5 - TODOS QUEREM SABER O QUE HOUVE EM FRANKFURT, Júlio

1246 Words
A emoção pode vir das coisas mais complexas, ou das mais simples, no caso, o que me causou emoção foi Layla ter aberto os olhos e falado. Apesar de não terem sido falas muito animadoras, foram falas. Depois de ter ficado muito tempo abraçado com ela, até parar de chorar, chamei o médico e a examinou, inclusive, fez uma análise de como estava sua mente. - Qua seu nome completo? - perguntou. - Layla Masarf Shabal - respondeu Layla corretamente. - Quantos anos você tem? - 25. Tudo que ela respondia ele anotava numa prancheta. - Qual cidade que você nasceu e qual país? - Mossul, Iraque. Ele balançou a cabeça como sinal de positivo. - Qual o nome do seu esposo... Nome dos seus pais... Quantos irmãos... Nome dos irmãos... Nome do... Tudo ela respondia corretamente. Ao acabar as perguntas, o médico me olhou e falou: - Ela sofreu vários hematomas devido à agressão, mas, o raciocínio e as memórias estão perfeitas. Apertei a mão do profissional, o agradeci, e saiu do quarto. Logo em seguida, olhei para Layla e sorri. Não por estar aliviado, embora eu estava, mas porque nada nela havia sido afetado, ou pelo menos, nada foi afetado externamente, embora seu corpo estivesse com vários hematomas, machucados e manchas roxas. - Como você está se sentindo, amor? - perguntei enquanto eu me preparava para sentar na cama junto a ela. - Bem - respondeu sucintamente. Um estranho silêncio tomou o quarto daquele hospital por alguns instantes. Um silêncio meio ensurdecedor, daqueles que incomodam nosso ouvido ao serem captados. A única coisa que fazia ruído era o ar-condicionado do quarto que estava saindo um ar gelado leve devido ao frio. - Júlio, me leve para o banho - disse ela um pouco tensa. - Seu desejo é uma ordem, amor - falei tentando anima-la. Me preparei rapidamente para poder ajudá-la a se levantar. Segurei seus braços e ela se apoiou no chão com os pés. Quando ela teve confiança de que estava firme no chão, começou a andar, e eu estava ajudando. Era estranho ver Layla com aquele semblante tão... Infeliz. Ao entrar no banheiro, ela retirou a shayla, depois a roupa. Coloquei-a no box e girei o registro do chuveiro e a água quente começou a cair sobre seu corpo. Ela fechou os olhos, olhou para cima e deixou a água escorrer do seu rosto para o pescoço, e do pescoço para todo o resto, depois olhou para mim e falou: - Quero ficar sozinha. Achei um pouco estranho. Ela nunca falou para ficar sozinha. Ela sempre queria minha companhia, até para conversar com ela durante o banho, e eu sempre respeitava quando ela precisava ter algum momento de privacidade, mas, obedeci e saí do banheiro fechando a porta. *** Os carros de reportagem das emissoras de TV alemãs continuavam estacionados em frente ao prédio do hospital. Eu já não estava entendendo mais nada. Estava difícil assimilar de uma vez tudo que estava acontecendo, e aqueles carros que não saíam dali estavam me incomodando, mas não pelo simples fato de eles estarem ali, mas pelo fato que havia repórteres no prédio e eu não fazia a menor ideia do que era. Uma das piores coisas que existem é ficar desinformado A melhor coisa a fazer para acabar de vez com aquela dúvida, era falar com alguém que estava trabalhando no hospital naquele momento, aqueles para quem as informações chegavam mais rapidamente, aqueles que possuíam uma visão muito mais ampla do que acontecia ali naquele exato momento. Me levantei da cadeira que eu estava sentado e andei em direção à porta e no exato momento que eu ia colocar a mão na maçaneta, alguém abriu-a antes de mim pelo lado exterior do quarto. Era uma mulher, e não estava com roupa de médica ou enfermeira. - Esse é o quarto de Layla Shabal? - perguntou. - Sim. Eu sou o esposo dela - respondi. Antes de ela falar mais qualquer coisa, fui direto eliminar minha curiosidade. - O que são aqueles carros de emissoras lá fora? - É exatamente sobre isso que precisamos falar com o senhor - respondeu. Achei um pouco estranho, mas aceitei conversar com ela. *** - O caso de sua esposa foi grave - dizia ela -, e algo dessa natureza não iria passar em branco. Comecei a gelar, senti um leve arrepio e um pressentimento r**m. - Várias emissoras alemãs ficaram sabendo do caso e vieram até esse hospital de Frankfurt exatamente por isso. Passei a mão no rosto, fiquei calado e a sensação r**m, de desconforto, e de insegurança, bateu. - Vou pensar no que vou fazer. - É melhor você pensar bem, porque logo logo essa notícia passará em escala global. - m***a! - falei com um tom de gente que não sabe o que fazer. - Eles já têm alguma informação até agora? - perguntei na tentativa de saber mais. - Sim. Que foi uma muçulmana e que ela foi agredida no metrô do maior centro financeiro da Alemanha. - Que fique assim. Obrigado por me informar - falei à mulher que na verdade era uma recepcionista que havia recebido informações de um funcionário do hospital. Entrei no quarto e Layla continuava no banho. Eu conseguia escutar a água caindo constantemente. - Layla - disse eu batendo na porta -, vai sair, amor? - Já vou sair, amor - respondeu ela de lá de dentro. - Tudo bem. *** - E eram muitos? - perguntou ela deitada na cama do quarto. - Bastante - respondi. - Quantos? - Muitas emissoras alemãs importantes. - Tá, mas quantos? - Pelo menos umas dez. - Quem os informou? - Um caso dessa natureza não passaria batido. A mulher falou que coisas desse tipo passam na mídia em escala global. Ela respirou fundo e me falou: - O que será que meus pais vão achar, se eles ainda estiverem vivos? - Não dissemos o seu nome. Eles apenas sabem que é uma muçulmana de Frankfurt. Não sabem nem que você é de Mossul. - Ok - falou. -  Será que Alá me perdoa? - Como assim? - perguntei estranhando um pouco. - Será que ele me perdoa? - Por que não perdoaria? - falei sem fazer a menor ideia do que ela estava dizendo. - Faz um tempo que não pratico o salá. Será que ele perdoa? Olhei firmemente para ela e me pronunciei com a verdade. - Eu não sei... Sou judeu. Nunca deixei de praticar um salá, porque eu não pratico. Ela abaixou a cabeça, virou para o lado e disse: - Me deixe dormir um pouco. - Como quiser. *** Já havia umas quatro horas que a equipe de reportagem havia saído da fachada do prédio. Fazia um tempinho que eu estava estressado, agitado, e que minha mente não parava de raciocinar e processar fatos, por isso, decido ligar a TV do quarto onde Layla estava e relaxar. Fiquei passando os canais na minha, e apesar de tudo, aquilo estava me distraindo. Naquele horário estavam passando séries de humor, programas de auditório, novelas, é uma hora, caiu no canal onde passava o noticiário. - Uma muçulmana é gravemente agredida dentro de uma das principais cidades do país, Frankfurt am Main - disse o repórter. Parei, pensei, raciocinei, pensei mais um pouco e vi que era aquela realidade que iríamos enfrentar por um longo período, já que muita gente não iria esquecer aquilo tão cedo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD