Abriu um arquivo diferente. Respirou fundo e releu o relatório da polícia de Savannah sobre o Dr. Andrew Capra. Capra cometeu seu primeiro assassinato quando estudante de medicina na Emory University de Atlanta. A vítima era Dora Ciccone, uma estudante de 22 anos da mesma universidade, cujo corpo fora achado amarrado à cama em seu apartamento nas proximidades do campus. A autópsia encontrou em seu organismo resíduos de Rohypnol, a droga usada para estupros no golpe boa-noite-cinderela. O apartamento não apresentava sinais de arrombamento. A vítima tinha convidado o assassino à sua casa. Depois de drogada, Dora Ciccone foi amarrada à cama com corda de náilon, e seus gritos abafados com silver tape. Primeiro o invasor a estuprou. Depois a cortou. Ela estava viva durante a operação. Quando completou a excisão, pegou seu brinquedinho e aplicou o golpe de misericórdia: um único corte profundo ao longo do pescoço, da esquerda para a direita. Embora a polícia tivesse o DNA do sêmen do assassino, não tinha pistas. A investigação foi complicada pelo fato de que Dora era conhecida como uma garota promíscua que freqüentava os bares de solteiros das redondezas e freqüentemente levava para casa homens que tinha acabado de conhecer. Na noite em que morreu, o homem que Dora levou para casa era um estudante de medicina chamado Andrew Capra. Mas o nome de Capra não chamou a atenção da polícia até três mulheres serem chacinadas na cidade de Savannah, a 32 quilômetros dali. Finalmente, numa quente e abafada noite de junho, os assassinatos terminaram. Catherine Cordell, 31 anos, médica plantonista e chefe da cirurgia do Riverland Hospital de Savannah, foi surpreendida por alguém batendo à sua porta. Quando abriu, deparou-se com Andrew Capra, um dos seus residentes de cirurgia, na varanda. Mais cedo naquele mesmo dia, no hospital, Catherine repreendera-o por um erro que Capra tinha cometido, e agora ele estava desesperado para saber como poderia se redimir. Será que podia entrar para conversar com ela sobre isso? Enquanto tomavam algumas cervejas, os dois analisaram o desempenho de Capra como residente. Todos os erros que ele cometera, os pacientes que podiam ter sido prejudicados por sua falta de cuidado. Catherine não teve papas na língua. Disse que Capra estava fracassando e que não receberia permissão para terminar o programa de cirurgia. Em algum momento da noite, Catherine saiu da sala para ir ao banheiro, e então voltou para continuar a conversa e terminar sua cerveja. Quando recobrou a consciência, descobriu-se completamente nua e amarrada à cama com uma corda de náilon. O relatório da polícia descrevia, com detalhes horrendos, o pesadelo que se seguiu. Fotografias tiradas dela no hospital revelaram uma mulher com olhos aterrorizados, uma face ferida e horrivelmente inchada. O que Moore viu, nessas fotos, estava resumido numa palavra genérica: vítima. Não era uma palavra que se aplicava à mulher extremamente autocontrolada que ele conhecera hoje. Agora, relendo o depoimento de Cordell, Moore podia ouvir a voz dela em sua cabeça. As palavras não mais pertenciam a uma vítima anônima, mas a uma mulher cujo rosto ele conhecia. Não sei como soltei a mão. Meu pulso agora está todo arranhado, de modo que devo tê-lo puxado através do nó da corda de náilon. Sinto muito, mas as coisas não estão claras na minha mente. Tudo que lembro é ter esticado a mão para pegar o bisturi. De saber que precisava tirar o bisturi da bandeja. Que tinha de cortar a corda de náilon, antes que Andrew voltasse... Lembro-me de ter rolado para o lado da cama. De cair no chão e bater a cabeça. Depois tentei achar a arma. Era o revólver do meu pai. Depois que a terceira mulher foi assassinada em Savannah, ele tinha insistido em que eu ficasse com a arma. Lembro-me de enfiar a mão debaixo da cama. De pegar a arma. Lembro-me de ouvir passos vindo para o quarto. Depois... depois não tenho certeza. Deve ter sido quando atirei nele. Sim, foi isso que aconteceu. Me disseram que atirei nele duas vezes. Deve ser verdade. Moore fez uma pausa enquanto meditava sobre o depoimento. A balística confirmara que ambas as balas foram disparadas da arma, registrada em nome do pai de Catherine, que foi achada ao lado da cama. Exames de sangue no hospital confirmaram a presença de Rohypnol na sua corrente sangüínea. Como essa era uma droga indutora de amnésia, era perfeitamente lógico que ela estivesse com lapsos de memória. Quando Cordell foi levada para a Emergência do hospital, os médicos descreveram-na como confusa, devido à droga ou a uma possível concussão. Apenas um golpe forte na cabeça poderia ter deixado seu rosto tão ferido e inchado.