Capítulo 4
Ponto de Vista de Sofia
Eu ainda sentia a dor.
Mesmo sabendo que estava viva, mesmo respirando normalmente, eu ainda conseguia sentir a queimação dos tiros atravessando meu peito.
Ainda conseguia ouvir os gritos desesperados de Lorenzo.
Mas não eram gritos por mim.
Nunca foram.
Ele gritava para os médicos salvarem Juliette.
Salvarem o filho deles.
Enquanto eu morria sozinha no chão daquele hospital.
A lembrança fez meu estômago revirar.
Fechei os olhos por um instante, tentando afastar aquelas imagens, mas elas continuavam ali, gravadas em minha mente como uma maldição.
Foi então que olhei ao redor novamente.
Eu estava em um quarto simples.
Antigo.
As cortinas eram velhas, os móveis tinham um estilo ultrapassado, e o papel de parede estava ligeiramente desgastado pelo tempo.
Meu coração disparou.
Eu conhecia aquele lugar.
Conhecia muito bem.
Não...
Não podia ser.
Levantei rapidamente as cobertas.
Meu corpo congelou.
Eu estava nua.
A respiração ficou presa em minha garganta.
Então virei lentamente a cabeça.
Lorenzo estava deitado ao meu lado.
Dormindo tranquilamente.
Seu peito subia e descia em um ritmo calmo.
Seu rosto parecia sereno.
Inocente.
Mas eu sabia quem ele era.
Sabia exatamente o monstro escondido atrás daquela aparência perfeita.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
Por um segundo, tive vontade de pegar qualquer objeto pesado e esmagar sua cabeça enquanto ele dormia.
Acabar com tudo ali.
Poupar anos de sofrimento.
Poupar a morte dos meus pais.
Poupar a morte do meu filho.
Mas me obriguei a respirar fundo.
Ainda não.
A vingança precisava ser feita da maneira certa.
Olhei para o chão.
Minhas roupas estavam espalhadas perto da cama.
Exatamente como eu me lembrava.
A noite em que tudo começou.
A noite em que destruí minha própria vida.
Saí da cama com cuidado para não acordá-lo.
Cada movimento parecia irreal.
Entrei no banheiro e acendi a luz.
Quando levantei os olhos para o espelho, minhas pernas quase cederam.
Meu rosto.
Meu rosto de cinco anos atrás.
Sem olheiras.
Sem cicatrizes.
Sem o sofrimento estampado nos olhos.
Eu parecia tão jovem.
Tão inocente.
Tão estúpida.
Levei as mãos ao próprio rosto.
— Meu Deus... — sussurrei.
A voz saiu firme.
Normal.
Minha língua estava ali.
Inteira.
Sem mutilações.
Sem marcas.
Passei os dedos pelos lábios e senti as lágrimas escorrerem.
Era impossível.
Mas estava acontecendo.
Eu realmente tinha voltado.
Voltei para o início de tudo.
Voltei para o dia em que Lorenzo Rossi me destruiu.
Atrás de mim ouvi um leve movimento vindo do quarto.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
Por um instante pensei que ele tivesse acordado.
Meu coração disparou.
Mas alguns segundos depois tudo voltou ao silêncio.
Respirei aliviada.
Lorenzo continuava dormindo.
Se bem me lembrava, naquela noite ele havia bebido bastante.
Era a oportunidade perfeita.
Sem perder tempo, vesti minhas roupas rapidamente.
Peguei minha bolsa sobre a cadeira e saí do quarto na ponta dos pés.
Cada segundo ali dentro me fazia sentir sufocada.
Precisava fugir.
Precisava pensar.
Precisava agir antes que fosse tarde.
Desci as escadas do hotel quase correndo.
Assim que saí para a rua, o ar frio da madrugada atingiu meu rosto.
Pela primeira vez desde que acordei, consegui respirar de verdade.
Então meu celular tocou.
Olhei para a tela.
Juliette.
Meu estômago embrulhou.
Lá estava ela.
A mulher que fingiu ser minha amiga.
A mulher que dividiu minha mesa.
Minha confiança.
Meus segredos.
Enquanto planejava minha destruição ao lado de Lorenzo.
O telefone continuou tocando.
Mas desta vez eu não atendi.
Nunca mais atenderia.
Desliguei a chamada.
Em seguida procurei outro contato.
Luigi.
Meu primo.
A única pessoa em quem eu realmente podia confiar.
A ligação foi atendida no segundo toque.
— O que aconteceu, bambina? — perguntou imediatamente.
Meu peito apertou.
Na outra vida, Luigi tinha morrido tentando me proteger.
Ouvir sua voz novamente quase me fez chorar.
— Preciso da sua ajuda.
Do outro lado da linha ele ficou em silêncio.
— Sofia?
— Eu fiz uma grande besteira.
A preocupação em sua voz aumentou.
— Onde você está?
Olhei para a fachada do hotel.
— Em frente ao Hotel Siciliano.
— O que você está fazendo naquela espelunca?
Apesar de tudo, quase sorri.
Luigi sempre odiou aquele lugar.
— É uma longa história.
— Então me conte.
— Não por telefone. Vem me buscar.
Minha voz falhou no final da frase.
Ele percebeu imediatamente.
— Estou indo.
A ligação foi encerrada.
Fiquei esperando na calçada, abraçando o próprio corpo.
Quinze minutos depois, um Mustang preto estacionou diante de mim.
Entrei rapidamente.
Luigi me observou por alguns segundos antes de arrancar com o carro.
— Você está horrível.
— Horrível foi o que eu fiz.
Ele franziu a testa.
— Sofia, você está me assustando.
Passei a mão pelos cabelos.
Como eu explicaria aquilo?
Nem eu entendia.
— O que vou te contar é muito sério.
— Certo...
— E provavelmente você vai achar que eu enlouqueci.
— Isso depende.
— Eu voltei no tempo.
Por alguns segundos houve silêncio.
Então ele começou a rir.
Exatamente como eu sabia que aconteceria.
Cruzei os braços.
— Eu avisei.
— Sofia, você ouviu a si mesma?
— Ouve o resto antes de me chamar de louca.
Ele suspirou.
— Tudo bem. Estou ouvindo.
— Pare o carro.
— O quê?
— Apenas pare.
Alguns minutos depois ele estacionou próximo à praia.
Descemos.
Aquela mesma praia onde brincávamos quando crianças.
Sentamos em um banco de frente para o mar.
O som das ondas trouxe uma estranha sensação de paz.
Mas apenas por um instante.
Porque eu sabia o que precisava dizer.
— Luigi... eu dormi com Lorenzo.
Seu rosto perdeu a cor.
— Você fez o quê?
— Eu dormi com Lorenzo Rossi.
— Sofia, você ficou maluca?
— Eu sei.
— Ele é filho do maior inimigo do seu pai!
— Eu sei!
Ele passou as mãos pelo rosto.
— Meu Deus...
— Escuta primeiro.
— Estou tentando.
Respirei fundo.
— Daqui a três dias Lorenzo vai procurar meu pai.
— Como você sabe disso?
— Porque eu vivi isso.
Ele me encarou.
— Sofia...
— Daqui a três dias ele vai contar que dormiu comigo. Meu pai vai me obrigar a casar com ele para evitar um escândalo.
O silêncio caiu entre nós.
— E depois?
— Depois ele destrói nossa família.
Luigi continuava me olhando.
— Ele toma o império dos Brazine.
— Isso é impossível.
— Não é.
— Sofia...
— Ele mata meu pai.
Minha voz quebrou.
— Mata minha mãe.
Uma lágrima escorreu.
— Mata você também.
Agora Luigi estava completamente sério.
Sem risadas.
Sem brincadeiras.
— E no final?
Fechei os olhos.
— No final ele me mata.
O vento soprou entre nós.
Durante alguns segundos nenhum dos dois falou.
— Você sonhou com isso? — perguntou.
— Eu não sei.
Olhei para ele.
— Talvez tenha sido um sonho.
Talvez uma visão.
Talvez um milagre.
Mas eu vivi cada segundo.
Cada lágrima.
Cada agressão.
Cada perda.
Cada tortura.
Meu corpo começou a tremer novamente.
— Passei cinco anos ao lado daquele homem.
— Sofia...
— Eu o amei mais do que a mim mesma.
Minha voz falhou.
— E ele me destruiu.
Luigi segurou minha mão.
— O que você quer fazer?
Seus olhos encontraram os meus.
E pela primeira vez desde que acordei senti esperança.
Porque agora eu não estava sozinha.
— Quero impedir o casamento.
— Como?
— Preciso que você contrate um médico.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Um médico?
— Sim.
— Que médico?
Respirei fundo.
— Um especialista em reconstrução íntima feminina.
Os olhos dele arregalaram.
— Agora eu tenho certeza de que você enlouqueceu.
— Não enlouqueci.
— Sofia...
— Apenas faça isso.
Ele me encarou por longos segundos.
Depois suspirou.
— Você sabe que eu faria qualquer coisa por você, não sabe?
Senti um nó se formar em minha garganta.
— Eu sei.
— Então eu vou ajudar.
Abracei meu primo imediatamente.
Com força.
Como se estivesse abraçando alguém que voltou dos mortos.
Porque, para mim, era exatamente isso.
Quando me afastei, enxuguei as lágrimas.
Meu olhar foi para o horizonte.
O sol começava a surgir no céu.
Um novo dia estava nascendo.
E uma nova vida também.
Na minha vida anterior, eu havia passado anos apaixonada por Lorenzo Rossi.
Entreguei meu coração.
Minha confiança.
Minha alma.
E tudo o que recebi em troca foi dor.
Mas agora era diferente.
Agora eu conhecia a verdade.
Conhecia cada mentira.
Cada traição.
Cada armadilha.
Juliette não era minha amiga.
Lorenzo nunca me amou.
E eu não cometeria os mesmos erros duas vezes.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto ao lembrar do meu filho.
Do pequeno bebê que nunca teve a chance de nascer.
A dor ainda estava ali.
Provavelmente sempre estaria.
Mas agora aquela dor tinha se transformado em algo muito mais perigoso.
Determinação.
Vingança.
Eu não permitiria que Lorenzo destruísse minha família novamente.
Não permitiria que ele roubasse tudo o que era meu.
E, desta vez, quando a guerra começasse...
Eu estaria preparada.
Porque a garota ingênua que ele enganou estava morta.
E a mulher que renasceu faria Lorenzo Rossi pagar por cada lágrima, cada cicatriz e cada gota de sangue que derramou.
Desta vez, eu acabaria com ele antes que ele acabasse comigo.