3 ainda

869 Words
Catherine segurou o tampo da mesa com ambas as mãos, lutando para conter uma vontade repentina de vomitar. Seu olhar bateu nos arquivos empilhados com tanto zelo à sua frente. Notou uma mancha de tinta azul manchando a manga do seu jaleco. Por mais que você tente manter a ordem em sua vida, por mais que você tente se guardar contra erros, contra imperfeições, sempre há alguma mancha, alguma falha, espreitando onde não pode ser vista. Aguardando para surpreender você. — Fale mais sobre elas — disse Catherine. — As duas mulheres. — Não temos licença para revelar muita coisa. — O que podem me dizer? Não mais do que saiu no Globe de domingo. Catherine levou alguns segundos para processar o que ele acabara de dizer. Com uma expressão de interesse, perguntou: — Esses assassinatos em Boston... eles são recentes? — O último foi cometido sexta-feira passada. — Então isso não tem nada a ver com Andrew Capra! Nada a ver comigo! — As similaridades impressionam. — Apenas coincidência. Só pode ser. Achei que vocês estavam falando sobre crimes antigos. Alguma coisa que Capra fez anos atrás. Não na semana passada. — Abruptamente, ela empurrou sua cadeira para trás. — Não vejo em que possa ajudá-los. — Doutora Cordell, esse assassino conhece detalhes que nunca foram divulgados ao público. Ele detém informações sobre os ataques de Capra que ninguém de fora da investigação de Savannah sabe. Então talvez devessem procurar essas pessoas. As que sabem. — A senhora é uma delas, Doutora Cordell. — Caso tenha esquecido, eu fui uma vítima. — Já conversou detalhadamente sobre o seu caso com alguém? — Apenas com a polícia de Savannah. — Não falou sobre o assunto com seus amigos? — Não. — Família? — Não. — A senhora deve ter dito alguma coisa a alguém. — Eu não falei sobre o assunto. Eu nunca falo sobre o assunto. Moore fixou um olhar descrente na doutora. — Nunca? Ela desviou o olhar. — Nunca — disse com um suspiro. Seguiu-se um longo silêncio. Então Moore perguntou, suavemente: — O nome Elena Ortiz lhe é familiar? Não. — Diana Sterling? — Não. Elas são as mulheres que... — Sim. São as vítimas. Catherine engoliu em seco. — Não conheço seus nomes. — Não sabia nada sobre esses assassinatos? — Tenho por hábito jamais ler notícias trágicas. É simplesmente uma coisa com que não consigo lidar. — Ela deixou escapar um suspiro cansado. — Procurem entender, eu já vejo muitas coisas horríveis na Emergência. Quando chego em casa, no fim do dia, só quero paz. Quero me sentir segura. O que acontece no mundo... toda a violência... eu não preciso ler sobre ela. Moore enfiou a mão no bolso do paletó e retirou duas fotografias, que deslizou pelo tampo da mesa para ela. — Reconhece alguma dessas mulheres? Catherine olhou para os rostos. A da esquerda tinha olhos negros e uma risada nos lábios, vento no cabelo. A outra era uma loura etérea, seu olhar sonhador fitando ao longe. — A morena é Elena Ortiz — disse Moore. — A outra é Diana Sterling. Diana foi assassinada há um ano. Esses rostos lhe parecem familiares? Ela fez que não. — Diana Sterling morava em Back Bay, a apenas oitocentos metros da sua residência, doutora. O apartamento de Elena Ortiz fica apenas dois quarteirões a sul deste hospital. Talvez a senhora tenha visto as duas. Tem mesmo certeza de que não reconhece nenhuma das duas mulheres? — Nunca vi antes. Catherine empurrou de volta as fotos para Moore e subitamente viu que sua mão estava tremendo. Certamente ele tinha notado isso ao recolher as fotos, quando seus dedos roçaram os dela. Catherine pensou que ele, como policial, devia ser muito atento a essas coisas. Ela tinha se concentrado tanto em seu próprio sofrimento que m*l prestara atenção a esse homem. Ele tinha sido. calmo e gentil, e ela não se sentira ameaçada de forma alguma. Só agora Catherine compreendia que ele a estivera estudando atentamente, esperando por um vislumbre da verdadeira Catherine Cordell. Não a renomada cirurgiã, não a ruiva fria e elegante, mas a mulher por baixo da superfície. Agora foi a detetive Rizzoli quem falou e, ao contrário de Moore, não fez qualquer esforço para suavizar suas perguntas. Simplesmente queria respostas e não estava disposta a perder tempo para consegui-las. — Doutora Cordell, quando se mudou para cá? — Saí de Savannah um mês depois de ter sido atacada — disse Catherine, respondendo a Rizzoli no mesmo tom profissional. — Por que escolheu Boston? — Por que não? — Fica bem longe do sul. — Minha mãe cresceu em Massachusetts. Ela nos levava até Nova Inglaterra todo verão. Era como... como voltar para casa. — Então você está aqui há mais de dois anos. — Sim. — Fazendo o quê? Catherine franziu a testa, perplexa com a pergunta. — Trabalhando aqui no Pilgrim, com o Doutor Falco. Na Unidade de Traumatismos. — Então acho que o Globe estava errado. — Perdão? — Li o artigo que saiu sobre a senhora há algumas semanas. Bela foto a sua, a propósito. A matéria dizia que está trabalhando aqui no Pilgrim há apenas um ano.
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