EP 4

546 Words
Moore e Rizzoli estavam sentados no carro, suando, enquanto ar quente soprava da saída do ar-condicionado. Estavam presos no tráfego havia dez minutos, e o carro não estava ficando mais frio. — Os cidadãos pagam seus impostos, e mesmo assim este carro é um lixo — disse Rizzoli. Moore desligou o ar-condicionado e baixou o vidro de sua janela. O odor de asfalto quente e de fumaça de cano de descarga entrou no carro. Ele já estava coberto de suor. Não sabia como Rizzoli conseguia manter seu blazer fechado; ele se livrara do paletó no instante em que pusera os pés fora do Pilgrim Medical Center, e eles foram envolvidos por um lençol pesado de umidade. Sabia que Rizzoli estava com calor, porque podia ver suor brilhando em seu lábio superior, um lábio que provavelmente jamais fora apresentado a um batom. Rizzoli não era feia, mas, enquanto outras mulheres suavizavam suas feições com maquiagem ou as adornavam com brincos, Rizzoli parecia determinada a reduzir seus atrativos. Usava terninhos escuros que não favoreciam seu corpo pequeno, e os cabelos eram um amontoado desmazelado de cachos negros. Ela era quem ela era, e você ou aceitava isso ou podia ir para o inferno. Moore entendia por que ela adotava essa atitude agressiva; provavelmente precisava disso para sobreviver como policial. Rizzoli era, acima de tudo, uma sobrevivente. Assim como Catherine Cordell. Mas a Dra. Cordell tinha desenvolvido uma estratégia diferente: distanciamento. Durante a entrevista, Moore tivera a impressão de vê-la através de um vidro embaçado, tão distante era sua atitude. Foi isso que irritou Rizzoli. — Tem alguma coisa estranha com ela — disse a detetive. — Falta alguma coisa no departamento de emoções. — Ela é uma cirurgiã de traumatismos. Foi treinada para manter a calma. — Calma e frieza são coisas diferentes. Há dois anos ela foi amarrada, estuprada e quase eviscerada. E está tão calma em relação a isso que me deixa com a pulga atrás da orelha. Moore freou para um sinal vermelho. Suor escorria por suas costas. Ele não funcionava bem naquela temperatura; o calor fazia com que se sentisse lerdo e e******o. Fazia-o sonhar com o fim do verão, com a pureza da primeira neve de inverno... — Ei! — disse Rizzoli. — Está ouvindo? — Ela é muito controlada — concedeu Moore. Mas não é fria, pensou ele, lembrando como a mão de Catherine Cordell estava tremendo ao lhe devolver as fotos das duas mulheres. De volta à sua mesa, Moore bebericou uma coca-cola morna e releu o artigo publicado algumas semanas antes no Boston Globe: “Mulheres com a Faca na Mão”. Ele falava sobre três cirurgiãs de Boston — seus triunfos e percalços, os problemas específicos que enfrentavam em suas especialidades. Das três fotos, a de Cordell era a mais impressionante. Era mais do que o simples fato de ser uma mulher bonita; era o seu olhar, tão orgulhoso e direto que parecia desafiar a câmera. A foto, como o artigo, reforçava a impressão de que a mulher estava no controle de sua própria vida. Moore colocou o artigo de lado e ficou sentado ali, pensando no quanto primeiras impressões podiam ser equivocadas. Como a dor podia tão facilmente ser mascarada por um sorriso, por um queixo empinado.
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