cap 18

675 Words
Horas antes ela não se sentira assim. A visita dos dois detetives deixara-a abalada, e durante toda a tarde flagrara-se cometendo erros. Trocando testes, escrevendo a data incorreta num prontuário. Apenas erros pequenos, mas que eram como ondulações suaves na superfície de um mar com profundezas agitadas. Durante os últimos dois anos tinha conseguido conter todos os pensamentos sobre o que acontecera em Savannah. Vez por outra, sem o menor aviso, era assaltada por uma imagem, afiada como uma navalha, mas conseguia esquivar-se, ocupando sua mente com outros pensamentos. Hoje não tinha conseguido evitar essas lembranças. Hoje não tinha conseguido fingir que Savannah jamais havia acontecido. Os azulejos da cozinha gelaram seus pés descalços. Ela fez um coquetel de suco de laranja com vodca, evitando o excesso dessa última. Bebericou enquanto ralava queijo parmesão e picava tomate, alho e ervas. Sua última refeição tinha sido o café da manhã, de modo que o álcool entrou direto na corrente sangüínea. A tontura da vodca foi agradável e anestesiante. O toque contínuo da faca na tábua de carne, a fragrância de alho e manjericão frescos surtiram um efeito calmante nela. A culinária como terapia. Do outro lado da janela da cozinha, a cidade de Boston era um caldeirão superaquecido de escapamentos de carros e mau humor, mas ali dentro, lacrada atrás do vidro, Catherine placidamente embebia os tomates em azeite de oliva, servia uma taça de Chianti e fervia uma panela de água para cozinhar massa de macarrão fina e fresca. O ar frio sibilava pela saída do ar-condicionado. Sentou-se com sua massa, salada e vinho e comeu enquanto Debussy tocava no aparelho de CD. Apesar da fome e do cuidado que tivera com a preparação da comida, tudo parecia insípido. Forçou-se a comer, mas sua garganta parecia fechada, como se tivesse engolido alguma coisa espessa e glutinosa Mesmo bebendo uma segunda taça de vinho não conseguiu desobstruir a garganta. Pousou o garfo ao lado do prato e fitou o jantar comido pela metade. Ao redor dela, a música subia e descia como ondas no mar. Afundou o rosto nas mãos. A princípio não emitiu nenhum som. Era como se sua dor tivesse ficado engarrafada por tanto tempo que a rolha agora teimava em sair. Um gemido escapou de sua garganta, um som agudo e quase inaudível. E de repente um choro explodiu de seu peito, um choro contendo quase dois anos de dor represada. A violência de suas emoções a assustou, porque ela não conseguia contê-las, não conseguia sondar a profundidade de sua dor ou se um dia seria capaz de dar um fim a ela. Chorou até ficar rouca, até seus pulmões latejarem em espasmos. Durante todo o tempo o som de seu sofrimento foi mantido em seu apartamento selado hermeticamente. Finalmente, seca de lágrimas, deixou-se cair no sofá e mergulhou num sono profundo. Acordou de repente para se descobrir no escuro, coração acelerado, blusa encharcada de suor. Tinha ouvido um ruído? Um vidro sendo quebrado? Passos no corredor? Alguma coisa a acordara de seu sono profundo? Catherine não ousava mover um músculo, por medo de não escutar algum som emitido por um possível intruso. Luzes em movimento brilharam através da janela: os faróis de um carro. A sala de Catherine se iluminou por um instante, e então mergulhou novamente na escuridão. Ela ouviu o chiado de ar gelado passando pela saída do ar-condicionado, o zumbido da geladeira na cozinha. Nada estranho. Nada que pudesse inspirar o medo que ela estava sentindo. Sentou-se e reuniu coragem para acender o abajur. Os horrores imaginários foram afugentados pela luz. Levantou do sofá, caminhando deliberadamente de cômodo em cômodo, ligando as luzes, olhando dentro de armários. Num nível racional, sabia que não havia intruso, que sua casa, com seu sistema de alarme sofisticadíssimo e suas portas e janelas bem trancadas, era tão segura quanto uma casa podia ser. Mas não descansou até acabar o ritual de vistoriar cada reentrância. Quando finalmente estava certa de que sua segurança não tinha sido rompida, ela se permitiu voltar a respirar normalmente.
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