parte 2 no capítulo 1

1026 Words
Bem mais curto. Castanho-claro. Os cabelos de Elena Ortiz eram negros. — Já requisitamos amostras de cabelo de todas as pessoas que tiveram contato com o corpo — comunicou Rizzoli. Tierney dirigiu sua atenção para o ferimento. — O que temos aqui é um corte transversal. Os cirurgiões chamam isto de uma incisão Maylard. A parede abdominal foi cortada camada a camada. Primeiro a pele, depois a fáscia superficial, o músculo e finalmente o peritônio pélvico. — Como em Sterling — comentou Moore. — Sim. Como em Sterling. Mas há diferenças. — Quais? — Em Diana Sterling havia algumas rebarbas na incisão, indicando hesitação ou incerteza. Aqui você não vê isso. Note a perfeição como a pele foi cortada. Não há nenhuma rebarba. Ele fez isso com confiança absoluta. — Os olhos deTierney encontraram os de Moore. — Nosso amigo está aprendendo. Ele melhorou sua técnica. — Se for o mesmo assassino — disse Rizzoli. — Há mais similaridades. Está vendo a margem quadrada nesta extremidade do ferimento? Ela indica que a trilha foi aberta da direita para a esquerda. Como em Sterling. A lâmina usada neste ferimento é de corte simples e não serrilhada. Como a lâmina usada em Sterling. — Bisturi? — É consistente com um bisturi. A incisão limpa me diz que não ocorreu contorção da lâmina. A vítima ou estava inconsciente ou tão bem amarrada que não podia se mover, não podia resistir. Ela não podia impedir que a lâmina se desviasse de sua trilha linear. Barry Frost parecia a ponto de vomitar. — Minha nossa. Por favor, diga-me que ela já estava morta quando ele fez isso. — Temo que não seja um ferimento post-mortem. — Apenas os olhos verdes de Tierney apareciam sobre a máscara cirúrgica, e eles estavam furiosos. — Houve sangramento antes da morte? — indagou Moore. — Hemorragia na cavidade pélvica. O que significa que seu coração ainda estava bombeando. Ela ainda estava viva quando este... procedimento foi realizado. Moore olhou para os pulsos, rodeados por marcas de abrasão. Havia ferimentos semelhantes em torno de ambos os tornozelos e uma faixa de petéquias — hemorragias cutâneas puntiformes — estendia-se sobre os quadris. Elena Ortiz havia lutado contra suas amarras. — Há outra evidência de que ela estava viva durante a incisão — disse Tierney. — Ponha sua mão dentro do ferimento, Thomas. Acho que você sabe o que vai descobrir. Relutante, Moore inseriu sua mão enluvada dentro do ferimento. A carne estava fria devido a muitas horas de refrigeração. Isso o fez lembrar da sensação de enfiar a mão numa carcaçade peru para procurar pelos miúdos. Ele afundou o braço até o pulso, seus dedos explorando as margens do ferimento. Era uma violação íntima, esta escavação da parte mais privada da anatomia de uma mulher. Ele evitou olhar para o rosto de Elena Ortiz. Era a única maneira com que ele podia tratar seus restos mortais com distanciamento, a única maneira com que poderia concentrar-se na mecânica fria do que tinha sido feito ao seu corpo. — Está faltando o útero — disse Moore, olhando para Tierney. O legista assentiu positivamente. — Foi removido. Moore retirou a mão do corpo e olhou para o ferimento, arreganhado como uma boca aberta. Agora Rizzoli enfiou sua mão enluvada no ferimento, esticando os dedos curtos para explorar a cavidade. — Nada mais foi removido? — perguntou Rizzoli. — Apenas o útero — disse Tierney. — Ele deixou a bexiga e o intestino intactos. — Que é isso que estou sentindo aqui? Este nozinho duro no lado esquerdo? É sutura. Ele a usou para amarrar vasos sangüíneos. Assustada, Rizzoli fitou o legista. — Isto é um nó cirúrgico? — Catgut zero-zero — palpitou Moore, olhando para Tierney em busca de uma confirmação. — A mesma sutura que encontramos em Diana Sterling — disse Tierney com um meneio de cabeça. — Catgut zero-zero? — perguntou Frost numa voz fraca. Ele havia se afastado da mesa e agora estava em pé num canto da sala, preparado para correr até a pia. — Isso é algum tipo de nome de marca ou algo assim? — Não é um nome de marca — explicou Tierney. — Catgut é um tipo de fio cirúrgico feito dos intestinos de vacas ou ovelhas. — Mas por que é chamado de catgut? — foi a pergunta de Rizzoli. — Isso remonta à Idade Média, quando os fios de intestinos eram usados como cordas de instrumentos musicais. Um músico se referia ao seu instrumento como seu kit, e os fios eram chamados kitgut, ou tripa de kit. A palavra acabou se tornando catgut, ou tripa de gato. Em cirurgia, este tipo de sutura é usado para costurar camadas profundas de tecido conectivo. O corpo acaba rompendo o material da sutura e a absorve. — E onde ele conseguiria essa sutura catgut? — Rizzoli olhou para Moore. — Você procurou a fonte dessa coisa no caso Sterling? — É quase impossível identificar uma fonte específica — disse Moore. — A sutura catgut é fabricada por uma dúzia de empresas diferentes, a maioria delas na Ásia. Ainda é usada em muitos hospitais no exterior. — Apenas no exterior? — Hoje existem alternativas melhores — respondeu Tierney. — O catgut não tem a força nem a durabilidade das suturas sintéticas. Duvido que haja muitos cirurgiões americanos usando isso. — E por que o assassino usaria? — Para manter seu campo visual. Para controlar o sangramento por tempo suficiente para poder ver o que está fazendo. Este assassino não identificado é um homem muito meticuloso. Rizzoli tirou a mão do ferimento do cadáver. Em sua palma enluvada havia um pequeno coágulo de sangue, como uma conta brilhante. — Qual é o nível de habilidade dele? Estamos lidando com um médico? Ou com um açougueiro? — Ele claramente possui conhecimento de anatomia — avaliou Tierney. — Não tenho a menor dúvida de que já fez isso antes. Moore deu um passo para trás, repelido pelo pensamento de quanto Elena Ortiz deveria ter sofrido, mas ainda assim incapaz de manter seu controle sobre as imagens. As conseqüências jaziam bem na frente dele, fitando-o com olhos abertos.
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