um.

1758 Words
— Acabei de sair do presídio, Cidinha. Daqui a pouco chego em casa. Minha mãe parecia tão inquieta, sua agitação era notável, mesmo pelo telefone. Caminhei apressada até o ponto de ônibus que ficava a uns 10 metros da entrada do presídio. O lugar era extremamente afastado e só tinha eu parada. — Viu que horas o ônibus passa aí? Não dá mole, filha! Fica atenta, me avisa assim que chegar no terminal e guarda o seu celular, esses lugares são perigosos... Acho que seu pai já avisou aqui que você vai chegar depois do toque de recolher mas mesmo assim, Fernanda, tô tão nervosa. — Aparecida por deus, fica tranquila! Esse medo só me deixa mais aflita também, mãe. Deus é comigo, e já já tô em casa. — tentei passar toda a calma que eu não sentia para minha mãe, mesmo estando morrendo de medo. Nossa cidade estava um caos! Todo dia tinha um tiroteio diferente e não adiantava chamar a polícia, porque eles não faziam questão de se meter no confronto entre as facções. A verdade é que desde que baco foi preso, a mais ou menos 4 meses atrás, nossos "vizinhos" pensavam que tinham o direito de tentar se infiltrar e tomar o morro a qual ele comandava. Óbvio que nenhuma tentativa deu certo, ou essa maldita guerra não estaria acontecendo. Eu não fazia a menor ideia de quem era o chefe do morro rival, mas atualmente, quem comandava o Leopoldina, era Proeza, sub e braço direito do Baco. Eu o conhecia porque haviamos estudado juntos, mas Baco era um verdadeiro mistério pra mim. Num dia, o morro estava nas mãos de um canalha carniceiro e no outro, Baco tinha assumido, Proeza tinha virado sub e agora as coisas estavam do jeito que estão. O toque de recolher era uma medida de segurança, já que uma criança tinha sido vítima de uma bala perdida. Pra evitar a morte de mais inocentes, os salvadores da pátria, vulgo chefes do tráfico de Leopoldina, deram duas opções: ou fica em casa ou morre. Claro que a vida não podia parar, então quem precisava ir a escola, trabalhar e afins, tinha até, no máximo, dez horas da noite para chegar, passando disso, teria que avisar a alguém responsável para que a passagem fosse segura. Durante o dia, era comum ver homens mascarados e com grandes fuzis por toda comunidade. As crianças passavam de cabeça baixa, era notável o terror nos rostos de todo mundo. Ainda assim, era uma medida de segurança para proteger os deles. E tudo isso era ordem direta de Baco, nosso presidente atualmente preso! Irônico que, nas palavras dos diretores do EDETEN, traficantes, assassinos e marginais como eles se preocupassem mais com a segurança dos moradores do que nossos próprios governantes. Guardei meu celular na bolsa e acenei com a mão no instante em que vi o ônibus se aproximando do ponto. Graças a Deus que ele não estava tão lotado, só de pensar em ir de pé com minha bolsa cheia de livros e meu notebook, me dava um cansaço gigantesco! Minhas pernas doíam só de imaginar. Porém, sabia que assim que chegasse no terminal e pegasse o segundo busão, a coisa mudaria de figura, porque todo mundo estaria preocupado em chegar cedo e se trancar em casa. Ignorei a cara de deboche do motorista quando notou de onde eu estava vindo. Ele certamente pensava que eu estava visitando um dos presos, fiz questão de mostrar a carteirinha de professor para ele me dar passagem e um sorriso de satisfação apareceu em meus lábios no momento que a expressão de sarcasmo dele murchou. Não era a primeira vez que alguém me olhava daquele jeito. Outro dia, o Uber que me trouxe me deu um sermão indiretamente por horas quando soube meu local de destino. Me doía que as pessoas ainda tratassem como um tabu tão grande o sistema carcerário. A maioria dos ouvintes que entrevistei, defendiam que a única situação possível era matar presos no geral. Não passava pela cabeça deles que, com a exclusão, favorecia muito mais novas ondas de crimes! E era exatamente por isso que o EDETEN havia sido criado. Para dar aos detentos, em sua maioria pretos e periféricos (muitas vezes inocentes) uma nova oportunidade de se reintroduzirem na sociedade, tendo condições minimamente dignas de convivência. Por isso eu tinha tanto orgulho de fazer parte disso. Óbvio que repensei meus objetivos e coisas de se orgulhar no momento que Baco colocou seus olhos em mim, mas respirei fundo e segui minha vida. Tinha fé que conseguiria muda-lo. Não esperava salvar a todos, mas se visse três ou quatros se dedicando a abandonar o crime, já estava de bom tom para mim. Assim que desci do segundo ônibus e andei em direção a minha casa, pude visualizar os "seguranças" parados na entrada no morro. A olho nu, se você não fosse morador, pareciam apenas dois amigos conversando. Mas eu sabia bem que eram mais um dos capangas de Baco tomando conta do lugar. Eles estavam a uns cem metros de mim, mas mesmo assim, era possível distingui-los. Os dois homens pareciam brigar e eu cogitei dar meia voltar e entrar pelo outro lado, apenas para não passar no meio daquilo. Ao todo, quatro entradas davam acesso ao morro e também tinham mais algumas passagens secretas pelo mato, se você soubesse procurar bem. — Passa tudo, p*****a. Vai, anda! — demorei para entender tudo o que estava acontecendo no instante em que um cara encapuzado parou do meu lado. Era um rapaz magro, pele branca e olhos aparentemente claros. Ele puxava minha bolsa insistentemente e contra minha vontade, eu a segurava contra meu corpo. — Bora, p***a, tá maluca? Só então, ele puxou a arma do cós da calça e apontou para minha cabeça. Meus olhos estavam arregalados e meu coração acelerado. Eu estava paralisada, sem conseguir me mexer no lugar e segurando firmemente minha bolsa. — Bora, mano. Acerta logo essa maldita! — o comparsa, parado na moto, olhava constantemente para onde os dois caras estavam na entrada do morro, agora eles olhavam na nossa direção e pareciam caminhar até mim. Então o que estava em pé na minha frente puxou a bolsa de uma vez e eu caí no chão. No instante que gritei e tentei me levantar, o que estava parado na minha frente me chutou com força na barriga e eu perdi o ar. Minha cabeça girou e não consegui manter o equilíbrio. Não satisfeito, ele puxou meu cabelo e colocou a arma na minha cabeça, pude ouvir o barulho dela sendo destrava. De todas as coisas que eu jurei não fazer, reagir a um assalto era uma delas. — Bora, arrombado. Deixa essa biscate aí, p***a! Olha os caras vindo. Aconteceu tudo tão rápido que eu sequer consegui processar. Quando me dei conta, um dos homens de Proeza estava parado na minha frente, falando comigo, mas eu não conseguia ouvir. Um zumbido chato estava por todo meu ouvido e olhei para o chão, vendo que o cara realmente tinha tentado atirar em mim, mas, por sorte, o tiro tinha pegado no chão ao lado da minha cabeça. Por isso o zumbido, então. Reconheci o que estava na minha frente, era o Gorilla e eu sempre o vi andando com Proeza pelo morro. Suas mãos pressionaram forte meus ouvidos e quando ele se afastou, pelo menos estava conseguindo ouvir de novo. — Consegue ouvir agora? — assenti, mesmo sendo extremamente audível o "zum" chato na minha cabeça. — Já é! O Coruja vai subir contigo e te deixar em casa, professora. Tenho que trocar uma ideia com o Proeza sobre o que aconteceu aqui. — Eu tenho que ir na delegacia. Eu devia estar bem maluca pra falar sobre ir na delegacia do lado de um dos traficantes mais perigosos da minha cidade, mas o pânico não me deixou raciocinar direito. — Vou dar um desconto pra tua falta de noção porque tu quase foi vítima de latrocínio. — ele chamou alguém atrás de mim com a mão e eu olhei para trás, vendo o colega dele se aproximar com a moto. — 'Os cara' não vão chegar perto de fazer com esses dois cuzões o que Proeza vai quando descobrir que tão tirando com morador do morro dele, fica tranquila. Aquilo era verdade. Dentre todas as regras que tinham aqui, a principal era não assaltar morador, porque apesar das drogas, das mortes e da falta de lei, "o morro não é bagunça" nas palavras de Proeza. Evidentemente, acontecia uma coisa ou outra, mas quando tinham testemunhas (como hoje) a coisa ficava feia, porque aí o chefe se envolvia. — Tu tem algum problema em andar de moto, mina? — Coruja, como Gorilla tinha chamado, apareceu na minha frente e estendeu um capacete pra mim. Ou seja, se eu tivesse, seria problema todinho meu. — E eu levo pra onde, Gorilla? — Avisa Dona Cida pra ficar tranquila. Tu tá machucada, Fernanda? — Neguei com a cabeça e coloquei o capacete. — Ele pegou alguma coisa tua? — Minha bolsa. — respirei fundo e encarei o chão. Eu sabia que ia chorar, mas não queria fazer aquilo na frente de nenhum deles. — tudo que eu uso pra trabalhar tá lá... Meu celular e notebook são irrelevantes, mas eu preciso dos arquivos e papéis que estão lá dentro. Ousei encarar Gorilla e ele me olhava com pena. Então apenas apertou meu ombro e sorriu gentilmente. — Vou fazer o que for possível. — O que eu vou falar pra Dona Cida, mano? 'Os cara' eu enfrento, mas aquilo ali... Ela vai me receber com cabo de vassoura e descer no meu pote, meu jesus Cristo! — Larga mão de ser frouxo, Coruja. Fala pra caquética que depois eu converso com ela. Eu esquecia que Gorilla era filho da minha mãe também. E frequentemente, i********e como essa me assustava. O fato dele ser filho da minha mãe, nos tornava irmãos? Não! Porque, na verdade, eu era neta de Maria Aparecida, mas como ela me criou desde pequena, eu a chamava de mãe. Gorilla era a ovelha n***a. Apesar de não me lembrar, ele também tinha um irmão, que havia morrido a muito tempo, eu sequer lembrava de conhece-lo. Ainda, assim, a relação dele com minha mãe era bem estranha. Subi na moto e segurei na cintura de Coruja. Tudo o que eu queria era chegar em casa, tomar um banho e esquecer que o dia de hoje tinha acontecido.
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