parte 2 EP 2

574 Words
Elena Ortiz não teve tempo para gritar. Ou, se teve, ninguém a ouviu. Nem a família do apartamento ao lado, nem o casal que mora embaixo. O intruso estava com suas ferramentas. Silver tape. Um pano embebido em clorofórmio. Uma coleção de instrumentos cirúrgicos. Ele tinha vindo totalmente preparado. O tormento duraria bem mais de uma hora. Elena Ortiz esteve consciente pelo menos durante parte do tempo. A pele dos seus pulsos e tornozelos apresentava escoriações, indicando resistência da vítima. Em seu pânico, sua agonia, ela havia esvaziado a bexiga, e a urina tinha se infiltrado no colchão, misturando-se com o sangue. A operação era delicada, e ele teve tempo de fazê-la corretamente, de pegar apenas o que queria, nada mais. Ele não a tinha estuprado; talvez fosse incapaz de fazer isso. Quando ele terminou de fazer sua incisão terrível, ela ainda estava viva. O ferimento pélvico continuava a sangrar, o coração a bombear. Por quanto tempo? Segundo a estimativa do Dr. Tierney, ao menos meia hora. Trinta minutos, o que deve ter parecido uma eternidade para Elena Ortiz. O que você fez durante esse tempo? Arrumou suas ferramentas? Guardou seu prêmio num vidro? Ou apenas ficou parado ali, apreciando a vista? O ato final foi rápido e profissional. Tendo retirado o que queria, o algoz de Elena Ortiz julgou que era hora de terminar. Caminhou até a cabeceira da cama. Com a mão esquerda segurou um punhado do cabelo de Elena, puxando para trás com tanta força que arrancou mais de duas dúzias de tufos. Foram encontrados depois, espalhados no travesseiro e no chão. As manchas de sangue narravam os eventos finais. Tendo imobilizado a cabeça e exposto o pescoço, desferiu um único corte profundo que começou na mandíbula esquerda e se moveu para a direita, sobre a garganta. Cortou a artéria carótida esquerda e a traquéia. Jorrou sangue. Na parede à esquerda da cama havia grupos condensados de gotinhas escorridas, característica tanto de jato arterial quanto de exalação de sangue da traquéia. O travesseiro e os lençóis estavam saturados de sangue gotejado. Vários pingos esparsos, espirrados quando o intruso afastou a lâmina do pescoço da vítima, salpicaram o peitoril da janela. Elena Ortiz vivera o suficiente para ver seu próprio sangue jorrar do pescoço e atingir a parede num borrifo vermelho. Vivera tempo suficiente para aspirar sangue para sua traquéia cortada, para ouvi-lo gorgolejar em seus pulmões, para tossi-lo em erupções de muco escarlate. Vivera o suficiente para saber que estava morrendo. E quando terminou, quando a agitação agonizante cessou, você nos deixou um cartão de visitas. Você dobrou cuidadosamente a camisola da vítima e a deixou na penteadeira. Por quê? Foi algum sinal de respeito distorcido pela mulher a quem havia acabado de chacinar? Ou essa é sua forma de escarnecer de nós? Sua forma de nos dizer que está no controle da situação? Moore retornou para a sala de estar e afundou numa poltrona. Estava quente e abafado no apartamento, mas ele estava tremendo. Ele não sabia se o frio era físico ou emocional. Suas coxas e ombros estavam latejando, de modo que devia ser algum tipo de infecção virótica. Um resfriado de verão, o pior tipo. Ele pensou em todos os lugares onde preferia estar naquele momento. Vagando num lago do Maine, sua linha de pesca chicoteando o ar. Ou em pé na praia, observando a neblina serpentear sobre a água. Em qualquer parte, menos neste lugar de morte.
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