Uila falava com uma calma elegante, como se estivesse assinando um contrato… mas havia algo na forma como ela o olhava que deixava tudo menos profissional e mais perigoso.
Ela cruzou as pernas devagar, apoiando o braço no encosto do sofá.
Yuan permanecia em pé, ainda na posição de quem avalia tudo — até o silêncio.
— Bom… você vai estar comigo dezoito horas por dia — ela repetiu, como se estivesse organizando a própria vida em voz alta. — Quando for possível, vinte e quatro. Se houver mudança, você será avisado. E se eu precisar de você, você aparece.
Ela fez uma pausa curta, só para medir a reação dele.
— Sua função é me acompanhar. Em todos os lugares. Isso inclui reuniões, conversas… coisas sigilosas demais.
O olhar dela endureceu um pouco.
— Eu espero que você seja um bom ouvinte. Mas que sua boca permaneça trancada.
Yuan respondeu sem hesitar:
— Pode deixar, senhora.
A voz dele não tinha emoção. Mas também não tinha dúvida.
Uila inclinou levemente a cabeça, satisfeita… ou fingindo estar.
— Bom. Então eu vou me arrumar. Tenho que ir à empresa hoje e resolver assuntos importantes. Também tenho uma reunião.
Ela levantou com calma, como se o mundo tivesse que acompanhar o ritmo dela, não o contrário.
Passou por ele perto demais.
Perfeito demais.
Mas ele não recuou.
— A mesa de café da manhã está servida — ela disse, já caminhando em direção ao corredor. — Pode sentar e comer.
Yuan não se moveu de imediato.
— Outra coisa — ela acrescentou, parando sem olhar para trás.
O silêncio ficou mais denso.
Ela virou só o rosto, o suficiente para que ele visse o brilho no olhar dela.
— Café da manhã, almoço, lanche da tarde… jantar se precisar. Tudo por minha conta. O que eu comer, você também come. Se estivermos em restaurante, mesma coisa.
Ela deu um leve sorriso.
— Você não precisa se preocupar com isso.
Yuan finalmente respondeu:
— Entendido.
Mas Uila ainda não tinha terminado.
Ela virou completamente agora, encostando de leve no batente da porta.
E foi aí que a tensão mudou de forma.
— E sobre a proposta do “baby”… — ela disse, lenta, provocando sem pressa — se for do seu interesse… pode ser bem interessante.
O silêncio que veio depois não foi vazio.
Foi pesado.
Yuan a encarou por alguns segundos longos demais.
Diferente de antes, agora ele não parecia apenas um guarda-costas.
Parecia alguém segurando algo dentro de si com controle absoluto.
— Senhora Barros — ele disse por fim, mais baixo — isso não faz parte do contrato.
Uila sorriu.
Dessa vez, um sorriso real.
— Ainda.
Ela virou e saiu.
Deixando ele sozinho na sala.
Yuan ficou imóvel.
Por alguns segundos, o único som era o relógio da casa.
Ele desviou o olhar para a mesa de café da manhã.
Tudo perfeitamente preparado.
Como se o mundo dela fosse organizado demais… para alguém como ele entrar sem deixar marcas.
Mas então, pela primeira vez naquele dia, ele puxou a cadeira.
Sentou.
E antes de tocar no café, murmurou quase inaudível:
— Isso vai dar problema.
Só que agora… ele não tinha certeza se estava reclamando.
Ou aceitando.
A casa voltou ao silêncio depois que Uila saiu.
Mas não era um silêncio comum.
Era aquele tipo de silêncio que parece observar.
Yuan permaneceu sentado por alguns segundos, olhando a mesa perfeitamente organizada à frente dele. Café fresco, frutas cortadas com precisão, pães ainda quentes. Tudo excessivamente impecável… como a própria dona da casa.
Ele não tocou em nada de imediato.
Em vez disso, pegou um pequeno aparelho do bolso interno do paletó e conectou discretamente no canto da mesa.
Um rastreador passivo.
Depois olhou ao redor.
Câmeras.
Dois pontos cegos.
Uma entrada lateral.
E um padrão de segurança sofisticado demais para alguém “apenas rico”.
— Você não é só bilionária… — ele murmurou para si mesmo.
No andar de cima, Uila estava diante do espelho.
O robe deslizou levemente pelos ombros enquanto ela prendia o cabelo.
Mas seus pensamentos não estavam na empresa.
Estavam nele.
Yuan.
Calmo demais.
Controlado demais.
E principalmente… indiferente demais ao que ela tinha dito.
Ela franziu o leve sorriso.
— Interessante… — sussurrou.
Como se estivesse analisando um desafio, não um homem.
Quando ela desceu, já estava vestida para destruir reuniões: alfaiataria branca, salto fino, postura impecável.
Yuan estava em pé novamente.
Agora com o café parcialmente tocado.
— Comeu — ela comentou, como se isso fosse uma pequena vitória pessoal.
— Preciso manter desempenho — ele respondeu.
Uila passou por ele, mas parou ao lado da mesa.
— Você sempre fala assim? Como se fosse uma máquina?
— Eu sou pago para não falhar — ele disse.
Ela virou o rosto devagar.
— E se eu quiser que você falhe?
O olhar dele encontrou o dela imediatamente.
Direto.
Sem desvio.
— Não vai querer.
A resposta não foi arrogante.
Foi certeza.
E isso fez o sorriso dela desaparecer por meio segundo.
Só meio.
Depois voltou mais lento.
Mais perigoso.
— Gosto de você — ela disse simplesmente.
Yuan não respondeu.
Mas algo no maxilar dele tensionou.
No carro blindado, o motorista abriu a porta traseira.
Uila entrou primeiro.
Yuan sentou ao lado dela, não atrás.
Posição estratégica.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
— Você sempre senta tão perto de quem contrata você? — ela perguntou.
— Sempre sento onde posso agir rápido.
— Comigo também?
Ele a olhou de canto.
— Principalmente com você.
O carro começou a andar.
A cidade passou como um borrão de vidro e concreto.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou.
Até que Uila quebrou o silêncio:
— Você não parece alguém fácil de se aproximar.
— E você não parece alguém que aceita isso como resposta.
Ela riu baixinho.
— Eu não aceito muitas coisas.
Yuan desviou o olhar para a rua.
— Isso é o que torna você vulnerável.
Ela inclinou a cabeça, interessada de verdade agora.
— Ou perigosa.
Ele não respondeu.
Mas ela percebeu algo diferente.
Ele não discordou.
Quando chegaram ao prédio da empresa, fotógrafos já estavam na entrada.
Uila saiu primeiro.
Yuan veio logo atrás, posição ligeiramente deslocada — sempre entre ela e qualquer ângulo aberto.
Flashs.
Perguntas.
Gritos.
— Uila! Quem é o novo segurança?!
— Ele é seu namorado?!
Ela não respondeu nada.
Mas ao atravessar a multidão, inclinou levemente o rosto e falou baixo só para ele ouvir:
— Vai se acostumando, baby.
Yuan manteve o olhar à frente.
— Não sou seu brinquedo — respondeu no mesmo tom.
Uila sorriu sem olhar para ele.
— Ainda não.
E entrou no prédio como se o mundo inteiro pertencesse a ela.
Yuan veio logo atrás.
Mas agora havia algo diferente.
Ele não estava apenas protegendo.
Ele estava sendo puxado para dentro de algo que não estava no contrato.
E ele já tinha percebido.
Mas ainda não tinha parado.