quatro

1089 Words
Maria Fernanda Viro e desviro na cama pela milésima vez, então desisto e me levanto para lavar o meu rosto. Eu deveria estar planejando as minhas próximas aulas, deveria ter feito o relatório para entregar a staff do EDETEN sobre qual foi minha primeira impressão dos seis homens daquela sala. Deveria ter ido treinar, deveria ter levantando para comer alguma coisa ontem e hoje. Mas quem disse que eu conseguia? Toda vez que eu pisava os pés para fora do meu quarto, a cena do assalto me acertavam em cheio e eu sentia o pânico voltando tudo de novo. Quando eu fechava meus olhos, via o rosto dos bandidos que me abordaram e quando não era isso, enquanto eu cochilava, ouvia o barulho do tiro que ele disparou. E essa maldita guerra, todos esses tiroteios dia e noite não me ajudavam em nada! — Talvez eu queira ir embora desse lugar, Cidinha. — entrei na cozinha ao ver a sombra de minha mãe. — E ficar longe do seu amigo de infância? Proeza estava sentado na nossa mesa de jantar e só depois de me aproximar mais eu vi como minha mãe estava tensa. Sua expressão era tão dura, igual a uma pedra, que estranhei. Apesar da vida que levava, ela sempre o tratou bem. — As vezes eu esqueço que vocês já se conhecem. ,— Ouvi a voz de Gorilla e olhei pra porta da cozinha, onde ele estava parando simplesmente fumando um baseado. — Apaga esse merda, Laércio, seu filho de uma... Olha, eu não vou nem terminar a frase. Você tá na minha casa, é bom respeitar! Era incrível a facilidade que meu, até então tio, tinha de irritar minha mãe pelo simples fato dele respirar. Sabendo que não deveria cutucar onça com vara curta, ele apagou o cigarro e o guardou no bolso, dando um sorriso forçado pra própria mãe. Cidinha saiu pisando duro no chão com seus um metro e cinquenta, mas não sem antes proferir todos os xingamentos possíveis ao filho. — Tu sabe que não deve cutucar brioco de onça com vara curta, Gorilla! — Proeza alertou, tentando ficar sério, mas dava pra ver que ele estava doidinho pra rir. — Onça? Aquilo ali é um dinossauro de tão pré-histórico, Proeza. — Tô te ouvindo, Laércio, 'fi de uma quenga' — mamãe gritou da sala e eu dei risada. — Façam o que vieram fazer e saiam fora do meu barraco! Então encarei a mesa. Minha bolsa estava lá e imediatamente corri até ela, vendo que todos os papéis estavam dentro, todos os relatórios e arquivos. Tudo! Menos meu celular, notebook e minha carteira com dinheiro, obviamente. Proeza e Gorilla pareceram entender a minha expressão porque ambos coçaram a cabeça ao mesmo tempo. — Quando encontramos, já tinham vendido tudo pra comprar pedra, Fe. — ele ficou alguns segundos me encarando, então tirou uma sacola do chão e pôs sobre a mesa. — mas o chefe pediu pra comprar tudo pessoalmente, porque sabia que a sua mãe não ia aceitar dinheiro. Meu queixo caiu quando vi quatro caixas da Apple dentro dela. — E ela não vai aceitar isso aí não, pode ir voltando com essas coisas seja lá de onde vocês roubaram. — Cidinha apareceu de repente na sala, sua expressão estava ainda mais raivosa. Pelo canto do olho pude ver quando Proeza encarou meu tio pedindo ajuda. — Até devolveria, velha. Mas o patrão não aceita desfeita. — Gorilla pegou a blusa de cima da cadeira e a colocou no ombro, em seguida fez menção de sair pela porta, mas Proeza se manteve sentado. — A Maria Fernanda não precisa dessas coisas, seja lá onde você tenham arrumado. Ela sempre trabalhou pra conseguir tudo e pode muito bem conseguir de novo. Sozinha. — Isso não foi roubado, Dona Cida. — sua voz era calma, mas seu semblante era tão duro que me lembrei, primeiramente, porque ele era um bandido tão perigoso. — Foi um presente, comprado com dinheiro honesto. E é falta de educação recusar presente alheio. — Com dinheiro honesto, garoto? Tu chama isso de dinheiro honesto? — Cidinha virou de costas e fez menção de sair da cozinha. Que a minha mãe era velha, todo mundo já sabia (nem tanto, ela tinha seus cinquenta e poucos anos) mas que ela estava completamente lelé da cuca, isso era novo. Ofender e desmerecer um traficante de uma vez só? Só podia tá completamente louca! Entrei na frente no momento que Proeza se levantou de uma vez e caminhou em direção a entrada da cozinha. Gorilla se aproximou também e o segurou pelo braço. Minha mãe já caminhava em direção ao seu quarto, mas mesmo assim, fiquei com medo do que ele fosse fazer. — Tá me tirando de otario, Fernanda? — Nós estávamos tão perto que me lembrei da época que andavamos juntos. — Eu não bato em mulher, c*****o! Proeza era só alguns anos mais velho que eu. Eu lembro que na escola, era repetente, mas estava focado em terminar os estudos. Também lembro dele compartilhar como tudo era difícil na sua casa. Ele era sempre brincalhão pra disfarçar as dificuldades que passava. Um dia, ele sumiu, parou de ir as aulas. Quando soube dele novamente, estava envolvido com o tráfico e eu, na faculdade. Em parte, foi por causa dele que me dediquei a entrar para o EDETEN. Meu ex amigo sempre deixou claro como essa era a única coisa que ele queria pra vida, que só sairia dessa vida morto. Que só mudaria quando tivesse certeza que era possível sair disso sem ser morto. Eu estava focado em provar isso pra ele e pra quem mais quisesse abandonar o tráfico. Nós dois éramos muito próximos. Eu lembro de Proeza me contar que queria ser policial, que faria de tudo para passar num concurso e entrar pra PF, em que momento aquilo tinha mudado? — Nem se ela pedir? — Comédia. — sua expressão relaxou e ele deu meia volta, parando perto da porta da cozinha, pronto para sair com Gorilla. — O patrão realmente não gosta de desfeita, é bom você ficar com o presente. Assenti, mesmo tendo certeza que minha mãe me obrigaria a devolver tudo pra loja. Meu tio acenou pra mim e saiu com seu comparsa. Tudo o que eu não queria tinha acontecido: ter um motivo real, além do projeto, para falar novamente com Baco. Eu sabia que não conseguir relaxar enquanto não agradecesse a ele. E era isso que me assustava.
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