Capítulo 2
Ponto de Vista de Sofia
Os dois foram embora. O silêncio que ficou na casa não era paz, era o eco da minha destruição. Saí de dentro do armário, meus movimentos mecânicos, como se eu fosse feita de vidro prestes a estilhaçar. A dor no meu peito não era apenas figurada; era uma pressão física, asfixiante. Meu marido — o homem a quem entreguei minha alma — estava nos braços da minha melhor amiga, a mulher que, por anos, foi minha sombra e confidente.
O pior, porém, não era o adultério. O pior era a revelação que ainda queimava meus ouvidos: eles foram os responsáveis pela morte do meu pai. Eles não apenas me traíram; eles roubaram o meu legado, a minha família, o meu futuro. Eu era apenas um objeto decorativo, uma peça de xadrez que eles manobraram até o xeque-mate.
Não. Eu não aceitaria isso. Nunca.
Com as mãos trêmulas, peguei o telefone e disquei para Enzo. Meu meio-irmão, o filho que meu pai nunca assumiu plenamente, fruto de um romance passageiro com uma prostituta. Após dois toques, ele atendeu com aquele tom arrogante de sempre:
— Enzo, me diga onde você está.
— Em casa, Sofia. Onde mais eu estaria? — ele respondeu com desdém.
— Enzo, ele matou... ele matou o nosso pai. Lourenço roubou o nosso legado, e está me traindo com a Juliette. Eles conspiraram contra tudo o que nos pertencia.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— Sofia, você está louca? O que está tentando criar?
— Não é loucura! Eu ouvi, Enzo. Eu ouvi Lourenço confessando tudo para Juliette. Ele armou o golpe, ele se casou comigo apenas para usurpar o título de Dom.
— Você tem certeza absoluta disso? — a voz de Enzo mudou, tornando-se gélida e perigosa.
— Tenho. Ele precisa ser exposto, preciso que o conselho da máfia intervenha. Ele não pode continuar sendo o Dom.
Enzo soltou um suspiro pesado, uma nota de resignação que eu não soube interpretar na hora.
— Sophie, fique onde está. Não faça nada, não tente confrontá-los. Estou indo para aí agora. Vamos resolver isso juntos.
Ele encerrou a ligação. Desci para a sala, sentindo o peso das paredes daquela casa que eu achava ser um lar. A espera foi torturante, cada segundo parecia uma agulha perfurando minha pele. Quando o som dos passos de Enzo ecoou no hall, respirei aliviada por um breve instante.
Abri a porta para ele, abraçando-o com força.
— Enzo, que bom que chegou. Nosso pai foi assassinado, não podemos deixar isso impune...
Interrompi minha própria frase ao ver dois vultos surgirem atrás de Enzo. Lourenço e Juliette caminhavam em direção à sala com sorrisos que não chegavam aos olhos. Olhei para meu irmão, confusa, mas ele não me retribuiu o olhar. O terror começou a se instalar.
— Enzo? O que você fez? — minha voz falhou.
Enzo se afastou, seus olhos revelando um desprezo acumulado por décadas.
— Aquele velho i****a nunca me tratou como filho, enquanto você sempre foi a princesinha, a preferida. Acha mesmo que eu não sabia sobre o que Lourenço fez? Ele me pagou muito bem para eu manter o bico fechado e deixar que ele assumisse o poder. Afinal, a máfia jamais aceitaria um bastardo como eu no topo.
Eu sentia o chão fugir sob meus pés. Olhei para Lourenço, que mantinha um sorriso predatório.
— Então você descobriu, bonequinha? — ele se aproximou, a voz aveludada carregada de ameaça. — Vamos ter que cortar sua língua para que aprenda a ficar quieta.
Juliette, com um olhar de puro veneno, deu um passo à frente.
— Você realmente achou que eu deixaria você com Lourenço sozinha? Ele sempre foi meu. Desde a época em que tirou sua virgindade, eu já estava ali, esperando pelas sobras.
Dei dois passos para trás, sentindo-me encurralada.
— Eu não vou ficar calada! Vocês não vão destruir o que resta da minha família!
Antes que eu pudesse terminar, Lourenço desferiu um tapa violento em meu rosto. O impacto fez meu mundo girar. Ele não parou por aí; mais um, outro. O gosto metálico do sangue inundou minha boca, quente e denso.
— Você é um monstro! — gritei, mesmo com a dor lancinante.
Ele não respondeu. Apenas me agarrou pelos cabelos e me arrastou para o porão, o calabouço onde ele torturava os piores inimigos. Jogou-me sobre o chão frio e úmido, prendendo meus pulsos em correntes enferrujadas.
— Você vai ficar aqui até aprender a ser submissa — ele rosnou.
— Lourenço, pare... eu estou grávida! Você vai matar seu próprio filho!
Ele parou, olhou para mim com um desdém absoluto e sorriu.
— Meu herdeiro já está no ventre de Juliette. O que você carrega é apenas um erro.
Ele saiu, deixando-me na escuridão, acompanhada apenas pelo eco das risadas deles. As horas se arrastavam em um borrão de agonia. Meu corpo doía cada centímetro, mas a dor física era nada perto da traição.
Quando ele retornou, horas ou dias depois — eu já não sabia contar —, ele me chutou e me golpeou novamente. Minha barriga latejava. Então, o pior aconteceu: um líquido quente começou a escorrer pelas minhas pernas. Sangue. Muito sangue.
— Lourenço... por favor... estou perdendo o nosso filho... — sussurrei, desesperada, agarrando-me à última esperança de humanidade dele.
Ele olhou para a poça de sangue se formando no chão sujo, desdenhoso.
— Ótimo. Quando esse bastardo estiver morto, talvez você finalmente aprenda o seu lugar.
Ele virou as costas e saiu, deixando-me ali, sangrando, enquanto a vida esvaía de mim junto com o meu bebê. O tempo perdeu o sentido. A dor tornou-se um zumbido constante, e o frio do chão de pedra parecia penetrar nos meus ossos.
Quando a porta finalmente se abriu, eu já não tinha forças nem para implorar. A voz de Lourenço veio de longe:
— E aí, bonequinha? Ainda viva?
Eu tentei falar, mas não havia ar nos meus pulmões. Meus olhos pesavam como chumbo. "Sofi, acorda", ele dizia, mas a voz dele era agora apenas um sussurro irrelevante. Perdi o sentido da realidade, e a escuridão, finalmente, me abraçou por completo.