugo. Talvez se naquela semana eu não estivesse tão atarefada, eu terminaria o livro em pelo menos um dia. Garotas da minha idade não queriam saber de Vitor Hugo, mas eu sim. Me levantei da cama em que eu lia o livro deitada, e coloquei os pés descalços no chão gelado e desci até o primeiro andar da nossa casa.
- Oi, mãe - disse eu ao chegar perto dela enquanto o cheiro do jantar que fazia exalava pela casa.
- Vai tomar um banho e se vestir que nós vamos receber visita - disse ela concentrada no fogão.
- Quem vai vir?
- Apenas vá tomar um banho e colocar uma roupa descente.
- Tudo bem.
Fui direto para o banheiro que ficava logo no fim do corredor principal da casa. Entrei nele e fechei a porta e comecei a retirar a roupa para entrar no box. Antes de girar o registro do chuveiro, ouvi uma pequena discussão. Uma pequena briguinha de casal. Por pura curiosidade, colei a orelha a porta.
- Não faz isso. Não precisa fazer - minha mãe dizia.
- Mas eu tenho que fazer e vou fazer! Ele é meu irmão! - meu pai dizia.
A visita seria provavelmente do meu tio, o Jafar al-Massaf Shabal. Por algum motivo que eu desconhecia, convivência entre meu pai e o tio Jafar não era uma das melhores. Deixei isso pra lá e fui tomar meu banho, então girei o registro. Apesar de ser raro fazer frio em Mossul, naquele dia estava inegavelmente frio, por isso o chuveiro estava no quente. E senti aquela água caindo sobre mim. Levantei minha cabeça e deixei a água cair sobre meu rosto, depois para o pescoço e em seguida para todo resto, e sorri aproveitando aquilo.
***
- Vamos falar de negócios... - disse o tio Jafar.
- Sou todo ouvidos - disse meu pai bebendo mais uma taça de suco.
- Como vai a petrolífera, Hafar?
- Na verdade tive prejuízo de alguns dólares, porque o preço do barril caiu, mas está tudo certo. E a sua?
- Consegui driblar a queda do preço do barril, e consegui um considerável lucro.
Meu pai, aparentemente desapontado, cutucou a comida mais uma vez e comeu.
- E a esposa, e a filha? - perguntou o tio Hafar.
- Bem. Layla está um pouco teimosa, mas é da idade - depois que falou isso, olhou para mim e estampou aquele sorriso brincalhão dele.
Sorri de volta. Minha mãe havia ido na cozinha fazer algumas coisas.
- E lá na sua casa? - continuou meu pai.
- Lá em casa vai tudo nos trilhos. A ordem está presente lá em casa. Talvez sua filha esteja teimosa porque você não tem pulso com sua família.
Ele parou de comer, olhou fixamente para o tio Hafar e disse:
- Como assim?
- É o seguinte, Jafar, talvez sua filha esteja teimosa por sua causa.
- O que você quer dizer?
- Quero dizer que lá em casa, eu tenho pulso, e aqui você não tem. Por isso sua filha esteja teimosa!
- Escuta aqui - disse meu pai apontando o dedo indicador para ele -, você, Hafar, não venha bancar o de "paisão" e "chefão" aqui, pelo menos eu não uso de ameaça e tirania com minha família.
E tia Kaisa é prima Kesia estavam no canto caladas.
- Você poderia até falar sobre sua família, se conseguisse manter o controle dentro de sua própria casa.
- Eu mantenho controle na minha casa - disse meu pai bem alterado, enquanto tio Hafar estava bem sereno.
- Se fosse verdade, sua filha não se vestiria como uma p********a que não crê na palavra de Alá.
Coloquei a mão sobre minha boca aberta de indignação.
- Como?! - disse meu pai dando um soco forte e bem no nariz dele.
Quando o tio Hafar caiu no chão, meu pai foi para cima dele e começou a puxar sua roupa pela gola dizendo:
- Retire o que disse! Retire o que disse! E não coloque o nome de Alá no meio!
Minha mãe levou um susto e saiu da cozinha o mais rápido possível para a ver o que estava acontecendo. Ao chegar na sala de jantar, tia Kaissa e prima Kesia já tentavam separar a briga.
- Alá vai levar tudo que é seu por isso! Você vai pagar aqui na terra! - dizia o tio Hafar enquanto seu nariz escorria de tanto sangue.
- Parem agora! - gritou minha mãe.
Meu pai parou, e pela sua expressão facial, ele provavelmente percebeu a mancada que cometeu, e então, deixou tio Hafar se levantar. Quando ele se levantou, continuou afrontando.
- Viram! Seu louco! Seu louco!
- Sai daqui - disse meu pai com voz baixa, mas para não explodir.
- Eu vou, mas eu... - disse o tio Hafar.
- Sai! - gritou meu pai - Não é nada com vocês Kaissa e Kesia.
- Não acreditem nele - disse meu tio.
- Sai! Agora! - meu pai gritou novamente.
Depois disso ele falou para a esposa e filha saírem, mas antes de ele sair, se aproximou do meu pai e deu dois tapas em seu ombro esquerdo. Ele ficou muito m*l depois disso, o pai que sempre era sorridente e brincalhão, ficou deprimido e pensando que seria mandado para o Lago de Fogo por ter batido em seu irmão. Naquela mesma noite, quando era de madrugada, minha mãe dormia no quarto, mas eu, não conseguia dormir. Saí do meu quarto e desci as escadas para poder chegar até a cozinha, no desejo de beber um copo d'água, mas, no caminho para a cozinha, meu pai estava sentado num sofá na sala, chorando feito um garoto que acabou de apanhar de sua mãe.
- Pai - coloquei minha mão sobre a dele.
- Vai dormir, Layla. Está tarde - disse ele enxugando as lágrimas.
- Vem cá.
Dei um abraço apertado nele, e ele me abraçou de volta. A tristeza começou a se dissipar ali, porque aquele simples e sincero abraço deu ânimo a ele, e fez-o perceber que ele tinha uma filha, uma esposa, e um Deus que o amava.
- Você é uma menina forte Layla - disse ele. - Tão forte, que conseguiu me consolar.
Depois voltei para o presente, eu estava ali, com a água caindo sobre meu pescoço, e aquele momento me trouxe à tona uma lembrança que estava no meu subconsciente, uma história que estava no poço sem fundo. No dia em que ele falou que eu era forte, veio o ânimo de continuar seguindo a vida, mas hoje, veio o contrapeso: será que sou mesmo forte?E continua: Porque se eu fosse, não estaria nessa situação psicológica e em posição fetal pensando no passado que eu considerava feliz?
- Layla - era a voz do Júlio do lado de fora do banheiro, ele batia na porta -, vai sair, amor?
***
Depois que saí do banheiro, coloquei uma roupa. Júlio estava utilizando palavras muito bem trabalhadas e um bom eufemismo. Parecia até que queria me informar sobre uma tragédia como morte de alguém.
Ele me explicou tudo, e com toda certeza, como jornalistas gostam de um bom furo de reportagem, eles não iriam deixar minha história passar batida. Seria estupidez, tolice e falta de intelecto pensar que seria o oposto. Apesar do médico ter pronunciado alto e claro "Está tudo bem", eu sabia que algo não estava bem. Alguma coisa martelava em minha cabeça e dizia que nada estava bem, eu não fazia a menor ideia do que podia ser. Depois do Júlio ter conversado comigo, pedi para dormir um pouco, e ele me obedeceu. Ele percebeu que eu estava fragilizada em todos os sentidos depois do ocorrido, então ele aparentemente tomava o maior cuidado, até no que falava, porque ele sabia que estava sendo um momento muito, mas muito delicado.
Fechei os olhos.
***
Estou andando no metrô de Frankfurt.
Estou voltando do trabalho.
Acordei assustada. Dei uma olhada para Júlio que estava vendo TV, olhei para a porta do quarto, e voltei a dormir.
Estou andando no metrô de Frankfurt.
Estou voltando do trabalho.
Encontro uma pessoa.
E a cumprimento.
Eu me levanto para sair do vagão.
Ele me pega meu braço.
E parte violentamente para cima de mim.
Acordo assustada. Dessa vez acordo chorando. Coloco a mão no peito e desabo de tanto chorar. Júlio que estava parado se moveu rapidamente, e me abraçou.