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660 Words
O elevador subia em silêncio absoluto. Andares passando em números dourados no painel. Uila estava encostada na parede de vidro do elevador panorâmico, olhando a cidade lá embaixo como se fosse pequena demais para incomodá-la. Yuan estava ao lado dela. Imóvel. A postura dele não relaxava nem por um segundo. — Você fala pouco — Uila comentou, sem tirar os olhos da vista. — Falar demais cria brechas — ele respondeu. Ela soltou um leve riso. — E você vive com medo de brechas? Yuan virou o rosto só o suficiente para olhar para ela. — Eu vivo com responsabilidade. O elevador continuou subindo. Uila se aproximou meio passo. Não o suficiente para invadir, mas o bastante para testar. — Responsabilidade… — repetiu ela, suave. — Você fala como se estivesse sempre se segurando. O olhar dele endureceu um pouco. — E você fala como se quisesse ver isso acontecer. Ela sorriu. Dessa vez não foi provocação leve. Foi provocação consciente. — Talvez eu queira ver até onde você aguenta. O elevador apitou. Andar executivo. As portas se abriram. --- A empresa de Uila era outro mundo. Vidros, mármore, tecnologia, funcionários que baixavam a cabeça quando ela passava. Ela caminhava na frente, como se o lugar respirasse no ritmo dela. Yuan atrás. Sempre um passo atrás… mas nunca distante. Quando entraram na sala de reunião, três executivos já estavam esperando. Assim que viram Yuan, trocaram olhares rápidos. Uila percebeu. Claro que percebeu. Ela sentou na ponta da mesa. — Comecem — disse. A reunião começou. Números, contratos, projeções, fusões. Yuan ficou parado ao lado da parede. Olhos atentos. Não no que era dito apenas… mas em quem falava. Ele observava mãos inquietas. Olhares desviados. Um dos executivos suava demais. Outro evitava olhar diretamente para Uila. Algo não estava certo. --- No meio da apresentação, um dos homens colocou um tablet na mesa. — Aqui está o relatório final da expansão — ele disse. Yuan estreitou o olhar. O dedo do homem hesitou antes de soltar o dispositivo. Só um detalhe. Mas suficiente. Uila assinou sem hesitar. Confiança total. Yuan deu um passo quase imperceptível à frente. — Não assine isso — ele disse, baixo. A sala congelou. Uila levantou o olhar lentamente para ele. — O quê? O executivo engoliu seco. — Desculpa… ele está atrapalhando a reunião? Yuan não olhou para ele. Só para Uila. — Leia a cláusula 17 novamente. Silêncio. Uila parou. Pegou o tablet. Leu. Uma vez. Duas. O ambiente pareceu diminuir ao redor. O sorriso dela sumiu. — Isso não estava aqui ontem — ela disse. O executivo tentou falar: — Deve ser um erro de sistema— — Não é erro — Yuan cortou. A voz dele foi baixa. Mas definitiva. Uila levantou lentamente o olhar. E pela primeira vez naquele dia… ela não estava brincando. — Saiam — ela disse. Os três executivos hesitaram. — Agora — ela repetiu. Eles saíram rapidamente. A porta fechou. Silêncio. Só ela e Yuan. --- Uila ficou olhando para ele por alguns segundos longos. Depois se levantou da mesa. E caminhou até ele. Devagar. Saltos batendo no piso como contagem regressiva. Quando parou na frente dele, estava muito perto. Muito mesmo. — Você acabou de salvar meu contrato — ela disse. — Eu evitei uma armadilha — ele corrigiu. Ela inclinou o rosto. — Sempre tão sério… — Sempre atento. Ela sorriu de canto. Mas havia algo diferente agora. Menos brincadeira. Mais interesse real. — Então me explica uma coisa, Yuan… — ela disse baixinho — você está aqui só para me proteger? Ele não desviou. — Sim. Uma pausa. Longa. E perigosa. — Ou também para me entender? Yuan ficou em silêncio por um segundo a mais do que o normal. — Isso não faz parte do trabalho. Uila sorriu. Bem devagar. — Ainda. E saiu da sala. Mas agora… ela sabia. E ele também. Que aquilo já tinha passado do ponto de ser só trabalho.
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