Ainda não parte 3 e quase 4

1025 Words
Catherine despiu o avental e as luvas ensangüentados e acompanhou a maca que retirava o paciente não identificado da Sala de Traumatismo Dois. Os músculos de seus ombros latejavam de cansaço, mas um cansaço bom. A exaustão da vitória. As enfermeiras empurraram a maca para o elevador, para levar o paciente até a Unidade de Tratamento Intensivo. Catherine estava quase entrando no elevador também quando ouviu alguém chamar seu nome. Virou-se para ver um homem e uma mulher aproximando-se. A mulher era baixa, com uma expressão permanentemente zangada, uma morena com olhos de carvão e olhar fulminante como laser. Vestia um terninho azul austero que a deixava com uma aparência quase militar. Parecia uma anã ao lado de seu companheiro, um homem bem alto, no meio da casa dos quarenta, com fios prateados salpicados no cabelo escuro. A maturidade cavara linhas sóbrias no que ainda era um rosto extremamente bonito. Foi nos olhos dele que Catherine se concentrou. Eram cinza-claros e impenetráveis. — Doutora Cordell? — perguntou ele. — Sim. — Sou o detetive Thomas Moore. Esta é a detetive Rizzoli. Somos da Delegacia de Homicídios. O detetive mostrou seu distintivo, que até poderia ter sido comprado numa loja de brinquedos, porque ela m*l o olhou. Sua atenção estava inteiramente concentrada em Moore. — Podemos conversar em particular? — perguntou. Ela se virou para as enfermeiras que esperavam no elevador, junto com o paciente não identificado. — Podem ir — disse Catherine. — O Doutor Littman vai escrever as ordens. Foi apenas depois que a porta do elevador tinha se fechado que Catherine se dirigiu ao detetive Moore. — É sobre o atropelamento que acaba de chegar? Porque parece que ele vai sobreviver. Não estamos aqui para falar de um paciente. — Você não disse que é da Homicídios? — Sim. Foi o tom sereno de sua voz que alarmou Catherine. Um aviso gentil para que ela se preparasse para más notícias. — É sobre... meu Deus, espero que não seja sobre alguém que eu conheça. — É sobre Andrew Capra. E o que aconteceu com a senhora em Savannah. Por um momento ela não conseguiu falar. Suas pernas subitamente ficaram bambas, e ela teve de se encostar na parede para não cair. — Doutora Cordell? — disse ele com preocupação. — Está se sentindo bem? — Eu acho... eu acho que devemos conversar na minha sala — sussurrou a doutora. Virou-se abruptamente e saiu da Emergência. Não olhou para trás para ver se os detetives a seguiam; apenas continuou caminhando, fugindo em direção à segurança de sua sala, no prédio de clínicas adjacente. Ela ouviu os passos dos detetives atrás dela enquanto navegava através do imenso complexo que era o Pilgrim Medical Center. O que aconteceu com a senhora em Savannah? Ela não queria falar sobre isso. Esperara jamais falar sobre Savannah com ninguém, nunca mais. Mas esses eram oficiais de polícia e suas perguntas não podiam ser evitadas. Finalmente chegaram a uma sala com a placa: Dr. Peter Falco Dra. Catherine Cordell Cirurgia geral e vascular Catherine adentrou na recepção. A recepcionista levantou os olhos do que estava fazendo e lhe dirigiu um sorriso automático de saudação. O sorriso ainda não estava completo quando se congelou em seus lábios. A mulher tinha visto o rosto pálido de Catherine e notado os dois estranhos que a acompanhavam. Doutora Cordell? Alguma coisa errada? — Estaremos em minha sala, Helen. Por favor, segure minhas ligações. — Seu primeiro paciente vai chegar às dez. Senhor Tsang, consulta de acompanhamento de sua esplenectomia... — Cancele. — Mas ele mora lá em Newbury. Provavelmente já está no carro. — Então peça para ele esperar. Mas, por favor, não me passe nenhum telefonema. Ignorando a expressão de espanto de Helen, Catherine seguiu direto até sua sala, Moore e Rizzoli seguindo-a de perto. Ela imediatamente estendeu o braço para pegar seu jaleco branco. Ele não estava pendurado no gancho atrás da porta, onde sempre o guardava. Foi apenas uma pequena frustração, mas aumentou a tensão que já estava sentindo, quase como se aquilo fosse mais do que podia suportar. Olhou à sua volta, perscrutando a sala em busca do jaleco como se sua vida dependesse disso. Viu-o dobrado sobre o arquivo, e foi tomada por uma sensação quase irracional de alívio ao pegá-lo e se posicionar atrás da sua mesa. Sentiu-se segura ali, atrás do móvel lustroso, de p*u-rosa. Mais segura e no controle das coisas. A sala era um lugar arrumado com cuidado, como tudo em sua vida. Catherine não tolerava desmazelo, e suas fichas ficavam organizadas em duas pilhas perfeitas na mesa. Seus livros estavam ordenados alfabeticamente por autor nas prateleiras. O computador zumbia baixinho, o protetor de tela construindo padrões geométricos no monitor. Catherine vestiu o jaleco para cobrir o uniforme manchado de sangue. A camada adicional de roupa pareceu mais um escudo de proteção, mais uma barreira contra os caprichos da vida. Sentada atrás da mesa, observou Moore e Rizzoli passando os olhos pela sala, sem dúvida avaliando sua ocupante. Seria essa uma atitude automática dos policiais, essa rápida análise visual, essa estimativa da personalidade de um indivíduo? Aquilo fez Catherine sentir-se exposta e vulnerável. — Eu sei que esse é um assunto muito doloroso de se recordar — disse Moore enquanto se sentava. — Você não faz idéia do quanto. Já se passaram dois anos. Por que vieram me procurar agora? — Porque está relacionado com dois homicídios não solucionados, aqui em Boston. Catherine franziu a testa, intrigada. — Mas eu fui atacada em Savannah. — Sim, nós sabemos. Existe um banco de dados nacional chamado PAC. Quando fizemos uma busca no PAC, procurando por crimes semelhantes aos nossos homicídios aqui, o nome de Andrew Capra veio à tona. Catherine ficou calada por um momento, absorvendo a informação. Reunindo a coragem necessária para colocar a próxima questão lógica. Ela conseguiu perguntar calmamente: — De que similaridades estamos falando? — A maneira como as mulheres foram imobilizadas e controladas. O tipo de instrumento de corte usado. A... — Moore fez uma pausa, esforçando-se por formular as palavras da forma mais delicada possível. — A escolha da mutilação.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD