cap 19

879 Words
Eram dez e meia. Quarta-feira. Preciso conversar com alguém. Esta noite não vou conseguir lidar com isto sozinha. Sentou-se à sua escrivaninha, ligou o computador e observou a tela acender. Esse amontoado de componentes eletrônicos, arame e plástico era seu suporte de vida, seu terapeuta, o único lugar no qual ela conseguia despejar sua dor. Digitou seu nickname na tela, CCORD, acessou a Internet, e com alguns cliques de mouse, algumas palavras digitadas no teclado, navegou até sua sala de bate-papo particular, conhecida simplesmente como womanhelp. Meia dúzia de nomes de tela familiares já estavam lá. Mulheres sem nomes nem rostos, todas atraídas para este refúgio seguro e anônimo no ciberespaço. Ficou sentada durante alguns momentos, observando as mensagens rolarem na tela do computador. Ouvindo, em sua mente, as vozes feridas de mulheres com quem ela nunca havia se encontrado, exceto nesta sala virtual. LAURIE45: E aí, o que você fez? VOTIVA: Disse a ele que não estava pronta. Ainda estava tendo flashbacks. Disse que se ele gostava de mim, ia esperar. CPARTIDO: Fez muito bem. PISCADA98: Não deixa ele te apressar. LAURIE45: Como ele reagiu? VOTIVA: Ele disse que eu devia simplesmente SAIR DESSA. Como se fosse alguma frescura. PISCADA98: Homens deviam ser estuprados!!! CPARTIDO: Precisei de dois anos para ficar pronta. LAURIE45: Mais de um ano para mim. PISCADA98: Esses caras só pensam é nos seus paus. Tudo gira em torno deles. Eles querem apenas satisfazer o TROÇO deles. LAURIE45: Ai, você está p**a esta noite, Piscada. PISCADA98: Talvez eu esteja. Às vezes acho que Lorena Bobbit estava certa. CPARTIDO: Piscada pegando seu machado! VOTIVA: Não acho que ele esteja disposto a esperar. Acho que já desistiu de mim. PISCADA98: Vale a pena esperar por você, Votiva. VALE A PENA! Alguns segundos se passaram, com a caixa de mensagem em branco. Então: LAURIE45: Oi, Ccord. É bom te ver de volta. Catherine digitou. CCORD: Vejo que estão falando sobre homens de novo. LAURIE45: É. Por que será que a gente nunca sai desse assunto? VOTIVA: Porque são eles que machucam a gente. Houve mais uma longa pausa. Catherine respirou fundo e digitou. CCORD: Tive um dia r**m. LAURIE45: Conta pra gente, CC. O que aconteceu? Catherine quase conseguia escutar o som musical de vozes femininas emitindo murmúrios amistosos através do éter. CCORD: Tive um ataque de pânico esta noite. Estava aqui, trancada na minha casa, onde ninguém pode me tocar, e mesmo assim tive uma crise daquelas. PISCADA98: Não deixe ele vencer. Não deixe ele te transformar numa prisioneira. CCORD: É tarde demais. Eu sou uma prisioneira. Porque compreendi uma coisa terrível esta noite. PISCADA98: O que foi? CCORD: O m*l não morre. Nunca morre. Ele apenas adota um novo rosto, um novo nome. Só porque nós fomos tocadas por ele uma vez, não significa que estamos imunes a sermos feridas de novo. Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Ninguém digitou nada. Ninguém respondeu. Por mais cuidadosas que sejamos, o m*l sabe onde nós moramos, ela pensou. Ele sabe como nos encontrar. Uma gota de suor correu por suas costas. E eu o sinto agora. Se aproximando. Nina Peyton não vai a lugar algum, não vê ninguém. Não aparece no trabalho há semanas. Hoje liguei para o seu escritório em Brookline, onde Nina trabalha como representante de vendas, e o colega dela me disse que não sabe quando ela vai voltar para o trabalho. Ela é como uma fera ferida, entocada em sua caverna, com medo demais para sair à noite. Sabe o que a noite reserva para ela, porque já foi tocada pelo m*l. Agora mesmo está sentindo o m*l embrenhar-se, como vapor, pelas paredes de sua casa. As cortinas estão fechadas, mas o tecido é fino, e posso vê-la se movendo lá dentro. Sua silhueta está encolhida, braços apertados contra o peito, como se o corpo dela tivesse se dobrado nele mesmo. Ela caminha de um lado para o outro com movimentos acelerados e mecânicos. Está conferindo as travas nas portas, os ferrolhos nas janelas. Tentando manter a escuridão do lado de fora. Deve estar um forno dentro daquela casinha. A noite está quente, e não há condicionadores de ar em nenhuma das janelas. Ela passou a noite inteira dentro de casa, as janelas trancadas apesar do calor. Eu a imagino reluzindo de suor, desesperada por deixar um pouco de ar fresco entrar, mas com medo do que mais possa passar por suas janelas. Mais uma vez ela passa diante da janela. Fica parada ali, emoldurada pelo retângulo de luz. De repente as cortinas se afastam, e ela estica o braço para soltar a trava. Levanta as janelas. Fica em pé diante delas, aspirando ar fresco. Finalmente foi derrotada pelo calor. Para um caçador, não existe nada mais excitante do que o cheiro de uma presa ferida. Quase consigo sentir o cheiro chegando até mim, o cheiro de um animal ensangüentado. Assim como ela aspira o ar noturno, eu também aspiro seu aroma. Seu medo. Meu coração bate mais depressa. Pego minha maleta, para acariciar os instrumentos. Até o metal é quente ao meu toque. Ela fecha a janela com um estrondo. Algumas respiradas profundas de ar fresco foi tudo que se permitiu e agora retornou para sua casinha quente e abafada.
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